segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Zezita Matos, naturalmente, Atriz



Zezita Matos_foto Suyene Correia_http://bangalocult.blogspot.com
A atriz Zezita Matos passou duas semanas em Aracaju...
Foi no Curta-SE do ano passado, após a sessão de "A História da Eternidade", que tive o prazer de trocar rápidas palavras com a atriz paraibana Zezita Matos. Juntamente com a atriz cearense Débora Ingrid, ela tinha vindo a Aracaju, a fim de representar o filme do diretor pernambucano Camilo Cavalcante, que competia na Mostra de longa-metragem. Porém, devido a compromissos, em João Pessoa, Zezita viajaria na madrugada do dia seguinte, frustrando minha expectativa de entrevistá-la, naquela ocasião.

Ao final do festival, ambas foram premiadas com o troféu Ver ou Não Ver, por conta de suas atuações em "A História da Eternidade", mas para mim, não foi nenhuma surpresa a tarimbada "Primeira Dama do Teatro" (ela prefere ser chamada de "Operária do Teatro"), acumular mais um troféu na estante, tendo em vista suas performances nos longas "Mãe e Filha" de Petrus Cariry, "O Céu de Suely" de Karim Aïnouz e o curta-metragem "Azul" de Eric Laurence. Eis que o tempo conspirou a meu favor e, quase um ano depois, Zezita me avisa que está retornando à capital sergipana, para apresentar "Memórias de um Cão", novo espetáculo do Coletivo de Teatro Alfenim, do qual faz parte há nove anos.

Não só eu teria a chance de vê-la em cena, como também de realizar a tão esperada entrevista. No espetáculo dirigido por Márcio Marciano, baseado nas obras "Quincas Borba" e "Memórias Póstumas de Brás Cuba" de Machado de Assis, Zezita explora sua versatilidade, interpretando várias personagens, em participações pontuais, porém marcantes. Mesmo para quem nunca viu outro trabalho da atriz antes, seja no teatro ou no cinema, não tem como negar a potência do seu olhar, do seu gestual. Herança adquirida de uma vida dedicada a arte de interpretar, que começou em 1958,  no Teatro Santa Rosa, interpretando "Prima Dona" de José Maria Monteiro e, pelo jeito, está longe de acabar.

Nossa conversa aconteceu no hotel onde os atores do Coletivo Alfenim ficaram hospedados durante duas semanas. Em pouco mais de uma hora e meia, Zezita traçou sua trajetória artística, elencando importantes papéis do seu vasto currículo e discorreu sobre política, educação, cinema, literatura e família.  Em 57 anos de exercício da arte de interpretar, ela acumula 36 espetáculos, pouco mais de uma dúzia de filmes, entre longas e curtas-metragens e uma infinidade de prêmios.  O cinema, porém, entrou com força total na sua vida, em 1999, quando Marcus Vilar a convidou para atuar em "A Canga". Antes, ela só havia trabalhado com Walter Lima Jr., em 1965, no longa-metragem "Menino de Engenho". Sobre a participação nesse filme de estreia de Lima Jr, como uma das costureiras de Maria Menina (Anecy Rocha), Zezita revela um fato inusitado durante a seleção. 

"O pessoal que iria escolher as atrizes, havia marcado um determinado horário, mas chegou muito tempo depois. Minhas colegas, à medida que foram sendo chamadas para o teste, interpretavam o texto decorado, que tinha sido dado pela produção. Na minha vez, eu reclamei da demora deles, perguntei o que eles pensavam que a gente era, para esperar tanto, enfim, improvisei. E desse improviso, desse desabafo, terminei sendo selecionada. Para mim, foi uma enorme felicidade, não só pelo fato de trabalhar com nomes como Walter Lima Jr., Anecy Rocha, Maria Lúcia Dahl, mas também, pela oportunidade de voltar a Pilar, minha terra natal e locação das filmagens", explica a conterrânea de  José Lins do Rego.

