terça-feira, 18 de setembro de 2018

51o Festival de Brasília (Terceiro Dia)

Demorei para escrever sobre o 3o dia de programação de Mostra Competitiva, do 51o Fest Brasília, porque ainda estava digerindo o filme "New Life S.A." do brasiliense André Carvalheira. É bom que se diga, que a Mostra Competitiva de Curta, ocorre pouco antes da exibição dos longas concorrentes, mas ainda não vi nada dessa categoria que merecesse uma linhas por aqui. Até agora, foram exibidos "Boca de Loba" de Bárbara Cabeça; "Kairo" de Fabio Rodrigo; "Liberdade" de Pedro Nishi e Vinícius Silva; "Sempre Verei Cores no Seu Cinza" de Anabela Roque.

Voltando ao longa-metragem de Carvalheira, apesar de ser um experiente diretor de fotografia, não conseguiu obter êxito na sua primeira investida na direção de um longa-metragem. Isso porque, o diretor usou como referência para criar sua pseudo produção surrealista, o cinema do mestre Luis Buñuel, mas sem o talento do mesmo, para construir sátiras ao estilo de "O Discreto Charme da Burguesia",  seu "New Life S.A." aproxima-se mais de um realismo grotesco.

No início, o filme parece querer flertar com o humor, quando vemos um político gravando dentro de um carro, sua propaganda eleitoral. O personagem é uma caricatura do que vemos, diariamente, no horário eleitoral gratuito. No entanto, à medida que a narrativa vai se desenvolvendo, deparamo-nos com situações tão bizarras- como a cena da família "new life", conceito de família ideal encenada por atores num stand de vendas imobiliário- intercaladas com uma tentativa de dramatização- quando um dos operários sofre um acidente- que o espectador, ao invés de embarcar na trama, tende a rejeitá-la.

O arquiteto Augusto (Renan Rovida) trabalha para uma construtora que está erguendo um empreendimento imobiliário numa área ambiental. Em frente à obra há uma ocupação de moradores sem teto e, obviamente, o dono da construtora pretende "limpar" a área para ampliar o negócio e obter mais lucro. Augusto, um homem de boa índole, opõe-se a qualquer violência contra a comunidade, porém é mais um empregado, sem ter poder de decisão.

Se os problemas no trabalho já são preocupantes, em casa, a situação ainda é pior: o casamento está por um fio, com a mulher mergulhada num estado de depressão (pós-parto ?), sem querer cuidar do filho de poucos meses e o casal sem ter muito o que dialogar. Augusto, então, mergulha  no trabalho, sem se dar conta com as consequências nefastas que isso pode gerar. A princípio resistente, o arquiteto, gradativamente, vai se contaminando com as mazelas inerentes ao esquema que toma conta do país, envolvendo políticos, grandes empresários e o judiciário.

Se "New Life S.A." pretendia ser uma sátira da burguesia brasileira, não conseguiu alcançar o resultado, satisfatoriamente. Ora pela escolha de personagens e situações estereotipados- como a venda de armas no subterrâneo para políticos e empresários-, ora pela opção de uma narrativa fragmentada por esquetes, ou ainda pela exposição de situações inaceitáveis, como o estupro da esposa por Augusto ou a cena final que fica no meio do caminho entre um exercício motivacional e um ato de incitação à violência.

Em tempos nefastos, o filme pode ser levado a sério demais, por parte do plateia, alcançado um resultado inverso ao pretendido. O tiro saiu pela culatra!! 

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

51o Festival de Brasília (Segundo Dia)- "Los Silencios"


Los Silencios_foto Suyene Correia_http://bangalocult.blogspot.com
 Seigner (segunda, da esq. para dir.) e parte da equipe de "Los Silencios"

Maria Paula Peña e Enrique Díaz, atores de "Los Silencios"

Continuando a escrever sobre o 2o dia de programação da Mostra Competitiva, detenho-me, agora, no filme "Los Silencios", o segundo longa-metragem exibido na noite de sábado, no Cine Brasília.  Dirigida por Beatriz Seigner, a co-produção brasileira-franco-colombiana centra-se na história de uma mãe, Amparo (Marleyda Soto) e seus dois filhos: Núria (Maria Paula Tabares Peña), de 12 anos e Fabio (Adolfo Savinvino), de 9 anos. 

Colombianos, o trio está fugindo dos conflitos armados do país natal, na região Amazônica, e segue em direção a uma ilha fronteiriça- La Isla da Fantasia- entre o Brasil, a Colômbia e o Peru. Lá, a família tenta recomeçar a vida, tendo a ajuda da avó (Doña Albina) de Amparo, enquanto esta reivindica junto às autoridades, uma indenização pela morte do marido brasileiro, Adão (Enrique Díaz)- supostamente morto num acidente de trabalho-, e um visto para entrar no Brasil. Mas sem um corpo identificado e sem dinheiro para tocar o processo, Amparo esbarra na burocracia e torna-se alvo de advogados inescrupulosos.

Seus problemas não param por aí. Fabio parece irascível por conta da mudança de escola e adaptação à nova vida. Descontente com a falta de dinheiro em casa, ele aventa a possibilidade de trabalhar, o que contraria a mãe. Núria, por sua vez, deixa de interagir com a mãe e o irmão, após encontrar o pai escondido na palafita onde passam a morar.

Com forte influência do cinema asiático- "Los Silencios" aproxima-se de "Lola" de Brillante Mendonza e dos filmes de Apichatpong Weerasethakul-, Seigner aborda de forma poética a questão da morte, apoiando-se nas histórias fantasmagóricas que cercam a Ilha da Fantasia. Também não deixa de denunciar a questão imigratória na América Latina e o descaso estatal para com os povos (muitos destes, indígenas) afetados pelos conflitos armados no coração amazônico.

O roteiro, de certa forma intrigante, recebe suporte da fotografia exuberante, assinada pela colombiana Sofia Oggioni e a captação de som feita pelo cubano Rubén Valdes, funcionam como hipnóticos que conduzem o espectador para um lugar mágico, etéreo, fronteiriço entre a vida e a morte. Para o espectador só resta estar de "coração aberto", para navegar pelas águas encantadas que margeiam a Ilha da Fantasia.

Assista ao trailer:



domingo, 16 de setembro de 2018

51o Festival de Brasília (Segundo Dia)- "Torre das Donzelas"


51o Festival de Brasília_Suyene Correia_http://bangalocult.blogspot.com

Apresentação de "Torre das Donzelas" no Cine Brasília 
51o Festival de Brasília_Torre das Donzelas"_http://bangalocult.blogspot.com
Susanna Lira apresenta as ex-presas políticas ao público
51o Festival de Brasília_foto Suyene Correia_http://bangalocult.blogspot.com
Lira e algumas das militantes políticas após o debate de "Torre das Donzelas"

Pode-se dizer que a 51a edição do Fest Brasília começou, de fato, ontem, com as exibições de "Torre das Donzelas" de Suzanna Lira e "Los Silencios" de Beatriz Seigner (leia mais sobre esse filme, na próxima postagem). Isso, porque, apesar de ser o primeiro dia de Mostra Competitiva, devido à aclamação dos espectadores, após a exibição do documentário da carioca Lira, ouso arriscar que o Prêmio de Público para o Melhor Filme dessa edição do festival já tem destino certo.

O filme foi aplaudido, não só durante a sua projeção (em pelo menos quatro ocasiões, que eu me recorde), como também ao final, principalmente, quando as fotos de cada uma das 25 ex-presas políticas foram aparecendo, com informações que as identificavam.  O plus a mais é que boa parte dessas mulheres aguerridas estavam na plateia, assistindo pela primeira vez a essa produção de formato ousado e criativo. Foi uma sessão emocionante e, mais do que isso, reveladora.

Susanna Lira conseguiu extrair depoimentos potentes das ex-companheiras de cela da Torre das Donzelas -parte do Presídio Tiradentes, demolido em 1972- que abrigavam presas políticas. Histórias que foram silenciadas há mais de quatro décadas e que vieram à tona, há alguns anos, quando a documentarista de longas como "Clara Estrela" (2017), "Damas do Samba" (2015), "Positivas" (2010), foi ao encontro de Rita Sipahi, conselheira da Comissão da da Anistia.

