segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O paraguaio "As Herdeiras" chega ao Cinema Vitória


Chiquita (Margarita Irun) e Chela (Ana Brun): relacionamento em perigo


O último filme paraguaio, que lembro de ter assistido num cinema sergipano, foi "7 Caixas" (7 Cajas) de Juan Carlos Maneglia e Tana Schémbori, produção de 2012, lançado no circuito brasileiro dois anos depois. A sessão fez parte do Cine Cult que, infelizmente, foi sepultado pelo Cinemark Aracaju, após a morte de Roberto Nunes, idealizador do projeto cinefílico.

Agora, quatro anos depois da estreia do maior sucesso de bilheteria da história do Paraguai, eis que chega ao Cinema Vitória, a co-produção Brasil/Paraguai, "As Herdeiras" (2018) de Marcelo Martinessi que saiu do último Festival de Berlim com três prêmios- Urso de  Prata de Melhor Atriz, Urso de Prata Alfred Bauer Para Primeiro Filme Que Abre Novas Perspectivas e Prêmio FIPRESCI- e do 46o Festival de Gramado com seis Kikitos.

Um feito para Martinessi, que estreia em longa-metragem com esse filme (representante do Paraguai na briga por uma vaga no Oscar 2019 de Filme Estrangeiro), como também para Ana Brun, que nunca havia atuado antes de assumir o papel de Chela, uma sexagenária que está passando por sérias dificuldades financeiras ao lado da companheira Chiquita (Margarita Irun). Morando ainda na casa em que nasceu e herdou dos pais, Chela resiste em acreditar na crise que se abateu sobre sua vida: não só a financeira, mas também a afetiva.

Enquanto Chiquita está ao seu lado, tentando juntar uma quantia razoável, através da venda da mobília, das obras de arte e da prataria da esposa, para se safar da acusação de sonegação fiscal, Chela parece mergulhar num estado depressivo e não esboça, a princípio, nenhum sinal de reação. Somente quando se vê sozinha com a empregada Pati (Nilda Gonzalez), ela deixa a atitude passiva no seu ateliê de pintura e vai à luta.

Como motorista particular de algumas amigas que se reúnem, eventualmente, para jogar cartas, Chela vai criando "um caixa" para dar conta das despesas domésticas, ao mesmo tempo que conhece Angy (Ana Ivanova),  jovem que lhe desperta um interesse especial. Lentamente, Chela vai acordando para a vida e percebe que apesar da idade, de ter deixado nas mãos de Chiquita, por muito tempo, o poder de guiar sua vida, ela ainda tem disposição para recomeçar e dar a volta por cima.

Não é à toa que "As Herdeiras" fez sucesso por onde passou. O roteiro enxuto e ousado- colocar no centro da trama personagens femininas, sexagenárias e lésbicas é raro na cinematografia latina- aliado à direção precocemente madura de Martinessi e aos desempenhos das atrizes principais e coadjuvantes constroem uma obra sólida, concisa e econômica nas palavras, que aposta mais no gestual e nos olhares das atrizes.

Apesar da inexperiência na atuação, Ana Brun parece bem a vontade no papel principal, compondo uma Chela humana, cheia de contradições e falível. Quando está em cena, sua presença é magnética. A complexidade de sua personagem faz jus à Angy e Chiquita criadas por Ivanova e Irun, respectivamente. Cada uma, a seu modo, flerta com o público, guiadas pela câmera de Martinessi, auxiliado pelo diretor de fotografia, Luis Armando Arteaga, que não hesita em desnudar, aos poucos, a real faceta desse ambiente doméstico e das relações interpessoais que aí se estabelecem.

Se num primeiro momento, temos dificuldades em entender a dinâmica da casa de Chela e Chiquita,  por conta do uso de planos fechados, da iluminação rarefeita e da câmera à espreita por trás das portas  entreabertas, posteriormente, esse ambiente vai tomando uma outra configuração, sendo mais iluminado e menos camuflado. Chela também muda sua postura em relação à vida. Se antes passava a impressão de uma mulher recatada, discreta, gradativamente, deixa a vaidade aflorar junto com o desejo sexual.

Martinessi, praticamente, exclui os personagens masculinos da história e dá voz às mulheres invisibilizadas pela sociedade tradicionalista e patriarcal. Com acuidade invejável, o diretor envereda por  um tema delicado, fazendo com que o público reflita sobre a amizade, o amor e o desejo. Um filme obrigatório!!



sábado, 10 de novembro de 2018

"Chacrinha: o Velho Guerreiro" chega aos Cinemas Brasileiros


Chacrinha (Nercessian) entre as chacretes no seu programa televisivo


Uma figura como Chacrinha, deveria despertar o interesse não só do público  jovem- para conhecer quem foi esse fenômeno midiático da história do Rádio e da TV brasileira- como também da galera de mais de 40 anos, que se divertia muito com o  apresentador escrachado -ainda que muitas de suas brincadeiras, sejam consideradas politicamente incorretas. Mas o filme que teve estreia, na última quinta-feira, em circuito nacional, aqui em Aracaju, parece ainda não ter encontrado seu público. Na sessão de ontem, à tarde, no Cinemark Riomar, apenas eu e mais três pagantes na plateia.

Na tela, Eduardo Sterblitch e Stepan Nercessian vivem o personagem título com naturalidade (diferentes épocas) em "Chacrinha: o Velho Guerreiro" que ora diverte, emociona e faz com que viajemos no tempo através dos sucessos da época, interpretados por artistas como Criolo, Laila Garin (Clara Nunes) e Luan Santana. Muito bem dirigido por Andrucha Waddington, o longa-metragem conta com um elenco de coadjuvantes à altura dos atores principais, destacando-se Carla Ribas (Florinda), Rodrigo Pandolfo (Jorge), Pablo Sanábio (Nanato/Leleco), Gustavo Machado (Oswaldo) e Thelmo Fernandes (Boni).

O longa foca na carreira de José Abelardo Barbosa de Medeiros, pernambucano, que chega ao Rio de Janeiro sem um tortão no bolso (após uma tentativa fracassada de baterista no conjunto de um navio) e decide ficar, apostando apenas no talento  como comunicador, para encontrar "seu lugar ao sol". De garoto propaganda de uma loja de tecido, torna-se radialista e chega até a TV, onde não tarda a fazer um sucesso estrondoso. Algumas histórias de bastidores são abordadas no filme, revelando um homem, por vezes, amargurado por conta das relações familiares; irascível, quando o assunto era sua autonomia no trabalho, tendo embates com Boni da Globo, mas também afetuoso com as mulheres e com fama de mulherengo.