Atriz Zezita Matos_foto Suyene Correia_http://bangalocult.blogspot.com
... com a peça "Memórias de um Cão" do Coletivo Alfenim...  
Na cidade em que nasceu, distante 55 km de João Pessoa,  Severina de Souza Pontes, ou melhor, Zezita Matos morou até os seis anos de vida. Mudou-se, então para Campina Grande, onde estudou no Colégio das Damas (um colégio de freiras, com regime de internato) até os 16 anos. Em 1957, mudou-se para João Pessoa, estudando, inicialmente,  no Lins de Vasconcelos para, no ano seguinte, ingressar no Liceu.  Em agosto, conheceu o cenógrafo Breno Matos (seu futuro marido), que não só a levou para o teatro, mas também, para o Partido Comunista (ela chegou a ser secretária das Ligas Camponesas).  "Contrariando o dito que "agosto é o mês do desgosto', tenho muito o que comemorar, nesse mês. Além do meu aniversário", conta.

A carreira no teatro iniciou no Grupo Popular de Arte, ainda no final dos anos de 1950 e, a partir de 1964,  integrou outros grupos, como o de Cruz das Almas e do Teatro Santa Rosa. No início dos anos de 1980, Zezita se tornaria a primeira mulher a dirigir o Teatro Santa Rosa, ganhando o epíteto do amigo Everaldo Vasconcelos de "Primeira Dama do Teatro". Concomitantemente, à carreira de atriz, Zezita sempre esteve ligada à área de educação, tendo se graduado em Letras e administrado instituições de ensino estaduais.

"Meu  pai permitiu que eu fizesse teatro, contanto que eu me formasse e tivesse uma profissão paralela. Selei esse compromisso com ele e, de uma certa forma, isso pesou para que eu decidisse ficar perto da minha família e não aventurasse, na carreira de atriz, fora da Paraíba".  De toda forma, ainda que com três filhos pequenos (Oriêta, Dinaura e Breno Jr.) para educar, Zezita manteve uma frequência quase que ininterrupta nos palcos. "Só parei um ano, para me dedicar a uma especialização em São Paulo. Fora isso, sempre estive atuando. Até quando estava amamentando minha segunda filha, com um mês de vida, ensaiei "A Cotovia" com uma norte-americana, Leslie, em minha residência".

Outros trabalhos que a atriz destaca do seu currículo teatral são : "Judas em Sábado de Aleluia", "A Farsa da Boa Preguiça", "Brevidades", "O Milagre Brasileiro", "Quebra Quilos" e "As Velhas". Esse último foi marcante em vários sentidos, não só pelo fato de Zezita ter passando pelo processo de separação com Breno, na época da montagem, como o diretor, Ângelo Nunes, ter morrido num acidente de carro, antes da estreia. "Ainda sob o impacto da morte de Ângelo, nós decidimos levar o espetáculo adiante e Duílio Cunha, assistente de direção, assumiu o comando dessa peça escrita por Lourdes Ramalho. Por sorte, uma de nossas apresentações foi vista pelo pessoal do SESC, que gostou e nos convidou para percorrer o Brasil, dentro do projeto Palco Giratório. O espetáculo ficou em cartaz durante oito anos".

Nesta peça, Zezita interpreta uma mulher nordestina que sai em companhia dos filhos, à procura de seu marido, que fugiu com uma cigana. Ela perambula pelo Nordeste, durante anos, e quando o encontra, ele está preso a uma cadeira de rodas. "É uma história forte que eu me emocionei muito ao fazer". Assim como os espetáculos "O Milagre Brasileiro" e "Brevidade", ambos de autoria de Márcio Marciano (ex- Cia do Latão e fundador do Coletivo Alfenim). No primeiro, Márcio construiu uma metáfora de Antígona para contar a busca dos desaparecidos políticos durante a Ditadura Militar. Como Zezita teve muitos amigos presos, alguns torturados, durante o regime ditatorial no Brasil, não tinha como não se lembrar do passado. "É um  espetáculo lindíssimo! Sempre me emocionava em cena. O primeiro ensaio foi no Festival Latino-americano em SP".

Já "Brevidades", conta a história de uma atriz que sofre do Mal de Alzheimer que interage com a plateia, convidando o espectador a tomar chá em mesas postas no espaço de representação. "Márcio não quis montar um monólogo, daqueles tradicionais. Então, eu interajo com cada espectador que senta à mesa e as reações são diversificadas e inusitadas. Teve gente que chorou copiosamente no meio da apresentação e tive que contornar a situação, improvisando". 