Se, no início, Sipahi viu com descrença o projeto de Lira, ao se reunir com ela e outras ex-colegas de prisão, a confiança foi sendo conquistada e, não tardou, para a fase de entrevistas começar. "Eu fui colhendo depoimentos das mulheres ao longo de um tempo, conversas que duravam três, quatro horas. Numa terceira fase, conduzi as filmagens num estúdio em São Paulo, onde foi montado o cenário, simulando interior da Torre, a partir das descrições do ambiente por cada uma delas", explica a diretora.

Tendo como uma de suas referências, "Dogville" de Lars Von Trier, a documentarista juntamente com a diretora de arte, Glauce Queiroz,  reconstituíram o interior da Torre, o mais fielmente possível. O resultado foi exitoso, tendo o cenário funcionado como uma instalação-dispositivo da memória. "O cenário ficou montado durante 10 dias e consumiu boa parte do orçamento. Fizemos questão de reproduzi-lo, porque apostamos no efeito emotivo que ele poderia causar nas entrevistadas. Também foi o momento de reencontro de muitas delas, que não se viam há tempos. Penso que a fala das testemunhas precisava ser valorizada pelo ambiente, daí porque minha preocupação com esse conceito", diz Lira.

O documentário opta por uma estrutura de docudrama, onde um grupo de jovens atrizes voluntárias, aparecem, ocasionalmente, em situações similares a que as ex-presas viveram no passado. Essas cenas são intercaladas por depoimentos das militantes em estúdio e na "Torre" cenográfica. Segundo Susanna Lira, esse artifício serviu não só para auxiliar no desenvolvimento narrativo, mas também foi importante ao fazer com que as jovens tomassem consciência de uma parte da nossa história, vivenciando-a, ainda que nunca tenham se encontrado com "as donzelas".

Entre as depoentes estão a ex-presidenta Dilma Roussef (concedeu a entrevista, pouco tempo antes do Impeachment), Dulce Maia, Rita Sipahi, Ana Miranda, Ilda Martins da Silva,  Marlene Soccas,  Rose Nogueira e Iara Prado. São relatos que ainda chocam pelo horror de certos detalhes, mas o grande trunfo do filme é se afastar da armadilha do vitimismo. As ex-presas souberam transformar a "Torre" numa extensão de casa e usaram a alegria e a sororidade como forma de resistência. Quando poderíamos imaginar, que num ambiente hostil como o cárcere, poderia haver um desfile de modas e um baile carnavalesco?   

Outros pontos de destaque são a direção musical assinada por Flávia Tygel e a mixagem de Bernardo Uzeda. Há um cuidado todo especial com o desenho de som que nos transporta para um ambiente carcerário real. A organicidade desse componente dá-se pelo fato da captação de muitos dos ruídos gravados, serem oriundos de um presídio feminino de Pernambuco. As sequências em que são entoadas pelas mulheres "A Internacional Comunista" e a "Suíte dos Pescadores" de Dorival Caymmi são comoventes.

Pela sua potência artística e política, "Torre das Donzelas" mostra-se como um forte candidato a levar "Candangos" para casa. Aguardemos!!

Assista ao trailer:



sábado, 15 de setembro de 2018

51o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Primeiro Dia)

Depois de duas horas e meia de atraso e com o público que lotava as dependências do Cine Brasília , um tanto irritado, foi dada a largada, na noite de ontem, à 51a edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Os atores Chico Díaz e Letícia Sabatella comandaram a apresentação num tom descontraído, sem deixar de aludir, vez por outra, em tom de protesto, ao preocupante cenário político que se instalou no país nos últimos tempos.

Feitas as devidas homenagens ao professor e crítico Ismail Xavier e ao pioneiro da cultura brasiliense Walter Mello, ambos agraciados com a Medalha Paulo Emílio Salles Gomes, a cerimônia prosseguiu com a entrega do Prêmio Leila Diniz, à montadora Cristina Amaral e à atriz Ítala Nandi. Da mesma forma que o público aplaudiu entusiasticamente, a atriz, diretora e produtora gaúcha,  manifestou-se contrariamente ao  "monopólio" de Nandi com o microfone, quando ela interrompeu o discurso de Cristina Amaral. "Deixa ela falar", gritou uma voz feminina da plateia. Algumas palmas e resmungos vieram em seguida.

Cristina Amaral, no entanto, não só falou com propriedade sobre a participação das mulheres no audiovisual brasileiro, como, elegantemente, justificou como necessária, a interrupção feita por Ítala, pois o conteúdo dito, era relevante. Os ânimos acalmaram, por parte do público intransigente, e a cerimônia prosseguiu com a apresentação do curta documentário "Imaginário" do diretor Cristiano Burlan  e do longa-metragem "Domingo" de Clara Linhart e Fellipe Barbosa.

Sobre a ideia do curta de Cristiano Burlan, ela surgiu após o realizador de "Mataram Meu Irmão", "Fome" e "Elegia de Um Crime" decidir rodar "Em Busca de Borges" (2016) e viajar ao pequeno país europeu, atrás de material de arquivo referente Jorge Luis Borges. Não só realizou uma ficção, sobre o escritor argentino, como a partir de um acervo audiovisual de pouco mais de 70 minutos,  Burlan deu vida a "Imaginário", um documentário recheado de imagens  muito bem preservadas,  que revelam o cotidiano de uma cidade em vias de modernização, com cenas de estações de trem, do trânsito do centro urbano, desfiles militares e anônimos, visivelmente, intrigados com o "olho do cinematógrafo" que lhes fitava.

Olhando o filme, desatentamente, pode-se imaginar que aquela realidade diz respeito a São Paulo ou Rio de Janeiro do início do século XX. Principalmente, porque algumas legendas inseridas no filme, guiam-nos, pela História do Brasil, assinalando fatos marcantes da política brasileira desde o primeiro mandato de Getúlio Vargas. Aguçando a visão, no entanto, observamos que alguns letreiros de lojas ou placas de logradouros indicam que a localidade é estrangeira.

Esse choque entre imagem e discurso, irá se acentuar, a partir da inserção de discursos originais de políticos brasileiros, no período pré-ditatorial, dos anos de 1960. O ponto alto do filme é o discurso proferido pelo deputado Rubens Paiva, na Rádio Nacional, no dia 1o de abril de 1964, contra a Ditadura Militar, em que conclama os trabalhadores e estudantes paulistas a se unirem e apoiarem, em greve geral, o então deposto presidente João Goulart.

O efeito de estranhamento inicial é substituído pela contundência que é peculiar ao cineasta, acostumado a tratar de assuntos caros à sociedade brasileira, como a desigualdade de classes, a violência na periferia, o suicídio. Aqui, ao ressignificar imagens, tão distantes do contexto do discurso narrado, o objetivo talvez seja refletir sobre a inércia e uma certa letargia que toma conta da população brasileira, atualmente, diante do cenário político. O demorado take centenário do rosto do senhor de óculos escuros, com expressão atônita diante da máquina de filmar, enquanto a voz de Rubens Paiva ecoa, é a metáfora do verdadeiro horror, ao qual o filme alude.

Já "Domingo", novo filme de Fellipe Barbosa e Clara Linhart, estreou, ontem, nas telas brasileiras, após a exibição no 75o Festival de Veneza. Com roteiro assinado por Lucas Paraízo, o filme não nega as referências ao cinema de Lucrécia Martel, sobretudo, com "O Pântano" (2004). Encontramos aqui, a casa interiorana de uma família gaúcha decadente (financeiramente e moralmente), com personagens, emocionalmente, perturbados, protagonizado um mosaico de situações que beiram o surreal.

As similaridades não param por aí, se lembrarmos da cena em que a matriarca bêbada cai, no filme argentino, derrubando uma bandeja de taças de cristais e a de "Domingo", em que Ritinha está sendo assediada pelo filho adolescente do patrão e deixa algumas taças caírem no chão. Ou quando as crianças vão caçar em "O Pântano" e encontram uma vaca atolada, enquanto que em "Domingo", pais e filhos vão testar a pontaria no meio da mata e afirmar suas virilidades.