Ainda que não aprofunde em alguns aspectos pessoais, o roteiro de Cláudio Paiva traça um panorama abrangente e interessante da carreira artística do "Velho Guerreiro", mostrando seus altos e baixos e o poder de reação frente às tragédias familiares. A direção de arte assinada por Rafael Targat, a fotografia de Fernando Young e o figurino a cargo de Marcelo Pies são um show à parte.

Para quem ainda não foi assistir ao principal lançamento nacional da semana, fica a dica. Mas corra, pois como é filme brasileiro, pode ser que seja tarde demais, quando você resolver conferi-lo no cinema.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Roteiro desgastado pela "Ferrugem"


Ferrugem_foto de Rosano Mauro Jr._http://bangalocult.blogspot.com
Cena de "Ferrugem" de Aly Muritiba (Foto/divulgação: Rosano Mauro Jr.)

Nos últimos tempos, em alguns festivais nacionais e internacionais, quando se premia uma obra audiovisual, a temática parece funcionar como fator preponderante nas escolhas de determinados júris. Não importa os furos de roteiro, eventuais interpretações claudicantes ou até mesmo a falta de habilidade do diretor para resolver questões primárias. Muitas vezes, vale mais a boa intenção do realizador do que propriamente a eficiência com que ele trabalha com assuntos pertinentes à contemporaneidade.

No quarto dia de programação do 8o Festival Sergipe de Audiovisual (SERCINE), pude comprovar que "Ferrugem" de Aly Muritiba, vencedor nas categorias de Melhor Filme e Melhor Roteiro no 46o Festival de Gramado, parece ter sido beneficiado por essa "nova onda", onde o apuro da linguagem cinematográfica, da escolha estética fica em segundo plano, enquanto o que vale mesmo é a relevância do tema social.

Assim como no recente "Luna" de Cris Azzi (exibido, por enquanto, no circuito de festivais), "Ferrugem" toca no tema do bullying contra garotas que tiveram vídeos eróticos disseminados por colegas via internet, levando-as a atos desesperadores. A semelhança, no entanto, para por aí. Enquanto "Luna" prima pela encenação, apoiada por uma direção segura, ótimas interpretações, roteiro bem urdido, acurada fotografia e cuidadosa direção de arte (saiu sem prêmios no Fest Brasília), "Ferrugem" apresenta "furos" no roteiro, comprometendo a verossimilhança da história; seus personagens carecem de empatia, fruto de uma certa apatia interpretativa dos atores principais e há um descuido na construção de determinadas cenas (quanto à escolha de planos, uso de clichês).

Aly Muritiba divide seu filme em duas partes, onde a primeira é dedicada ao drama de Tati e a segunda foca a reação de Renet à impulsividade da garota. Tati (Tiffany Dopke) não desgruda de seu celular. Visitando um aquário juntamente com colegas de turma e o professor de Biologia, ela se encanta com a diversidade da fauna subaquática, registrando tudo em seu smartphone. O único que a faz perder o foco no habitat  marinho artificial é o colega Renet (Giovanni de Lorenzi). Há um clima de paquera entre eles e não tarda, a oportunidade de um beijo, num  passeio noturno.

O clima romântico só será quebrado com a perda do celular de Tati, que recruta os colegas a procurarem o aparelho móvel, como se fosse uma joia rara. Ninguém teve a brilhante ideia de ligar para o número da garota, a fim de que ele tocasse ou vibrasse ao primeiro toque, de modo que o descuido de Tati levará a consequências inimagináveis. Um vídeo íntimo em que está com o ex-namorado cai na rede e Tati vira alvo de bullying. 

No "olho do furacão", a adolescente não consegue encontrar um culpado, perde, gradativamente, o apoio das amigas mais próximas e seus pais estão na iminência de descobrirem a verdade. Não tarda para o desespero bater à sua porta. A partir de então, a história mudará de rumo, permitindo ao espectador acompanhar o tímido e inconsequente Renet refletindo sobre a imprevisibilidade e crueldade humana, ao mesmo tempo que tenta lidar com questões familiares, envolvendo sua relação com os pais (Enrique Díaz e Clarissa Kiste).

"Ferrugem" peca pelo excesso, com detalhes que deveriam estar ocultos, mas terminam enaltecendo as falhas do roteiro (prefiro não citar e deixar que o internauta descubra por si só). Há um desequilíbrio também na atuação dos adultos - Enrique Díaz e Clarissa Kiste estão na medida- enquanto que Dopke e Lorenzi se esforçam em dar conta da complexidade dos personagens sem, no entanto, alcançarem um resultado convincente. Quanto à maneira da câmera se portar, parece que os planos foram escolhidos ao acaso, sem um rigor na composição do quadro, que poderia auxiliar muito no resultado dramatúrgico.

Infelizmente, é um filme cheio de boas intenções, cujo resultado deixa muito a desejar. Uma pena!

sábado, 3 de novembro de 2018

"Bixa Travesty" abre a 8a edição do SERCINE


A cerimônia de abertura da 8a edição do Festival Sergipe de Audiovisual (SERCINE) acontece, logo mais, às 19h, no Centro Cultural de Aracaju, localizado à Praça General Valadão, na capital sergipana. Além da exibição do documentário "Bixa Travesty" de Kiko Goifman e Claudia Priscilla, haverá um debate após o filme com Linda Brasil (ativista feminista, LGBT e transfeminista) e Maluh Andrade (secretária geral do AmoSerTrans). Para esquentar o público que comparecer à abertura haverá discotecagem do DJ JO-EL, do DJ ANTI e mapping Camila Pedroza.

O festival que prossegue até o dia 10 de novembro, com atividades gratuitas, no Centro Cultural de Aracaju e Museu da Gente Sergipana, conta ainda com mostras informativas e competitivas de curtas-metragens, além de exibição de filmes de longa-metragem convidados ("Parquelândia" de Cecília da Fonte- 05/11; "Tito e os Pássaros" de Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar e André Catoto- 06/11; "Ferrugem" de Aly Muritiba- 07/11; "Rei"- 08/11 de Nilles Atallah; "Híbridos: os Espíritos do Brasil" de Vincent Moon e Priscilla Telmon; "Torre das Donzelas" de Susanna Lira) e o seminário "Mulheres no Cinema Brasileiro: que História é Essa ?" com Kátia Holanda no dia 05, às 14h30.