Zezita Matos_foto Suyene Correia_http://bangalocult.blogspot.com
...num tempo livre,  falou do amor pelo teatro e pelo cinema
Mas nem só de trabalhos marcantes no teatro é alimentada a carreira de Zezita Matos. Ainda que tenha feito, relativamente, pouco trabalho no cinema, ela também relata suas experiências emocionantes na composição das personagens que já viveu. "Depois de fazer 'A Canga' com Marcus Vilar, recebi o convite do Marcelo Gomes para participar de 'Cinema Aspirinas e Urubus'. Quando li o roteiro, fiquei apaixonada pela história e disse-lhe,  que mesmo que não entrasse no elenco, após os laboratórios que fizemos em Recife, não tinha problema. Mas ele me presenteou com a Mulher da Galinha, e quando revejo o filme, acho a cena linda".

Já em "O Céu de Suely", quando Karim Aïnouz a convidou para participar do filme, não só Zezita ficou feliz, mas também o ator João Miguel. Ambos se conheciam de longa data, por conta de um período em que o baiano morou em João Pessoa e conviveu com os atores do Grupo Piollin, do qual faz parte Everaldo Pontes, irmão da atriz e um dos fundadores do grupo.

"O João Miguel ficou muito feliz quando soube que íamos trabalhar juntos. Encontramo-nos em Recife, num dia de laboratório para "O Céu de Suely". Falei para ele, que eu não acreditava em coisa do destino, mas João pensa, diferentemente, de mim. As filmagens começaram e, primeiro fomos a Triunfo e depois, seguiríamos para Patos. No dia de filmar em Patos, vou prá João Pessoa, pego o ônibus e sigo para a locação. Quando chego na rodoviária, lá está João Miguel, todo feliz. Me aproximo dele e ele me pega nos braços, rodopia assim e eu sem entender nada. Aí, ele me coloca no chão e me dá um jornal, que tinha uma entrevista  minha, de meses, talvez de um ano, onde eu dizia: 'eu acredito em sonhos. A utopia existe'. Ele tinha ido prá feira, comprar o pente que ele usa no filme  e o comerciante embrulhou o pente num  jornal, que tinha estampado o meu rosto. Diante da coincidência, João me disse: 'esse filme vai longe'. E foi mesmo".

Uma das coisas que mais encantou Zezita, durante o processo de trabalho com o diretor Karim Aïnouz, foi o fato dos personagens terem os mesmos nomes dos atores e eles não seguirem um roteiro. "Simplesmente o Karim passava prá gente uma situação e nós improvisávamos. Até, então, nunca havia trabalhado desse jeito e a experiência foi fantástica", diz entusiasmada.

Zezita foi encorpando o currículo cinematográfico e com papéis pequenos ou de protagonista, sempre ilumina a tela, quando está em cena. Paulatinamente, a crítica e os diretores foram observando suas atuações, sendo hoje uma figura constante nos festivais de cinema pelo país, abocanhando prêmios de interpretação. "Acho que o prêmio é bom, é válido, mas o mais importante é o que o trabalho reverbera no entorno. Isso vale tanto para o teatro como para o cinema". O mais recente deles veio de Rondônia, do 6o Curta Amazônia Mundi- Festival de Cinema, onde ganhou o prêmio de Melhor Atriz pelo curta "Olhos de Botão" de Marlom Meirelles.

Mesmo sendo uma cinéfila, desde a adolescência (ela se arrepende de ter jogado fora as edições que tinha da revista Cinelândia), Zezita é apaixonada mesmo pelo teatro. Segundo ela, o que lhe encanta nessa arte é o caráter efêmero e o contato direto com  o espectador. "Cada dia é uma experiência nova e a gente pode modificar ao logo dos dias, da temporada, nossa performance. Isso me fascina".

Admiradora da escrita de Mario Benedetti, Mia Couto e Gabriel García Marques, atualmente, Zezita Matos tem circulado por cidades do Nordeste com o espetáculo "Memórias de um Cão" do Coletivo de Teatro Alfenim, mas divide o tempo com atividades ligadas à área de educação (é coordenadora do programa de Responsabilidade Cultural do Unipê) e com o cinema. Em breve, ela estará no set de filmagem para a realização de dois novos curtas e, até o final do ano, deverá ser lançado o longa-metragem "Língua Seca" de Homero Olivetto, em que faz o papel de uma beata.

Quando questionada sobre a possibilidade de vir a Aracaju, participar de um curta sergipano, ela não pestanejou: "se for convidada, eu venho". Não seria nada mal, se Zezita se inspirasse numa das personagens de Antônio Carlos Viana, em "Jeito de Matar Lagartas" (livro que ela está lendo, fascinada), para sua performance. Fica dada a sugestão!


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