No entanto, o resultado alcançado pela dupla brasileira está longe de ser o mesmo da tarimbada cineasta argentina. A história de "Domingo" se passa no dia 1o de janeiro de 2003, data em que Luiz Inácio Lula da Silva toma posse como Presidente da República. Uma família se reúne para comemorar o Ano Novo, mas o clima que toma conta da casa, está longe de harmonioso. Não só há uma animosidade entre pais e filhos, primos e tios, sogra e nora, como um desequilíbrio no comportamento dos patrões em contraponto à lucidez dos empregados.

O filme tenta abarcar várias temáticas- questão de gênero, sexualidade, classe-, além da questão política brasileira, mas o resultado é insatisfatório. Isso dá-se, em parte, por conta da montagem picotada, com ações interrompidas a todo momento, com o intuito de sugerir mais do que mostrar; em parte, por conta do roteiro, que expõe uma diversidade de personagens interessantes, complexos, mas sem a profundidade adequada.

No elenco, Camila Morgado, Ítala Nandi, Augusto Madeira, Martha Nowill, Michael Wahrmann, Ismael Cannapele, Clementino Viscaíno, Silvania Silva.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

51a edição do Fest Brasília abre com exibição de "Imaginário" e "Domingo"

Cena de "Imaginário" de Cristiano Burlan 


Família reunida em "Domingo" de Clara Linhart e Fellipe Barbosa


Logo mais, às 19h, no Cine Brasília, será aberta a 51a edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.  A sessão Hors Concours, deste ano, contará com as exibições do curta "Imaginário" de Cristiano Burlan (SP) e do longa-metragem de ficção “Domingo” de Clara Linhart e Fellipe Barbosa (RJ). Enquanto o curta de Burlan se alinha à vocação política do Festival de Brasília e, às vésperas de uma eleição majoritária, faz um apanhado de discursos marcantes sobre a vida política do país desde os anos 1940. A trama de "Domingo"  acontece no interior do Rio Grande do Sul, no dia 1o de janeiro de 2003, dia de posse do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Duas famílias gaúchas se reúnem em uma mansão rural para um churrasco, enquanto seus filhos adolescentes, de hormônios à flor da pele, transformam aquela data em um dia especial. No elenco, Camila Morgado, Chay Suede e uma das homenageadas da noite, a veterana no Festival de Brasília, Íttala Nandi. O filme fará sua estreia brasileira no Festival de Brasília, logo depois de voltar de sua estreia mundial no Festival de Veneza, onde será exibido na mostra paralela Venice Days.

A noite de abertura também terá a estreia do Prêmio Leila Diniz. A premiação foi criada com inspirações na memória da atriz que, embora tenha vivido apenas 27 anos, foi um importante nome do imaginário brasileiro, sendo considerada grande ícone da liberação feminina ante a secular opressão machista. Em 2018, quem recebe o Prêmio Leila Diniz são Íttala Nandi e Cristina Amaral.

Após importante trajetória no teatro, Íttala enveredou pelo cinema, em filmes marcantes como "Pindorama" de Arnaldo Jabor, "Os Deuses e os Mortos" de Ruy Guerra, "O Homem do Pau Brasil" de Joaquim Pedro de Andrade, além de vários outros papéis marcantes na TV. A atriz também dirigiu documentários e trabalhou como produtora e dramaturga, tendo ainda sido professora e coordenadora de cursos de cinema.

Cristina Amaral aparece como premiada pela sua importância como montadora de cinema, carreira na qual atua há mais de 40 anos. Entre suas parcerias mais constantes e profícuas incluem-se trabalhos com Andrea Tonacci, Carlos Reichenbach e Edgard Navarro. Cristina recebeu inúmeros prêmios, inclusive o Candango em Brasília, por 'Sua Excelência o Candidato' e 'Alma Corsária'.

Outro grande momento da cerimônia é a entrega da medalha Paulo Emílio Sales Gomes que, em sua terceira edição, será concedida aos mestres Ismail Xavier e Walter Mello. A premiação existe desde o 49º Festival de Brasília e leva o nome de Paulo Emílio, crítico e professor de cinema, além de um dos fundadores do curso de cinema da Universidade de Brasília e da Semana do Cinema Brasileiro, que viria se tornar, mais tarde, nosso prestigiado Festival de Brasília. A proposta da medalha é reconhecer, anualmente, personagens históricos no ensino, crítica e difusão do cinema brasileiro.

A noite de 14 de setembro também marca a abertura da exposição "Momento em Movimento" de Mila Petrillo. A coletânea faz parte do projeto "Por Outras Lentes" e apresenta registros de grandes personagens do cinema nacional que passaram pelo Festival de Brasília desde a década de 1980, registrados pelas lentes cuidadosas desta, que é uma das mais célebres fotógrafas radicadas no Distrito Federal. A exposição funcionará das 10h às 24h, na área externa do Cine Brasília. Na ocasião, também será lançado o site que disponibiliza parte do acervo da fotógrafa ao grande público.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

O Guitarrista Saulo Duarte lança "Avante Delírio"


Capa do disco "Avante Delírio"


Amanhã, o músico Saulo Duarte estará lançando seu quarto disco, intitulado "Avante Delírio". Esse é o primeiro trabalho solo do guitarrista e vocalista paraense, radicado em São Paulo, já que os trabalhos anteriores, foram com a banda A Unidade.

Tendo tocado com Curumin, Céu, Anelis Assumpção, entre outros artistas consagrados, Saulo Duarte contou com participações luxuosas de Marcelo Jeneci, Negro Leo, Curumin e Zé Nigro em "Avante Delírio". 

O disco, composto por 11 faixas, saiu pela gravadora independente YB Music e tem como primeiro single, "Flor do Sonho" com forte influência das músicas paraense e baiana. A faixa contém um ar de mistério e possui poucos agudos por conta da característica amadeirada do violão de nylon.

É música brasileira com influência de música brasileira: um aceno para a sonoridade do primeiro disco de Jards Macalé- "Só Morto" (1970) e ao "Tábua de Esmeralda" (1974) de Jorge Ben.



terça-feira, 11 de setembro de 2018

Marcia Castro se apresenta na Sala de Coro do TCA



Marcia Castro apresenta seu mais novo show "Do Pecadinho à Treta"


Apresentando canções que marcaram sua carreira e convidando o público a conhecer um pouco mais de sua história musical, a cantora baiana Marcia Castro leva para o palco da Sala do Coro do Teatro Castro Alves, no dia 18 de setembro, às 20h, o seu novo show, "Do Pecadinho à Treta". 

No repertório, músicas dos seus quatro álbuns já lançados - "Pecadinho" (2007); "De Pés no Chão" (2012); "Das Coisas que Surgem" (2014) e "Treta" (2017) – e histórias sobre o processo de criação, produção e repercussão das músicas escolhidas, levando o público a conhecer um pouco mais sobre sua vida e carreira, abrindo espaço para perguntas num bate-papo interativo e criativo. 

"Do Pecadinho à Treta" surge como um projeto síntese num momento de relevância artística da cantora baiana, que está de volta à Salvador realizando uma série de apresentações do seu novo disco, "Treta", lançado em dezembro do ano  passado. No mais novo disco, Marcia apresenta uma fusão de ritmos brasileiros e baianos à sonoridade eletrônica. "Treta" foi produzido pelo baiano Marcos Vaz, radicado em São Paulo, com direção criativa de Giovanni Bianco e lançado pelo selo Joia Moderna, do DJ Zé Pedro.

O show Marcia Castro faz parte da programação especial- "Terças da Música"- de retomada da Sala do Coro do Teatro Castro Alves, reaberta em julho. Os ingressos, ao preço de R$ 40 e R$ 20,  estão à venda na bilheteria do Teatro Castro Alves, nos SACs do Shopping Barra e do Shopping Bela Vista ou pelos canais da Ingresso Rápido. Acesse página de vendas em http://site.ingressorapido.com.br/tca.

domingo, 9 de setembro de 2018

"Onde Está Você, João Gilberto?" refaz o percurso de Marc Fischer em "Ho-ba-la-lá..."