Quanto a "Bixa Travesty", o filme foi vencedor do Teddy Award na categoria documentário, no Festival de Berlim 2018 e contemplado com três prêmios no último Festival de Brasília (Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Trilha Sonora), o Prêmio Saruê pela performance de Linn da Quebrada e Jup do Bairro, além da Menção Honrosa concedida pelo Júri Oficial. A força do documentário está na sua personagem principal: a multiartista Linn da Quebrada.

O documentário, cujo roteiro é assinado pela própria Linn e os diretores, intercala cenas da vida pessoal e da trajetória artística da funkeira e ativista trans, oriunda da periferia paulista, focando sua relação com a mãe, os amigos, a música e, principalmente, com o seu corpo. Linn da Quebrada é um ser em transformação, fluido (vide as ricas imagens de arquivo inseridas no filme) e seu corpo, um ato político. Juntamente com a amiga e também performer Jup do Bairro, ela testa os limites do corpo, na tentativa de alcançar o prazer, sem paranoias ou cobranças. 

Extremamente articulada e mordaz, Linn participa de um programa de rádio fictício (em breve, deverá virar série) construindo um discurso sólido, baseado em teorias queers e em sua própria vivência. Essas esquetes são um dos pontos altos do filme, assim como as cenas de Linn se recuperando de um problema de saúde e alguns momentos de suas apresentações musicais.

"Bixa Travesty" já se coloca como um dos melhores documentários brasileiros do ano, não só pela abordagem temática, mas como a discussão de gênero e identidade é conduzida pela protagonista ao longo dos seus 75 minutos. Imperdível!!

Programação Completa:

03 de novembro
Centro Cultural de Aracaju

ABERTURA
Cerimonia de abertura - 19h00

Longa Convidado – 14 anos
Bixa Travesty – Dir. Kiko Goifman e Claudia Priscilla
DOC. – 75min. – 2018 


05 de novembro
Centro Cultural de Aracaju

Seminário Conversas com o Cinema – 14h30 - LIVRE

Palestra
“Mulheres no cinema brasileiro: que história é essa?”
Karla Holanda

Mostra de Longas – 10 anos
Centro Cultural de Aracaju – 19h

Longa Convidado
Parquelândia – Dir. Cecilia da Fonte
DOC. – 73min. – 2018 


06 de novembro

Mostra infantil - LIVRE
Museu da Gente Sergipana -  9h

Mostras Competitivas
Centro Cultural de Aracaju – 14h30

Competitiva Universitária – 14 anos
Mercadoria – Dir. Carla Villa-Lobos – UFRJ – 15’ – 2017
Braços Vazios – Dir. Daiana Rocha – UFES – 16’ – 2017
Vidas Cinzas – Dir. Leonardo Martinelli – UNESA – 15’ – 2017
Um Lugar ao sul – Dir. Gianluca Cozza – UFPel – 11’ – 2018 

Competitiva Nordeste – 12 anos
Avalanche – Dir. Leandro Alves – AL – 21’ – 2017 
Vento Menino – Dir. Edemar Miqueta – MA – 25’ – 2017
Caleidoscópio – Dir. Natal Portela – CE – 18’ – 2017

Competitiva Brasil – 12 anos
Namoro à Distância – Dir. Carolina Markowicz – SP – 5’ – 2017
O Órfão – Dir. Carolina Markowicz – SP – 15’ - 2018
Lençol de Inverno – Dir. Bruno Rubim – MG – 24’ - 2017
Transvivo – Dir. Tati Franklin – ES – 20’ – 2017 


Mostra de Longas - LIVRE
Centro Cultural de Aracaju – 19h30

Curta Convidado
O Caçador de Árvores Gigantes – Dir. Anttonio Pereira – RS – 2016

Longa Convidado
Tito e os Pássaros – Dir. Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar e André Catoto
ANIMAÇÃO – 73min. – 2018 


07 de novembro

Mostra infantil - LIVRE
Museu da Gente Sergipana -  9h

Mostras Competitivas
Centro Cultural de Aracaju – 14h30

Competitiva Universitária – 14 anos
Cravo, Lírio e Rosa – Dir. Maju de Paiva – UFF – 20’ – 2018
Ontem eu tive que morrer – Dir. Dominique Mangueira – UFS – 17’ – 2018
Sam – Dir. Miguel Moura e Julia Souza – SENAI CETIQT – 8’ – 2017 
Reexistir – Dir. Gabriela Lima – FAAP – 15’ – 2017 

Competitiva Nordeste – 12 anos
Boca de Loba – Dir. Bárbara Cabeça – CE – 19’ – 2018 
Grito! Parte I: Mini Manifesto Feminista Interseccional em Imagens - Dir. Dandara de Morais – PE – 23’ – 2018
Entre Pernas – Dir. Ayla de Oliveira – PE – 20’ – 2018

Competitiva Brasil – 12 anos
Carroça 21 – Dir. Gustavo Pera – SP – 12’ – 2018 
Carne – Dir. Mariana Jaspe – RJ – 11’ – 2017
Estado Itinerante – Dir. Ana Carolina Soares – MG – 25’ – 2016 
Fè Mye Talè – Dir. Henrique Lahude – RS – 16’ – 2018

Mostra de Longas – 14 anos
Centro Cultural de Aracaju – 19h30

Longa Convidado
Ferrugem – Dir. Aly Muritiba
FICÇÃO – 105min. – 2018


08 de novembro

Mostra infantil - LIVRE
Museu da Gente Sergipana -  9h

Mostras Competitivas
Centro Cultural de Aracaju – 14h30

Competitiva Universitária – 16 anos
Inconfissões – Dir. Ana Galizia – UFF – 21’ – 2017
Impermeável Pavio Curto – Dir. Higor Gomes – UNA – 20’ – 2018
Super Estrela Patreada – Dir. Leonardo Branco – UNA – 28’ - 2018

Competitiva Nordeste – 18 anos
MINOTAURO - viagem ao labirinto do corpo – Dir. Leonardo França – BA – 22’ - 2016
Imaginários Urbanos – Dir. Glauber Xavier – AL – 24’ – 2017
Aos meus pés – Dir. Felipe Saraiva – CE – 14’ – 2018
Não tema – Dir. Odécio Antonio – PB – 11 - 2018