"Onde Está Você, João Gilberto?" baseia-se nos arquivos de Marc Fischer

O cineasta, produtor e roteirista Georges Gachot utilizou o livro "Ho-ba-la-lá: À Procura de João Gilberto" (2012) do jornalista alemão, Marc Fischer, como fio condutor para seu mais novo documentário, "Onde Está Você, João Gilberto?".  Tendo conseguido materializar em imagens, boa parte do livro de Fischer- um delicioso mix de livro-reportagem, romance com toques autobiográficos-, o resultado do novo filme de Gachot é fascinante.

Marc Fischer perambulou pelo Rio de Janeiro durante um certo tempo, em 2010, em busca de um encontro com o fundador da Bossa Nova. Sua empreitada foi em vão, apesar da ajuda de sua fiel escudeira, Watson, e dos encontros que teve com amigos e antigos parceiros de João Gilberto. Seis anos depois,  o cineasta e admirador da Música Popular Brasileira tentou realizar o sonho de Fischer (e o seu também), seguindo os passos do jornalista alemão. Gachot, que já realizou os documentários "Maria Bethânia: Música é Perfume" (2005), "Nana Caymmi em Rio Sonata" (2010) e "O Samba" (2014), enveredou pelo mundo da Bossa e tudo que orbita em torno de João Gilberto, na tentativa de um encontro com o excêntrico cantor.

No íntimo, o público já sabe onde essa jornada vai dar, mas o fascínio de "Onde Está Você, João Gilberto?" está justamente na áurea de mistério criada, narrativamente, por Gachot (ele consegue isso, acreditem), no tom melancólico explorado em várias tomadas de um Rio, eventualmente, nublado e no humor que brota dos relatos de amigos sobre a excentricidade de João. O efeito é mágico, intimista e, por vezes, revelador.

Munido do diário e de um álbum de fotografias de Fischer, por ocasião de sua breve investigação na Cidade Maravilhosa, Gachot encontra-se com a maioria dos entrevistados presentes em "Ho-ba-la-lá: À Procura de João Gilberto". Um dos melhores momentos do documentário acontece em Diamantina, quando o diretor francês vai à procura de Geraldo (amigo de João Gilberto na juventude) e do famoso banheiro da casa da irmã do violonista, onde ele testava sua voz.

Se Marc Fischer não teve sucesso na sua empreitada em conhecer de perto João Gilberto- inclusive, não chegou a ver o livro publicado, pois morreu antes do lançamento-, pelo menos, Gachot foi bem sucedido, ao  adaptar "Ho-ba-la-lá: À Procura de João Gilberto" para a telona. Quanto à pergunta do título, assistam ao filme e descubram a resposta.


quarta-feira, 5 de setembro de 2018

CINESESC recebe a 12a edição do INDIE FESTIVAL




"Os Indesejados da Europa" de Fabrizio Ferraro

"Um Elefante Sentado Inquieto" de Hu Bo


Criado em 2001, pela produtora cultural mineira Zeta Filmes, o INDIE FESTIVAL chegou à capital paulista em 2007. A 12a edição, em São Paulo, acontece de 12 a 19 de setembro no CINESESC. Esse ano, serão exibidos 14 filmes de 13 países diferentes, selecionados criteriosamente pela curadoria.

Na abertura do festival será exibido "Asako I & II" de Ryusuke Hamaguchi, baseado no livro da escritora japonesa Tomoka Shibasaki. Entre os destaques, estão a produção argentina "La Flor" de Mariano Llinás; a ópera rock de 230 minutos "Estação do Diabo" de Lav Díaz; "Um Elefante Sentado Inquieto" do chinês Hu Bo (que suicidou-se após a conclusão do filme); "Longa Jornada Noite Adentro" de Bi Gan e "A Viagem da Família" de Liang Ying.

Três diretoras apresentam seus primeiros longas:  Helena Wittmann traz "À Deriva", uma história de amor, amizade, onde o mar é o ator principal; Zsófia Szilágyi mostrará "Um Dia", Prêmio FIPRESCI na Semana da Crítica de Cannes e a polonesa Jagoda Szelc estreia com o filme "Torre, um Dia Brilhante", um suspense premiado como Melhor Primeiro Filme no Polish Film Festival.

James Benning participa com "L. Cohen"; Alberto Serra traz "Rei Sol";  Pablo Sigg mostra "Lamaland" e Fabrizio Ferraro retrata em "Os Indesejados da Europa", uma rota de fuga através dos Pirineus que levou antifascistas, estrangeiros e judeus em fuga na França.

O INDIE Festival é uma realização conjunta da produtora Zeta Filmes e do SESC SP e conta com o apoio institucional da Fundação Japão.

domingo, 2 de setembro de 2018

O Menino, a Neve e o Sonho


Takara não desiste de seu sonho


Em 2016, o diretor francês Damien Manivel lançou o intrigante "O Parque", onde acompanhamos o passeio de um casal de namorados no referido espaço verde do título. Ao longo de 70 minutos, Manivel exercita seu talento de instigar o espectador, construindo uma atmosfera de apreensão, através de pouca ação, diálogos banais e interpretações um tanto forçadas. O resultado é, surpreendentemente, interessante, sobretudo pela virada sofrida na história, no seu terço final 

Agora, seu trabalho mais recente- "Takara- a Noite em que Nadei-", pode ser visto no Cinema Vitória. Na co-produção franco-nipônica, em que dividiu a direção com Kohei Igarashi, o minimalismo que é peculiar a Manivel ganha contornos mais radicais: nenhum diálogo é dito nos 83 minutos de duração. Apenas seguimos os passos do garoto Takara (Takara Kogawa), com aproximadamente seis anos, que após uma noite insone, desvia o seu trajeto a caminho da escola, na manhã seguinte.

Numa cidade no interior do Japão, num rigoroso inverno, o pequeno Takara perambula pela neve alta, munido apenas de sua mochila e de um desenho, feito por ele, em que se vê um peixe, um homem  e o mar. Enquanto Takara sabe exatamente onde quer chegar -ainda que o melhor trajeto para alcançar seu destino, seja um tanto incerto-, resta ao espectador um pouco de paciência para entender, de fato, qual o objetivo de sua jornada.

Os diretores não têm pressa. Assumem o risco oferecendo ao público um cinema contemplativo, sensorial (reparem no apuro da mixagem de som), onde, paulatinamente, a natureza vai se impondo como um grande obstáculo ao frágil protagonista. O misto de ingenuidade e determinação de Takara, talvez, seja o grande trunfo do filme que para além de acompanhar a busca do protagonista, não deixa de fazer uma crítica à incomunicabilidade da sociedade contemporânea e ao distanciamento entre pais e filhos, muitas vezes imposto pelo trabalho.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Para Toda Família

Irene (Teles) não quer se desgrudar de seu "Benzinho" (Sarris)


Há um quê de "Pequena Miss Sunshine" (2006) de Jonathan Dayton e Valerie Faris em "Benzinho", novo filme de Gustavo Pizzi, que estreia hoje, em circuito nacional. A kombi, caindo aos pedaços, é o meio de transporte da família; a crise financeira que bate à porta do casal de protagonistas, apesar destes não perderem a esportiva; a corrida contra o tempo para um dos filhos realizar seu sonho são os principais pontos de aproximação entre as duas obras. Mas as semelhanças param por aí. 

Enquanto o roteirista Michael Arndt apostou num humor cáustico, ao formatar a família Hoover com membros excêntricos e disfuncionais, Karine Teles e Gustavo Pizzi- que dividiram a função de roteiristas-, criaram personagens extremamente empáticos para guiarem a história de tons levemente dramáticos. É quase impossível não se identificar com o casal Irene (Karine Teles, em estado de Graça) e Klaus (Otávio Müller, ótimo). 

Pais de quatro filhos- Fernando (Konstatinos Sarris), Rodrigo (Luan Teles) e os gêmeos Fabiano e Mateus (Arthur e Francisco Teles Pizzi)- Irene e Klaus lutam para se manter na classe média, já que a crise financeira que assola o país, insiste em puxá-los para baixo, na pirâmide social. Autônomos, ambos vêem a clientela minguar, gradativamente, enquanto sua casa, na região serrana de Petrópolis, começa a ruir (literalmente) com o aparecimento de rachaduras, vazamentos, entre outros. 