Competitiva Brasil – 14 anos
Rio das Lágrimas Secas – Dir. Saskia Sá – ES – 25’ – 2018
Metempsicose – Dir. Italo Rocha e Marcelo Zuza – AC – 2’ – 2017 
Boi – Dir. Lucas Bettim e Renan Carvalho – SP – 13’ – 2018 
Sweet Heart – Dir. Amina Jorge – SP – 21’ – 2018

Mostra de Longas – 12 anos
Centro Cultural de Aracaju – 19h30

Longa Convidado
Rei – Dir. Niles Atallah
FICÇÃO – 91min. – 2017 - CHILE


09 de novembro

Mostra infantil - LIVRE
Museu da Gente Sergipana -  9h

Mostras Competitivas
Centro Cultural de Aracaju – 14h30

Competitiva Universitária – 12 anos
Tiba Uema – Dir. Maria Vitoria Uema – UFS – 5’ - 2018
Amor de Orí – Dir. Bruna Barros – UNB – 7’ – 2017   
Sessão Especial – Dir. Gabriela Queiroz – UFC – 20’ – 2017 
Modernidade Liquida (Videoclipe) – Dir. Andrey Costa e Luiz Michael – UFS – 5’ – 2018
Brasil 1984 – Dir. Filipe Cruz – UFS – 1’ – 2018

Competitiva Nordeste – LIVRE
Entre marés – Dir. Ayla de Oliveira – PE – 20’ – 2018 
Fantasia de Índio – Dir. Manuela Andrade – PE – 18’ – 2017 
Juninas – Dir. Thaís Ramos – SE – 19’ – 2018 
No signal – Dir. Jonta Oliveira – SE – 2’ – 2018 
[IN]SUSTENTÁVEL – Dir. Julio Castro e Seo Cruz – RN – 12’ – 2018  

Competitiva Brasil – 12 anos
Arara: Um Filme Sobre um Filme Sobrevivente – Dir. Lipe Canêdo – MG – 13’ – 2017
Retratos sobre o Não Ver – Dir. Erik Gasparetto – PR – 19’ – 2018 
Logo Após – Dir. Ana Carolina Soares – MG – 29’ – 2018 
Intervenção – Dir. Isaac Brum Souza – GO – 18’ – 2017

Mostra de Longas – 12 anos
Centro Cultural de Aracaju – 19h30

Longa Convidado
Híbridos: Os Espíritos do Brasil – Dir. Vincent Moon e Priscilla Telmon
DOC. – 88min. – 2017


10 de novembro
Centro Cultural de Aracaju

ENCERRAMENTO 
Cerimonia de Encerramento - 19h30

Longa Convidado – 14 anos
Torre das Donzelas – Dir. Susanna Lira
DOC.  – 92min. – 2018

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

"Las Sandinistas!" sai duplamente premiado na 42a Mostra Internacional de Cinema de SP

Ontem, no Auditório do Ibirapuera, aconteceu o encerramento da 42a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Serginho Groisman e a diretora da Mostra Renata de Almeida foram os mestres de cerimônia e apresentaram os filmes vencedores. 

O documentário "Las Sandinistas!" de Jenny Murray saiu do evento duplamente premiado. Recebeu o Troféu Bandeira Paulista 2018, concedido pelo Júri Internacional- formado pela atriz Astrid Adverbe, o produtor Edgar Tenembaum, o diretor Ferzan Özpetek, o diretor Sérgio Machado e a diretora Teresa Villaverde. O Júri Oficial ainda concedeu uma Menção Honrosa para o brasileiro "Sócrates" de Alex Moratto. Já o Prêmio do Público, na categoria melhor ficção internacional, ficou com "Cafarnaum" de Nadine Labaki, enquanto na categoria melhor documentário venceu "Las Sandinistas!".

Pela segunda vez, a Mostra internacional de Cinema de SP concede o Prêmio Petrobras de Cinema a dois filmes brasileiros. Dessa vez, ambos foram escolhidos pelo público, sendo o melhor longa de ficção (prêmio de R$ 200 mil reais) "Meio Irmão" de Eliane Coster e o melhor documentário (prêmio de R$ 100 mil reais)  "Torre das Donzelas" de Susanna Lira.

O Prêmio ABRACCINE concedido por um júri formado por membros da Associação Brasileira de Críticos de Cinema foi para "Meio Irmão" de Eliane Coster. Já a imprensa especializada que cobre o evento e tradicionalmente confere o Prêmio da Crítica escolheu "Todas as Canções de Amor" de Joana Mariani e o mexicano "Nuestro Tiempo" de Carlos Reygadas, respectivamente, como o melhor filme brasileiro e o melhor estrangeiro dessa edição.


quarta-feira, 31 de outubro de 2018

"Las Sandinistas!" e "Uma Mulher em Guerra": Mulheres Militantes e Revolucionárias

Las Sandinistas!_http://bangalocult.blogspot.com
"Las Sandinistas!" aborda a ação das guerrilheiras nicaraguenses


Uma Mulher em Guerra_http://bangalocult.blogspot.com
Halla (Sigurdarson) é maestrina, ambientalista e mãe em "Uma Mulher Em Guerra"


Dos 40 filmes vistos, nessa 42ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, dois estrangeiros representam bem a força da militância feminina: o documentário norte-americano “Las Sandinistas!” dirigido por Jenny Murray e a ficção islandesa “Uma Mulher em Guerra” de Benedikt Erlingsson.

O documentário parte de imagens de arquivos e entrevistas atuais para traçar o perfil de algumas mulheres guerrilheiras e revolucionárias da Nicarágua, que faziam parte da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), durante a década de 1970, tendo como destaque, Dora Maria Téllez, Mônica Baltodano, Gioconda Belli, entre outras. 

A FSLN foi um partido político socialista, criado no início da década de 1960, em oposição ao governo ditatorial de Anastásio Somoza Debayle, sendo que, em 1979, um grupo de 25 guerrilheiros (dentre as líderes estava Dora Maria), invade o Palácio do Governo e estabelece o fim do poder da família Somoza, iniciado em 1936, pelo patriarca Anastásio Somoza García.

Os Sandinistas ficaram no poder até 1990, sendo a Nicarágua governada por uma Junta Provisória de 1980 a 1984 e de 1985 a 1990, o sandinista Daniel Ortega tornou-se presidente eleito do país da América Central. Durante o período da Junta Provisória, uma série de ações socialistas aconteceu no país, com o intuito de combater o atraso econômico. Muitas dessas guerrilheiras contribuíram com essas ações, ocupando cargos políticos.

O filme mostra a força da mulher nicaraguense, independente de classe social, raça e nível intelectual, todas lutando por um ideal: o de ver o seu país livre da ditadura e com políticas sociais visando a redistribuição de renda, promoção da saúde e da educação. Se no início, as mulheres pegaram em armas, depois utilizaram os livros, a oratória para combater o autoritarismo que vigora até hoje, com o regime de Daniel Ortega (ex-líder revolucionário, cuja forma de governo passa ao largo das ideias sandinistas originais). 

Feministas na sua essência, algumas dessas mulheres moram no exterior, mas não esquecem do país natal e lutam para que grupos vulneráveis nicaraguenses tenham seus direitos preservados. Ainda que siga um formato tradicional de documentário- baseado em entrevistas e imagens de arquivo- “Las Sandinistas!” é um filme fundamental, na medida em que contribui para que parte da história da Nicarágua não seja esquecida, apagada. 

Coincidentemente, a história escrita pelas mulheres combativas que a sociedade baseada no patriarcado, faz questão de ignorar.

Já a ficção islandesa "Uma Mulher Em Guerra" destaca-se pela força da personagem e pela  narrativa ágil e inteligente. Essa  produção confirma a boa safra de filmes recentes do país nórdico insular europeu, a exemplo de “Desajustados” de Dagur Kári, “Ovelha Negra” de Grímur Hákonarson e “Pardais” de Rúnar Rúnarsson (todos esses títulos foram exibidos na 39ª Mostra de Cinema de São Paulo).

No filme de Erlingsson, indicado pela Islândia a concorrer a uma vaga no Oscar 2019, na categoria Filme Estrangeiro, Halla (Jalldóra Geirharosdottir) é uma mulher na casa dos 50 anos, solteira, professora de canto e ambientalista. Contrária ao funcionamento de uma usina de alumínio no seu país, Halla age como um lobo solitário, usando métodos de sabotagem, no intuito de barrar o funcionamento da usina, uma parceria entre o governo chinês e de seu país.

Contando com alguns aliados para fugir da polícia, a exemplo de um ministro do governo, um “provável” primo distante (Jóhann Sigurdarson) e a irmã gêmea, Ása,  a ativista ambiental depara-se com uma questão bem peculiar: depois de quatro anos na fila para adotar uma criança estrangeira, eis que surge a oportunidade de tornar-se mãe de uma órfã bielorrussa. Halla estaria preparada para assumir o papel de mãe na atual conjuntura?

Com humor sutil de cunho crítico social -vide as aparições do turista e ciclista hispânico-, “Uma Mulher em Guerra” é uma grata surpresa, onde o realismo funde-se com o surrealismo, na medida certa- as aparições do trio musical e do coral russo, construindo a trilha musical, diegeticamente, são a melhor prova disso. Também tem como trunfo, a ótima atriz Jalldóra Geirharosdottir que interpreta de forma competente as irmãs gêmeas e as cenas de ação que são bem dirigidas e convencem pela verossimilhança. 

Um ótimo exemplar de filme de militância e feminismo sem ser pedante e apelativo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

"Selvagem": sexo, drogas e amor


Félix Maritaud vive um garoto de programa em "Selvagem" 


"Selvagem" foi o único filme francês que assisti nessa 42a edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O longa chamou-me a atenção por duas razões: tem como personagem principal, um garoto de programa que foge dos padrões habituais e por ter como protagonista, o ótimo ator Félix Maritaud, que marcou presença no premiado "120 Batimentos Por Minuto" de Robin Campillo.

Há quem tenha saído no meio da sessão de "Selvagem", talvez, incomodado com a crueza que a vida de Léo é representada, mas confesso que não foi a degradação do personagem que me incomodou, senão sua ingenuidade. Léo é um jovem de 22 anos que ganha a vida de prostituindo. Apesar de bonito, seu aspecto sujo e mal cuidado denota a vida miserável que leva, regada a drogas, alimentação  precária e privação de sono. 

Diferentemente dos michês que dividem a zona com ele, que geralmente exploram os clientes, Léo, carente na sua essência, doa-se completamente aos homens com quem transa. Amor mesmo, ele nutre pelo amigo e também michê, Ahd (Eric Bernard), mas este deseja um futuro sólido, uma vida bem estabelecida. Quando Ahd  reata o relacionamento com um homem bem mais velho e despreza o amigo, Léo entra em parafuso e toma decisões contraditórias.

Ao mesmo tempo que tenta deixar as drogas, procurando atendimento especializado, num nítido aflorar do instinto de sobrevivência (Eros), Léo entrega-se a clientes sádicos, que debilitam-lhe o corpo e, porque não dizer, a alma também (Tânatos). A vida dá-lhe uma chance rara de mudança, mas a essência do rapaz parece mirar na corda bamba da vida "selvagem" e libertária.

Em "Selvagem", o diretor Camille Vidal-Naquet traça  um retrato interessante do mundo do bas-fond, tendo como foco, a trajetória desse protagonista pouco provável na vida real (mas não impossível). Félix Maritaud está à vontade no papel e as cenas de sexo (ainda que contidas, para o universo em que estão inseridas) passam veracidade. Essas são filmadas mais de perto, com intensidade, assim como as duas sequências de dança, enquanto os planos mais abertos, voyeurísticos são explorados quando Léo está à caça de clientes.

É um filme que, a princípio, pode atrair apenas o público masculino e gay, mas vale a pena se despir de preconceitos e dar uma chance a esse longa de estreia de Camille Vidal-Naquet. Nu e cru!!

sábado, 27 de outubro de 2018

"Ava" e o Sonho de Liberdade

Ava (Jabbari) e o pai (Aghapoor): aliança ameaçada pela mãe

À Luta, Mulheres !! É só o que faltou Ava gritar, no plano final do filme homônimo.  A adolescente Ava (Mahour Jabbari) vive sufocada pela super-proteção da mãe (Bahar Noohian) e pela rigidez disciplinar do colégio onde estuda. Seus momentos "de respiro" são as aulas de violino- incentivadas pelo pai (Vahid Aghapoor)- e os encontros com a amiga Melody (Shayesteh Sajadi). 

Ava quer ser musicista, mas a mãe, médica, quer um futuro mais promissor para a filha. Apesar de receber o apoio do pai, este pouco está em casa, sendo cobrado pela esposa, a ter uma maior participação na educação da filha. Os conflitos vão se intensificando na família, quando Ava dribla a vigilância da mãe e é levada por ela à ginecologista, para atestar sua virgindade. 