Em meio ao caos, surgem dois acontecimentos inesperados: o filho mais velho, Fernando é convidado para jogar handebol na Alemanha e Sônia (Adriana Esteves), irmã de Irene, vai passar um tempo na casa do cunhado, por conta da agressão que sofreu do marido (César Troncoso). Se para Klaus, a proposta profissional feita ao filho, é motivo de orgulho, para Irene soa ameaçador. Como se não bastasse tudo isso, Klaus deseja vender a casa de praia em Araruama, para investir num novo negócio e terminar a nova morada. Como Irene reagirá a essas mudanças ?

O resultado é possível saber após 96 minutos de duração do longa, que conta com alguns trunfos para alcançar o sucesso de público. Sem dúvida, o principal deles é o elenco. Dos mais experientes ao mais jovens, quase todos os atores e atrizes demonstram estar numa mesma sintonia, num entrosamento espantoso. Talvez, César Troncoso, que é um excelente ator, aqui esteja um pouco acima do tom, vivendo um marido drogado e abusivo. O destaque fica por conta de Karine Teles e Otávio Müller que criam com honestidade e com uma espontaneidade singular, personagens críveis, cativantes e agregadores.

Vale destacar também o trabalho de Gustavo Pizzi que demonstra habilidade na direção de atores, bem como os resultados obtidos por Pedro Faerstein (direção de fotografia), Dina Salem Levy (direção de arte) e Livia Serpa (montagem). O longa-metragem que foi produzido por Tatiana Leite e é uma co-produção Brasil e Uruguai, teve sua primeira exibição no país, no 46o Festival de Cinema de Gramado. Deve sair da Serra Gaúcha com alguns Kikitos.

Curiosidade 1: Gustavo Pizzi já foi casado com Karine Teles. Da união dos dois, nasceram os gêmeos Arthur e Francisco Teles Pizzi. Luan Teles é sobrinho de Karine Teles.


quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Contagem Regressiva para o 51o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

"Domingo" será o filme de abertura do 51o Fest Brasília
"Bixa Travesty" novo doc de Claudia Priscilla e Kiko Goifman
"Guaxuma" curta de animação de Nara Normande


Falta menos de um mês, para o início do mais antigo festival de cinema do país: o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Para essa 51a edição, que acontece de 14 a 23 de setembro, sob a direção de Eduardo Valente, a diversidade em todas as suas formas de expressão ocupa o centro do debate produtivo do cinema brasileiro e este fator já se traduz em números registrados após a seleção de filmes para esta edição.

Pela primeira vez, as diretoras do gênero feminino e/ou identificadas por gêneros não-binários figuram em número mais expressivo do que os diretores de gênero masculino. Dos 724 títulos inscritos para as mostras competitivas, paralelas, especiais, hours concours, Mostra Brasília e exibições em outras atividades, 52,4% são de diretoras, 9,5% se inscreveram sob a categoria não-binária (outros) e apenas 38,1% dos selecionados são de diretores.

Tais dados traduzem de forma prática a estratégia de se ampliar o escopo de vozes e pensamentos do nosso cinema. Eduardo Valente diz que “a curadoria apenas seguiu a sua missão de encontrar os filmes que acredita mais potentes para o evento e que o fato de termos mais filmes dirigidos por mulheres entre os selecionados representa tão somente a força do talento das mesmas”.

Dos mais de 120 títulos que serão exibidos durante 10 dias de programação,  nove longas-metragens e 12 curtas-metragens pleitearão o Troféu Candango nas Mostras Competitivas – Curtas e Longas. Entre os longas, estão os documentários “Torre Das Donzelas” de Susanna Lira (RJ), “Bixa Travesty” de Claudia Priscilla e Kiko Goifman (SP) e “Bloqueio” de Quentin Delaroche e Victória Álvares (PE); e as ficções “Ilha” de Ary Rosa e Glenda Nicácio (BA), “Los Silencios” de Beatriz Seigner (SP/Colômbia/França), “Luna” de Cris Azzi (MG), “New Life S.A.” de André Carvalheira (DF); “A Sombra do Pai” de Gabriela Amaral Almeida (SP) e “Temporada” de André Novais Oliveira (MG).

Os curtas-metragens participantes da Mostra Competitiva se dividem entre oito ficções, três documentários e uma animação. Os documentários são “Liberdade” de Pedro Nishi e Vinicius Silva (SP); “Sempre Verei Cores no Seu Cinza” de Anabela Roque (RJ) e “Conte Isso Àqueles que Dizem que Fomos Derrotados” de Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cristiano Araújo e Pedro Maia de Brito (PE). As ficções selecionadas são “Aulas que Matei” de Amanda Devulsky e Pedro B. Garcia (DF); “Boca de Loba” de Bárbara Cabeça (CE); "BR3" de Bruno Ribeiro (RJ); “Eu, Minha Mãe e Wallace” dos Irmãos Carvalho (RJ); “Kairo” de Fabio Rodrigo (SP); “Mesmo com Tanta Agonia” de Alice Andrade Drummond (SP); “Plano Controle” de Juliana Antunes (MG) e “Reforma”, de Fábio Leal (PE). Única animação da Competitiva, “Guaxuma” de Nara Normande (PE), também concorre ao Candango.

O longa-metragem responsável pela abertura do Festival é “Domingo” ficção de Clara Linhart e Fellipe Barbosa (RJ). Em caráter hour-concours, o filme fará sua estreia brasileira no Festival de Brasília. Já no encerramento, antes do anúncio dos premiados com o Troféu Candango, será exibido o documentário “América Armada” de Alice Lanari e Pedro Asbeg (RJ).

Além da Mostra Competitiva e da Mostra Brasília, realizada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal para premiar a excelente produção do cinema local, o Festival de Brasília conta com mostras paralelas- A Arte da Vida; Onde Estamos e Para Onde Vamos ? e Festival dos Festivais- que conferem grande variedade de títulos do novo cinema nacional. O festival também apresenta duas Mostras Especiais de tom competitivo em sua programação: Futuro Brasil e Caleidoscópio.

Homenagens

Serão homenageados com a medalha Paulo Emílio Salles Gomes- distinção criada em 2016, como forma de reverenciar os grandes nomes do cinema brasileiro na programação do festival-  o crítico e professor de cinema Ismail Xavier e um dos idealizadores do Festival de Brasília e pioneiro da cidade, o arquivista Walter Mello.

As figuras femininas que marcaram o cinema brasileiro também serão celebradas. O Festival de Brasília criou, esse ano, o Prêmio Leila Diniz que será entregue à atriz, dramaturga, professora e coordenadora de cursos de cinema Íttala Nandi e à montadora Cristina Amaral.

A programação detalhada pode ser conferida no site: http://www.festivaldebrasilia.com.br/

domingo, 29 de julho de 2018

Entre a Tensão, o Susto e o Riso


Ana (Marjorie Estiano) é atraída pela lua cheia em "As Boas Maneiras"


Depois de rever o ótimo filme sérvio "Réquiem Para Sr.a J." de Bojan Vuletic, ainda em cartaz no Cinema Vitória, fui assistir ao tão esperado "As Boas Maneiras". Digo tão esperado, por conta do trailer instigante que me deixou curiosa por várias semanas e pela enxurrada de críticas elogiosas, tanto de colegas brasileiros como de profissionais de outros países, onde o filme de Juliana Rojas e Marco Dutra foi exibido. No entanto,  o filme tem mais problemas que virtudes.

Confesso que fui fisgada pela primeira metade do longa-metragem, tanto pelo visual extravante do apartamento de Ana (Marjorie Estiano) apontando para uma direção de arte cuidadosa (a cargo de Fernando Zucollotto), quanto pela química entre Estiano e a atriz portuguesa Isabel Zuaa (Clara). Enquanto a primeira vive o estereótipo da filha de um manda-chuva do agronegócio do Centro-Oeste, com sotaque carregado, gosto musical duvidoso e adepta à moda sertaneja; a segunda é uma mulher negra, da periferia paulistana, que já trabalhou como auxiliar de enfermagem, mas agora, tenta se virar como babá.