Humilhada com a situação, a rebeldia da garota toma proporções inimagináveis e a cada nova decisão, sua liberdade vai sendo mais cerceada. Porém, a descoberta de segredo familiar, fará com que Ava encontre o caminho da libertação, ainda que de forma traumática, contra o sistema opressor iraniano.

O filme da diretora iraniana Sadaf Foroughi (residente no Canadá) em muitos aspectos se assemelha à produção saudita "O Sonho de Wadja" de Haifaa Al Mansour. Ambas as adolescentes gostam de música, usam tênis all star e estudam em instituições rígidas, dirigidas por figuras ditatoriais. Mas a produção iraniana utiliza um outro viés para criticar o patriarcado, a condição da mulher em países de religião islâmica e o falso moralismo nas relações familiares. 

A jornada de Ava é muito mais dramática e asfixiante do que a de Wadja. Talvez, por conta de ser um pouco mais velha que a protagonista do filme saudita, Ava mantém uma relação com a mãe mais competitiva e tempestuosa. Aqui, também não há espaço para o humor. Auxiliam para essa sensação, a estilosa fotografia de Sina Kermanizadeh (com uma paleta de cores bem contrastada) e a impecável direção de arte de Siamak Karinejad que transformam a casa de Ava numa espécie de bunker em contraste com a residência da professora de música.

Mesmo debutando na direção de filmes de longa-metragem, Sadaf Foroughi faz jus à tradição dos filmes iranianos com mulheres protagonistas: contundentes, necessários e marcantes. Ave "Ava"!! 

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

"A Rota Selvagem": Dura Batalha do Amadurecimento



Charlie Plummer assume o protagonismo de "A Rota Selvagem"



Abandonado ainda pequeno pela mãe, Charley Thompson (Charlie Plummer) é um garoto de 15 anos que mora com o pai solteiro, Ray (Travis Fimmel), em Portland, e sonha em reencontrar a tia, que não vê há tempos. Submetido a constantes mudanças de endereço, por conta da instabilidade do pai, Charley resolve mudar esse cenário e começa a trabalhar como tratador de cavalos.

Quem o emprega é Del (Steve Buscemi), o proprietário de alguns animais, que só correm pequenas distâncias e são exigidos pelo dono, na tentativa de multiplicar os prêmios em dinheiro. Um desses cavalos é Lean on Pete, um "quarto de milha" de cinco anos, por quem Charley se afeiçoa. A vida do garoto parece, agora, entrar nos eixos, mas uma série de acontecimentos fará com que ele inicie uma jornada solitária, para alcançar seu objetivo, onde o amadurecimento será inevitável.

Você já deve ter visto filmes com resumos parecidos, antes, mas "A Rota Selvagem" diferencia-se pela forma com que o diretor e roteirista Andrew Haigh conduz a narrativa. Acostumado a trabalhar com dramas intimistas, a exemplo de "Weekend" (2011), "45 Anos" (2015), Haigh não descarta seu trunfo, delineando com a delicadeza de sempre, os momentos de total desamparo dos protagonistas de suas tramas bem urdidas. 

Agora, porém, ele deixa o ambiente claustrofóbico das residências (utilizado nos filmes anteriores) e desloca o espaço de ação do personagem adolescente (também muda a faixa etária) para regiões desérticas dos Estados Unidos. Contudo, o menino franzino, em sua pequenez, diante  das paisagens gigantescas e desoladoras, não se entrega. Desamparado num momento, altivo, no seguinte, é assim que Charley mostra--se empenhado em chegar ao seu destino. 

Há que se destacar as performances de Charlie Plummer (iluminado) e Steve Buscemi, bem como a fotografia exuberante de Magnus Nordenhof Jonck e a direção de Andrew Haigh ao conduzir essa corajosa batalha do amadurecimento. 

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Shin Dong-seok Acerta na Estreia Enquanto Ki-duk se Perde no Espaço

Em "A Última Criança", casal tenta lidar com a perda do filho


Coincidentemente, ontem, assisti a dois filmes sul-coreanos: "Humano, Espaço, Tempo, Humano" de Kim Ki-duk e "A Última Criança" de Shin Dong-seok. Quem me conhece, sabe o quanto admiro o cinema de Ki-duk e ainda que reconheça a intermitência com que ele acerta nas suas escolhas, quando a Mostra de Cinema de São Paulo lança um novo título, coloco na minha lista, sem pestanejar.

Foi assim com "Humano, Espaço, Tempo, Humano", em que ele escolhe um microcosmos- um navio de passageiros de perfis diversos que, inexplicavelmente, começa a flutuar sobre as nuvens- para projetar o futuro (presente?) da humanidade, a partir de uma situação limite, movido pelo poder, corrupção, ódio, mas também com espaço para a prática da solidariedade e exercício da ética. No centro da trama, encontram-se um casal em lua-de-mel, um senador e seu filho, algumas prostitutas, os tripulantes do navio e um grupo de bandidos, além de um senhor misterioso, que pratica ações, aparentemente, sem sentido, mas que vão ser cruciais, no desenvolvimento da trama.

A premissa de testar os limites da natureza humana num grupo tão heterogêneo e num espaço de confinamento, fazendo-nos acompanhar as reações de cada um, à medida que vão sendo cada vez mais oprimidos, é interessante (e já vimos isso dando certo em outros títulos), o problema é que Ki-duk  conduz sua fábula de uma maneira tão primária (as interpretações são péssimas), desinteressante (a narrativa gira em círculos) e sem o menor cuidado estético (inclusive!), que não tem como embarcar nessa viagem. Um filme equivocado, cheio de pretensões e vazio de sentido. Totalmente perdido no tempo e espaço!! 

Graças a Shi Dong-seok, com seu "A Última Criança" voltei a sorrir e respirei aliviada, no resto da tarde. O filme funciona por três razões básicas: um roteiro bem estruturado, o elenco afiado e a direção precisa de Dong-seok. No cerne da questão, o casal Sungcheol (Choi Moo-seong) e Misook (Kim Yeo-jin) tenta lidar com a perda do filho, Euchan, que morreu afogado há seis meses, após  salvar a vida do jovem Kihyun (Seong Yu-bin).