Grávida de cinco meses e com muitas demandas domésticas, Ana contrata Clara, para atribuições que irão além dos cuidados com o futuro bebê. De "faz tudo", Clara tornar-se-á amante da patroa. Aqui, a questão de classe se sobressai à de gênero, sendo o modelo patronal vigente em nossa sociedade, muito bem representado pela relação de poder entre as duas mulheres. O problema é o paradoxo em criticar esse modelo, escolhendo para ocupar um dos pólos, uma mulher renegada, excluída do seio familiar por conta da gravidez "pecaminosa", mas que se empodera, ao optar por ter o filho sozinha, independente das consequências.

Clara vai se envolvendo emocionalmente com a patroa, à medida que a gestação avança, mas fatos estranhos começam a acontecer quando a lua cheia desponta no céu. O tom fantástico, marca registrada da dupla de diretores ("Trabalhar Cansa", "Quando eu Era Vivo"), manifesta-se não só com o comportamento estranho de Ana, mas também com a estilização da capital paulista. Através de efeitos visuais e de uma fotografia bem contrastada (criação do diretor de fotografia Rui Poças), a atmosfera sobrenatural e o clima de tensão se impõem. Porém, o resultado poderia ser mais interessante se o terror sugestivo predominasse em relação ao explícito, evitando clichês, a exemplo, da cena de Ana com o gato de rua.

De toda forma, a primeira parte de "As Boas Maneiras" é melhor desenvolvida que a segunda (apesar de um furo de roteiro tenebroso nessa transição) e o destaque fica por conta da atuação de Marjorie Estiano (maior do que a própria personagem). A inconsistência da história aparece na segunda metade, em situações chave (e as falhas não se justificam, por se tratar de uma fábula) e outro problema, talvez seja Isabel Zuaa não sustentar a dramaturgia necessária ao protagonismo de Clara. Incrível como sua atuação é destoante ao longo dos 135 minutos de película (duração excessiva, por sinal).

A fábula de terror também se metamorfoseia, explorando o gênero musical. Há passagens que funcionam bem como a que Ana interpreta a canção "Fome" ou  Cida Moreira (Dona Amélia) canta "Ode à Fraternidade". Já as cenas em que "Canção da Travessia" e "Canção da Espera" são entoadas, respectivamente, por Naloana Lima (moradora de rua) e Isabel Zuaa e Cida Moreira e Zuaa, parecem longas e meio deslocadas.

O elenco mirim também é irregular. As performances de Miguel Lobo (Joel) e Nina Medeiros (Amanda) oscilam entre o convincente e o excessivamente forçado (sobretudo nos diálogos decorados e pouco interpretados). Aliás, os diretores que exploraram com destreza a tensão na primeira parte do filme, negligenciaram-na na segunda parte, deixando, talvez, de obter resultados surpreendentes com o núcleo infantil, a partir do medo do desconhecido.

Há um desequilíbrio também no resultado obtido a partir dos efeitos especiais. O uso do CGI deixa a desejar em alguns momentos, sobretudo na sequência do  bebê engatinhando, da perseguição no shopping e na cena final (para alguns, apoteótica (??)). São falhas que terminam comprometendo o resultado do filme que surge com uma proposta interessante- o de um filme de terror brasileiro bem realizado, com uma "pegada" de crítica social- mas que na ânsia de agradar a um público mais amplo, cambaleia entre os campos minados do fantástico, terror, "terrir" e musical.

sábado, 28 de julho de 2018

"Piedade, A Seu Dispô" Busca Financiamento Coletivo


Isabel estreará, em novembro, "Piedade, a Seu Dispô"


A atriz de teatro Isabel Santos, que há quatro anos estreou "Senhora dos Restos" no Teatro Atheneu, agora, prepara-se para um novo desafio. Trata-se da montagem de "Piedade, a Seu Dispô", monólogo também escrito pelo jovem dramaturgo Euler Lopes, que deverá chegar aos palcos sergipanos, no final de novembro.

Segundo a experiente atriz, que durante uma boa parte de seus 40 anos de carreira, atuou no Grupo Imbuaça, desde a montagem de "Senhora dos Restos"- seu primeiro trabalho solo, produzido pela Dicuri Produções-, que a ideia era trabalhar com Lopes numa trilogia de monólogos. "Estreamos 'Senhora dos Restos' em agosto de 2014 e  depois de mais de 50 apresentações por Sergipe e pelo Nordeste, perguntei a Euler se tinha um novo texto e ele me apresentou 'Piedade, a Seu Dispô'. Escolhi o diretor paraibano José Maciel para dirigir o espetáculo e estamos na fase de pesquisa. Devemos nos encontrar na segunda quinzena de agosto, para começarmos a trabalhar  a montagem".

Por enquanto, sem patrocinadores oficiais, Santos e o coordenador de produção, Rogério Alves, estão buscando levantar o orçamento necessário para viabilizar o novo projeto, através de crowdfunding (financiamento coletivo). Pelas redes sociais, eles estão divulgando a ação e esperam conseguir alcançar a cota necessária para a montagem de "Piedade, a Seu Dispô". "Na época da produção de 'Senhora dos Restos', consegui  patrocínio com o Instituto Banese e a Funcaju, além de parcerias com outras empresas, através de serviços. Agora, estamos buscando apoio diretamente com a sociedade civil e contando com aquelas pessoas que são mais sensíveis à causa do teatro", explica a atriz.

Sobre o novo espetáculo, Isabel Santos chama a atenção para a personagem Piedade, uma figura tão (ou mais) complexa que a moradora de rua louca, Senhora dos Restos. "Piedade é uma empregada doméstica, que se desloca, todos os dias, da periferia onde mora, para a zona sul onde vai trabalhar. Num dia, quando espera o ônibus, a mulher é vítima de "baculejo" (revista ou inspeção pessoal realizada pela polícia) e, a partir dessa abordagem, saberemos muito de sua vida, cheia de eventos trágicos, envolvendo violência praticada pelo Estado e discriminação na casa onde trabalha", conta.

Para compor a personagem, a atriz aguça seu olhar sobre o mundo e busca referências, observando mais atentamente entrevistas televisivas com moradoras de bairros mais humildes e personagens anônimas que perambulam pelas ruas. Também, como graduanda do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Sergipe, troca experiências com professores e alunos, na certeza de encontrar o tom certo para o "nascimento" de Piedade.

Enquanto, a personagem vai sendo estudada, burilada, o espetáculo precisa ganhar forma e quem quiser participar do financiamento coletivo, as contas disponíveis para depósito são:

-Banco do Brasil (Ag. 3546-7 C/C 44.381-6) 
-BANESE (Ag. 034 C/C 01/004646-6)


terça-feira, 24 de julho de 2018

"Correndo Atrás" abre o 13 o Festival de Cinema Latino-Americano de SP

Jefereson De: homenagem no Festival de Cinema Latino-Americano SP


O cineasta paulista Jeferson De será um dos homenageados da 13a edição do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, que começa amanhã, no Memorial da América Latina e prossegue até o dia 1o de agosto. Para isso, não só haverá uma retrospectiva de sua filmografia, como também, o  longa-metragem "Correndo Atrás",sob a sua direção, será exibido na abertura do evento.

Na trama, uma dupla composta por um talentoso jogador de futebol e seu improvisado empresário experimentam, em meio a trapaças, um redemoinho de esperanças, altos e baixos, com muito humor. No elenco, atores como Aílton Graça, Francisco Gaspar, Juliana Alves, Juan Paiva, Tonico Pereira, entre outros.

O diretor,  um dos idealizadores do Manifesto "Dogma Feijoada", também debaterá sobre o tema "A Criação Audiovisual nos Filmes Afrodescendentes Brasileiros", no dia 27, às 19h, no Memorial da América Latina. Os filmes de Jeferson De que serão exibidos durante o evento são: "Gênesis 22" (1999), "Distraído Para a Morte" (2001), "Carolina" (2003), "Narciso Rap" (2003), "Jonas, Só Mais Um" (2009) e " O Amuleto" (2015).