Ao mesmo tempo, alvo de perseguição por alguns colegas, Kihyun deixa de frequentar a escola, começa a trabalhar  numa casa de fast food e após um problema com o patrão, pede ajuda a Sungcheol, proprietário de uma loja de decoração. O homem não hesita em ensinar ao garoto seu ofício de colocar papel de parede e o incentiva a se profissionalizar. Não tarda, Misook se aproxima de Kihyun e, ambos, afeiçoam-se por ele, numa tentativa de preenchimento do vazio afetivo. 

Mas nem tudo é o que parece. Ao mesmo tempo em que Euchan é homenageado como herói na pequena cidade que vivia e os pais doam a vultosa indenização para a escola em que o filho estudava, uma nova versão do fato surge, confrontando com a "verdade". No mesmo instante em que  os pais de Euchan se desestabilizam com a novidade, a plateia se estremece na poltrona. Se num primeiro momento, o efeito de identificação com a nova família que está por se formar, dá-se pela sutileza dos gestos, olhares e sentimentos contidos dos personagens (mérito dos atores), no momento seguinte, há uma dilaceração desses arranjos afetuosos, fazendo com que a reação de Sungcheol e Misook, de início díspare, convirja para uma mesma solução.

A favor de "A Última Criança", o tempo, milimetricamente, ajustado das ações; a astúcia com que Dong-seok elaborou o roteiro; o domínio cênico dos atores Moo-seong, Yeo-jin e Yu-bin. Contra, o tempo que esperamos pelo clímax. 

"3 Dias Em Quiberon": Romy Schneider por Ela Mesma

Marie Baümer vive Romy Schneider em "3 Dias em Quiberon"

Filmes com o intuito de homenagear uma personalidade artística tendem a esconder seus defeitos, suas fragilidades e apenas enaltecer suas virtudes. Geralmente, são produções no formato documental, que sustentam a figura mítica do indivíduo, criada pela mídia. "3 Dias Em Quiberon"  da diretora alemã Emily Atef não deixa de prestar uma homenagem à atriz Romy Schneider (1938-1982), somente que pelo viés oposto.

Esta ficção faz um recorte da vida de Romy Schneider, justamente, da época em que estava hospedada num centro de desintoxicação, na comuna de Quiberon, região da Bretanha (França). Era o ano de 1981 e a atriz austríaca, recém-divorciada do segundo marido Daniel Biasini e ainda abalada com o suicídio do primeiro companheiro, Harry Meyen, dois anos antes,  lutava contra a dependência do álcool e de medicamentos, a fim de poder criar os filhos David Christopher e Sarah Magdalena Biasini, então com 13 e 4 anos de idade. 

A batalha não é fácil e a amiga Hilde (Birgit Minichmayr) sabendo disso, decide ir ao encontro de Romy (Marie Bäumer) em Quiberon, para lhe dar apoio. Quando a paz começa a tomar conta do coração da atriz, chega a dupla de jornalistas Michael Jürgs (Robert Gwisdek) e Robert Lebeck (Charly Hübner), esse último, antigo amante de Schneider. Eles pretendem, durante três dias, entrevistar e realizar uma série de fotos de Romy Schneider, a fim de publicar uma matéria na revista semanal alemã Stern.

Mesmo atravessando um período difícil, Romy não se furta de falar o que pensa, desnudando-se por completo, ao revelar suas fragilidades, as dificuldades em lidar com a fama (sobretudo pelo fato das pessoas confundirem a personagem Sissi com  a mulher Romy Schneider) e ser mãe ao mesmo tempo. A partir daí, o jogo que se estabelece entre os quatro personagens é muito interessante. Se a princípio, Hilde vê com desconfiança as intenções por trás do trabalho de Jürgs, por outro lado, Romy acredita que nada vai sair errado, por conta do amigo Lebeck.

À medida que a entrevista vai fluindo, Hilde tenta proteger a amiga de uma possível armadilha, porém movida pela bebida, Romy deixa-se levar pela emoção e revela-se como nunca, fazendo com que o próprio Michael Jürgs, a partir dessa entrega da atriz, repense sobre o uso do conteúdo jornalístico adquirido em Quiberon. Afinal de contas, o que Schneider almeja é sua liberdade. A possibilidade de ser "ela mesma" e a dupla da Stern respeitará sua escolha.

Ainda que Sarah Magdalena não tenha aprovado a maneira como a mãe foi retratada em "3 Dias Em Quiberon", o filme tem muitos méritos. O elenco é coeso, mas quem rouba a cena é Marie Baümer, que a despeito da enorme semelhança física com Schneider, é uma atriz de excelência;  a fotografia em preto e branco é deslumbrante e reproduz, fielmente, a atmosfera melancólica do lugar e o estado de espírito de Romy, captada na época, pelas lentes de Robert Lebeck (o ensaio contou com cerca de 600 fotos); a diretora demonstra mais uma vez, total domínio de dramaturgia, além de dirigir atrizes cujas personagens sempre estão em situação bastante conflitante (a exemplo de "O Estranho em Mim" (2008) e "Kill Me" (2012)).

No filme de Atef, a "eterna" Sissi mostra-se desprovida de máscaras, por vezes, eufórica, outras, melancólica, mais humana do que mítica. A mulher que, quase um ano depois, morreria precocemente, aos 43 anos.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

"Ága" e "Culpa" fazem a Diferença no 4o Dia da Mostra de Cinema de SP


Asger (Jakob Cedergren) tenta manter a calma em "Culpa"


Ontem, foi o dia mais produtivo, até o momento, da 42a Mostra de Cinema de SP. Dos quatro filmes vistos- "O Intérprete", "Procurando Por Ingmar Bergman" (dedicarei outra postagem a esse filme), "Ága" e "Culpa"- só me frustrei com o primeiro. Penso que o diretor eslovaco Martin Sulík ficou no meio do caminho, entre o drama e a comédia e descambou para quase um melodrama ineficiente. O encontro de um judeu, que teve seus pais mortos num campo de concentração e o filho do oficial que os matou, poderia render um bom roteiro, mas as situações são, por vezes, mal construídas, outras, forçadas e não há como o espectador acreditar em tudo que a história teima em  querer demonstrar.   

Não é o caso de "Ága" do búlgaro Milko Lazarov. A premissa é simples: um casal de esquimós- Nanook (Mikhail Aprosimov) e Sedna (Feodosia Ivanova)- vive isolado na terra gélida do extremo norte do Globo Terrestre e, agora, passa por dificuldades, devido à idade avançada, a escassez de alimentos, a morte inexplicável de alguns animais e o aquecimento global.