As exibições do 13o Festival de Cinema da América-Latina de São Paulo ocorrerão no Memorial da América Latina, Cinesesc e Centro Cultural Banco do Brasil, Instituto CPFL e Centro de Pesquisa e Formação do SESC São Paulo.

domingo, 22 de julho de 2018

O Despertar da Sra. J

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Sra. J resolvendo questões de última hora

Os primeiros planos de "Réquiem Para a Sra. J" de Bojan Vuletic revelam uma habitação caótica, com cômodos extremamente desarrumados e a sujeira distribuída sobre os móveis. Não tarda, vemos uma senhora de meia-idade, sentada na cabeceira da mesa da sala, armando uma pistola. Sua sogra (Mira Banjac) sai do quarto, no lado oposto do quadro e se dirige até a cozinha, para pegar algo na geladeira, mas parece não se importar com o que a outra mulher faz. O clima é desolador e o silêncio paira nesse ambiente em que os vivos parecem vagar como almas penadas.

A Sra. J (Mirjana Karanovic) parece ter desistido de viver (e motivos não faltam). Antes, porém, de colocar seu plano em prática, precisa resolver algumas pendências, como a preparação da lápide de sua sepultura- conjunta com o marido morto há um ano; a devolução de uma cadeira emprestada e a renovação do seguro-saúde, que deve assegurar o futuro das filhas Koviljka (Danica Nedeljkovic) e Ana (Jovana Gravilovic). O que parece fácil, transformar-se-á numa verdadeira saga, onde a burocracia engessada, dos países socialistas europeus, ainda ecoa numa Sérvia independente, há cerca de 15 anos.

É interessante como Vuletic ameniza "nas tintas" ao criticar esse sistema, se comparado a outros filmes contemporâneos do Leste Europeu, que são mais incisivos, a exemplo dos búlgaros "A Lição" (2014) e "Glory" (2016) de Kristina Grozeva e Petar Valchanov. O diretor sérvio opta por alternar momentos dramaticamente intensos, com outros, em que o humor negro se sobressai. Exemplo do primeiro caso é o desabafo da filha Ana, perante a inércia da mãe. Já, o segundo pode ser conferido na cena da conversa que a Sra. J tem com o marmorista que preparará a lápide de seu túmulo. 

A vida da Sra. J é o reflexo de seu país natal, que tenta se reerguer após tantos conflitos internos. O diretor acertou ao compor uma trama bem urdida, com viradas discretas (mas marcantes) e um desfecho sublime, além de escalar a experiente atriz Mirjana Karanovic ("Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios", "Diário de Um Maquinista") que constrói com um naturalismo ímpar, uma mulher madura e depressiva, que não sabe lidar com as perdas que a vida lhe reservou. A escolha dos planos de conjunto, com a câmera fixa, captando espaços vazios, com uma iluminação pálida, reforça o estado de espírito da personagem-título. 

Vale destacar também, o elenco coadjuvante que contracena com Mirjana. Todos, sem exceção, estão em total sintonia com a personagem principal, a despeito de seu estado letárgico. "Réquiem Para a Sra. J" foi o indicado da Sérvia para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro desse ano. Ficou de fora da competição, mas despertou o interesse mais uma vez para com o novo cinema do Sudeste Europeu que já ofereceu aos brasileiros títulos da envergadura de "Circus Fantasticus" (2011), "Um Episódio na Vida de Um Catador de Ferro-velho" (2013), "Além das Montanhas" (2013),  "Instinto Materno" (2014), "Sieranevada" (2016), entre outros.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

46o Festival de Cinema de Gramado acontece de 17 a 25 de agosto

Falta apenas um mês para a realização da 46a edição do Festival de Cinema de Gramado, que esse ano, acontece de 17 a 25 de agosto, na serra gaúcha. A programação que durará nove dias, inclui, não somente as mostras competitivas, mas também debates, homenagens e atividades paralelas.

Uma dessas atividades paralelas é o Gramado Film Market que chega à sua segunda edição como programação oficial do festival, focada na discussão e na reflexão de pontos cruciais da atividade audiovisual, no gargalo de escoamento e nas parcerias nacionais e internacionais. Para esse ano, o Gramado Film Market se concentra em três frentes de discussão: plataformas de exibição, internacionalização de conteúdos ibero-americanos e no futuro das salas de exibição.

Sobre os filmes selecionados para as mostras competitivas, ao todo, serão nove títulos na competitiva de longas-metragens brasileiros, cinco longas-metragens estrangeiros, 14 curtas-metragens brasileiros e 20 representantes de curtas gaúchos. Assim, como na edição passada, foram responsáveis pela curadoria os críticos de cinema Rubens Ewald Filho e Marcos Santuario e a produtora e gestora cultural argentina Eva Piwowarski.

Os longas selecionados foram: "10 Segundos Para Vencer" (RJ) de José Alvarenga Jr.; "O Banquete" (SP) de Daniela Thomas; "Benzinho" (RJ) de Gustavo Pizzi; "A Cidade dos Piratas" (RS) de Otto Guerra; "Ferrugem" (PR) de Aly Muritiba; "Mormaço" (RJ) de Marina Meliande; "Simonal" (RJ) de Leonardo Domingues; "A Voz do Silêncio" (SP) de André Ristum e o "Avental Rosa" (SP) de Jaime Monjardim.

Também inaugurado na edição passada, o projeto do filme convidado de honra do Festival de Cinema de Gramado é mantido esse ano. Após a estreia com o Canadá, agora é a vez da Itália marcar presença no evento para compartilhar com o público as tendências, novidades e reflexões de suas produções e exibições cinematográficas.

Os homenageados da 46a edição do Festival de Cinema de Gramado serão o cineasta e animador Carlos Saldanha que receberá o Troféu Eduardo Abelin e o ator Ney Latorraca que receberá o Troféu Cidade de Gramado.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Nocaute Seco

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 Charlotte Rampling imprime um tour de force em "Hannah"

Amanhã, entra em cartaz no Cinema Vitória (Rua do Turista- Centro de Aracaju), "Hannah", o segundo longa-metragem do diretor italiano Andrea Pallaoro. O filme, que participou da competitiva da 74a edição do Festival de Veneza, saiu do evento com o prêmio de Melhor Atriz, concedido a Charlotte Rampling, numa performance irretocável. 

A atriz inglesa já nos tinha presenteado com duas interpretações memoráveis neste século: como Marie Drillon em "Sob a Areia" (2000) de François Ozon e como Kate Mercer em "45 Anos" de Andrew Haigh (por essa atuação, Rampling recebeu o Urso de Prata de Melhor Atriz e foi indicada ao Oscar). Coincidentemente, duas personagens que saem de sua zona de conforto, quando têm que lidar com situações adversas em torno do casamento, aparentemente estável. 

Em "Hannah", não será muito diferente, porém mais angustiante. Durante 95 minutos, acompanhamos o cotidiano da personagem homônima, numa rotina preenchida pelo trabalho como empregada doméstica, as aulas de teatro e a natação num clube. Aos poucos, tomamos ciência de que o marido (André Wilms) cometeu um crime e foi condenado à prisão, ao mesmo tempo que esse ocorrido afastou Hannah  do seu único filho e do neto. Ainda que ela tente uma reaproximação, o filho (Simon Bisschop) a despreza. Mas Pallaoro, que assina o roteiro juntamente com Orlando Tirado, não revela tudo à plateia. Pelo menos, de forma taxativa. 

Em parte, ele confia a Charlotte Rampling, através de sua interpretação minimalista- com expressões e reações contidas-, a função de ativar nossa percepção para o que, de fato, orbita na vida da personagem, esvaziada de relações interpessoais, mas repleta de emoções represadas. Hannah vive na esperança de que algo lhe alente. Os momentos de ensaio para apresentação de uma peça ou mesmo a tentativa de relaxamento na piscina são tentativas de minimizar suas angústias alimentadas pelo medo da solidão e do desamparo. Mas o dia-a-dia lhe corrói a alma, pesa em seus ombros. O cachorro não quer comer, sentindo falta do dono; o filho não atende aos seus telefonemas; a certeza de que o marido é inocente, transforma-se em dúvida. 

Mas também, é pela maneira como constrói a mise-en-scène, com rigor, sem "gorduras", que o cineasta convida o público a espreitar a intimidade da protagonista, envolta em camadas. Se para o mundo, Hannah parece passar despercebida- ironicamente, o personagem que mais interage com ela, é o filho cego da patroa - é porque Pallaoro reforça essa sensação, na escolha dos enquadramentos; opta por uma paleta de cor insípida (contando com o auxílio luxuoso do diretor de fotografia Chayse Irvin) e se apropria dos ambientes em que a protagonista circula de uma maneira peculiar (mérito também da diretora de arte Marianna Sciveres).

"Hannah" é uma experiência voyerística angustiante, dolorosa, mas recompensadora (ainda que algumas perguntas não sejam respondidas). Graças a uma Charlotte Rampling iluminada, nesse combate entre realidade e negação, a luta é vencida por nocaute. No entanto, não é Hannah quem cai, ela que nos derruba...

sexta-feira, 6 de julho de 2018

13o Fest Aruanda segue com Inscrições Abertas até 10 de Agosto

Até o dia 10 de agosto, os realizadores do audiovisual que estiverem interessados em concorrer  nas categorias de curta-metragem e TV Universitária do 13o Festival Aruanda, podem acessar o site http://festaruanda.com.br/inscricoes/ e realizar a inscrição.

Uma novidade desta edição é que os curtas-metragens terão que ter, obrigatoriamente, duração de 15 minutos (incluindo créditos). A mudança se deve a uma reorientação baseada na própria legislação da Ancine (Agência Nacional de Cinema) que estabelece o tempo de 15 minutos como duração máxima para um filme ser enquadrado na categoria Curta-Metragem.

Nesse sentido, entende a organização do festival que a produção de um curta, pelo que sugere o próprio nome, significa, na prática, o desafio de dizer em 10 ou 15 minutos o que se comunica em um média ou longa-metragem, com uma hora ou mais de duração.

O Festival Aruanda acontecerá de 6 a 12 de dezembro, no Cinépolis do Manaíra Shopping e  contará com a parceria e patrocínio da Energisa-PB e do Armazém Paraíba.

46o Festival de Cinema de Gramado divulga 14 Curtas na Mostra Competitiva

No próximo dia 10 de julho, a coordenação do Festival de Cinema de Gramado irá divulgar a lista completa de filmes concorrentes ao Kikito, entre longas brasileiros e estrangeiros e curtas gaúchos. No entanto, foram revelados nesta semana os 14 títulos brasileiros, no formato curta-metragem, que serão projetados na tela do Palácio dos Festivais durante o evento serrano, que acontece entre os dias 17 e 25 de agosto.

Para avaliar os 365 filmes inscritos neste formato, o Festival de Cinema de Gramado contou com uma comissão de seleção formada pela diretora Camila de Moraes; a produtora e diretora Karine Emerich; o ator e produtor Sérgio Fidalgo; o professor e escritor Stephen Bocskay, professor e escritor; e a produtora e diretora Tatiana Sager.

Confira abaixo a lista dos filmes selecionados para a mostra competitiva de curtas-brasileiros do 46º Festival de Cinema de Gramado:

"À Tona" (DF) de Daniella Cronemberger

"Apenas o Que Você Precisa Saber Sobre Mim" (SC) de Maria Augusta V. Nunes

"Aquarela" (MA) de Thiago Kistenmacker e Al Danuzio

"Catadora de Gente" (RS) de Mirela Kruel

"Estamos Todos Aqui" (SP) de Chico Santos e Rafael Mellim

"Um Filme de Baixo Orçamento" (SP) de Paulo Leierer

"Guaxuma" (PE) de Nara Normande

"Kairo" (SP) de Fabio Rodrigo

"Majur" (MT) de Rafael Irineu

"Minha Mãe, Minha Filha" (ES) de Alexandre Estevanato

"Nova Iorque" (PE) de Leo Tabosa

"Plantae" (RJ) de Guilherme Gehr

"A Retirada Para Um Coração Bruto" (MG) de Marco Antonio Pereira

"Torre" (SP) de Nádia Mangolini

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Apaixonante, Van Gogh

Com Amor, Van Gogh_divulgação_http://bangalocult.blogspot.com
 "Com Amor, Van Gogh" de Dorota Kobiela e Hugh Welchman

Inicialmente, um ótimo ANO NOVO, para os meus velhos e  novos seguidores!!! Que 2018 seja bastante cinematográfico!! E, pelo andar da carruagem (tendo em vista os bons títulos em cartaz no Cinema Vitória (localizado à Rua do Turista, centro de Aracaju), penso que teremos, sim, um ano promissor em matéria de estreias audiovisuais em Aracaju.

Nessa primeira postagem do ano, gostaria de chamar a atenção para um filme que estreou em dezembro de 2017, mas que pode fazer bonito na corrida para o Oscar, na categoria Longa de Animação. Trata-se de "Com Amor, Van Gogh" da dupla de artistas visuais e diretores, Dorota Kobiela e Hugh Welchman, que há uma década, decidiram se debruçar num projeto ambicioso: filmar um longa-metragem a partir de telas pintadas animadas.  Para isso, escolheram a vida e obra de Vincent Van Gogh para retratar na telona, partindo do episódio misterioso de sua morte, em 29 de julho de 1890, aos 37 anos.

Depois de uma boa acolhida pelo público, na 41a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a produção que foi distribuída pela Europa Filmes, segue em cartaz, em algumas capitais brasileiras e já ultrapassou a marca de 65 mil ingressos vendidos. A história começa um ano depois da morte de Van Gogh, com Armand Roulin (Douglas Booth), filho do carteiro e amigo do pintor holandês, Joseph Roulin (Chris O'Dowd), à procura de Theo, para lhe entregar uma carta do irmão morto.

Theo não é localizado e Armand visita algumas pessoas que tiveram contato com o artista pós-impressionista, antes de sua morte, em Auvers. Surge uma dúvida: teria Van Gogh se suicidado mesmo ou ele teria sido assassinado ? (versão aventada pelos biógrafos Steven Naiefh e Gregory White Smith, no livro "Van Gogh- a Vida", lançado em 2011, no Brasil, pela Cia. das Letras).  Personagens como Dr. Gachet (Jerome Flynn), sua filha Margaret (Saoirse Ronan) e Adeline Ravoux (Eleanor Tomlinson), que foram retratados por Van Gogh durante a sua breve existência, ajudam a Armand compreender melhor a personalidade ora frágil, ora conturbada do pintor.

Enquanto a narrativa se desenvolve, didaticamente, escorando-se em flashbacks, para o espectador, pouco importa qual a versão verdadeira da história. O fato é que Vincent Van Gogh morreu aos 37 anos, deixou cerca de 900 telas prontas em apenas 9 anos de trabalho e, apesar de ter vendido apenas um quadro, em vida, sua genialidade pictórica foi consolidada ao longo das décadas seguintes.

É indescritível a sensação de apreciar uma tela do pintor holandês num museu. O excesso de tinta, as pinceladas ágeis, as cores vibrantes e uma certa distorção espacial contribuem para se atingir um estado de quase êxtase. "Com Amor , Van Gogh" leva-nos a uma sensação similar. Agora, projetadas no ecrã, não há como avaliar a textura das imagens, as pinceladas foram produzidas por mais de 100 diferentes artistas e o valor tonal pode até se aproximar do real, mas não é o autêntico. Por outro lado, os milhares de frames em movimento e o trabalho obsessivo dos técnicos na tentativa de, finalmente, promover o "encontro" da pintura com o cinema,  soa recompensador.

Apesar da fragilidade do roteiro e de uma certa obsessão dos diretores em reproduzir um número significativo de situações e colocar em cena, modelos que serviram de inspiração para o pintor criar suas telas, o filme ganha o espectador pela emoção e preciosismo técnico, tendo grande chance de vencer o Globo de Ouro na categoria específica- de Filme de Animação- neste domingo e concorrer na mesma categoria no Oscar 2018.