Enquanto acompanhamos o cotidiano do casal, na sua rotina diária de sobrevivência, descobrimos o que, de fato, mais os incomoda: a filha Ága os abandonou e foi para o centro urbano, estudar e trabalhar. Essa atitude de rompimento com a tradição de seu povo, fez com que Nanook a ignorasse, desde então. Porém, vários acontecimentos levam-no a repensar sua atitude até seguir ao encontro com a filha.

Muito mais do que a exuberância da brancura do Ártico, captada pelas lentes do fotógrafo Kaloyan Bozhilov, o filme nos envolve pela naturalidade com que aborda temáticas como a ruptura dos jovens com a tradição dos antepassados; a relação do homem com seu habitat, do qual sobrevive; os impactos ao meio ambiente causados pela sociedade capitalista. Como se não bastasse, há uma entrega total dos atores, contribuindo para a total imersão na história por parte do espectador. 

Imersão parece ser a palavra-chave de "Culpa", filme escolhido pela Dinamarca para brigar por uma vaga na categoria de Filme Estrangeiro no Oscar de 2019. O thriller ambientado na central de atendimento da polícia militar de Copenhague, acompanha as últimas horas de um turno de plantão do policial Asger Holm  (Jakob Cedergren). Num dado momento, ele atende a ligação de uma mulher Iben (voz de Jessica Dinnage) que parece estar sendo sequestrada pelo ex-marido, Johan Olsen (voz de Michael).

A partir daí, Asger trava uma batalha contra o tempo para salvar a mulher e proteger os filhos dela, que estão sozinhos em casa. Porém, o genial da narrativa é que a tentativa de controlar a situação é toda feita através de ligações telefônicas, já que Asger Holm está afastado das ruas, depois de ter matado um jovem inocente. Aliás, ele deverá conduzir a situação com autocontrole, já que, no dia seguinte, passará por um julgamento, a fim de ser liberado para o trabalho externo novamente.

Não é comum vermos no cinema, preocupação com temas como o stress sofrido por policiais na ativa. O filme de Möller é certeiro nessa abordagem, fazendo-nos refletir sobre as condições de trabalho desses profissionais; o quanto eles são desassistidos por psicólogos ou psiquiatras; e como estamos protegidos com policiais nas circunstâncias em que se encontra Asger.

Seguindo a tradição de filmes de suspense dinamarqueses de excelência, a exemplo de "Sequestro" (2015) de Tobias Lindholm, "Culpa" faz jus a toda expectativa que se formou em torno dele nessa Mostra. O diretor Gustav Möller demonstra total habilidade em conduzir a tensão cênica, a partir do uso inteligente de closes no rosto do ator Jakob Cedergren (excelente!) captando a cada avanço ou recuo na operação de resgate, o medo, a frustração, a ira e o desespero e, também, na forma como utiliza (ou não) o som, elemento primordial na concepção dessa película.

"Culpa" é uma verdadeira aula de cinema na sua essência: roteiro bem construído,  direção precisa, interpretações convincentes. É o que "Por Um Fio" do Joel Schumacher almejou e não conseguiu alcançar. 

domingo, 21 de outubro de 2018

"Em Chamas": Destaque do Terceiro Dia de Mostra de Cinema de SP

Jong-Soo (Yoo Ah-In)  consumido pela dúvida no filme "Em Chamas"

Fazer o cronograma de atividades de uma mostra de cinema desse tamanho, como é a de São Paulo, é atirar no escuro. Filmes obscuros que a gente simpatiza com o trailer e a sinopse, levam-nos a incluí-los na "lista de desejos", com a certeza de acertar na escolha. Mas a frustração também tem seu lugar.

Das escolhas de ontem- "Em Chamas", "Shade- Entre Bruxas e Heróis", "O Homem Que Roubou Bansky" e "A História da Pedra"- salvaram-se o primeiro e o terceiro (o filme sobre a arte de Banksy deixarei para comentar em outra postagem). Dessa vez, minhas atenções estarão voltadas para a produção sul-coreana "Em Chamas". Por sinal, é a volta em grande estilo de Lee Chang-dong que presenteou o mundo cinematográfico há oito anos, com o belo "Poesia". 

Dessa vez, o protagonista é o jovem Jong-soo (Yoo Ah-In), um entregador de classe baixa, aspirante a escritor, que mora sozinho no centro urbano, enquanto seu pai, um pequeno proprietário rural, vai a julgamento por ter agredido um funcionário público. Da mãe, ele não tem notícias há um bom tempo. Sua rotina é interrompida, quando se reencontra com uma amiga de infância, Hae-mi (Jeon Jong-Seo). Eles saem, conversam, transam e...Hae-mi o incumbe de cuidar do gato, Fervura, enquanto ela vai passar uns dias na África.

Jong-soo está apaixonado, mas Hae-mi não o corresponde. Ela volta a Seul, acompanhado de um playboy, Ben (Steven Yeun) e, a partir daí, o filme parece enveredar pelo típico conflito de um triângulo amoroso, envolvendo disputas e ciúmes, entre as partes. Porém, em se tratando de uma história baseada num conto de Haruki Murakami- "Queimar Celeiros"-  somos encaminhados para um outro lugar, ainda incerto. 

Inexplicavelmente, os três saem juntos, sem nenhuma das partes fazer objeção. Jong-soo não quer ficar longe de sua amada; Hae-mi, apesar de não amar seu amigo, parece se sentir protegida por ele e Ben aparenta querer se divertir com a situação. Numa fortuita reunião, no sítio do pai de Jong-Soo, o ricaço misterioso revela seu hobby inusitado. Para completar, Hae-mi some sem deixar rastro. É o start para que Jong-Soo passe de uma atitude passiva para a ativa, tal qual de um detetive. 

Cabe a Lee Chang-dong, como de hábito, conduzir com maestria a jornada solitária dos personagens principais de suas narrativas bem urdidas. Aqui, ele dosa com inteligência a tensão que se instala na trama, por conta do contraponto que faz entre Soo (frágil, ingênuo, passivo) e Ben (misterioso, cínico, ardiloso). Tudo, milimetricamente, exposto, sem pressa, com suavidade, até alcançar o estado de êxtase no seu desfecho.

É Chang-dong atestando seu retorno triunfal!!

sábado, 20 de outubro de 2018

42a Mostra Internacional de Cinema de SP- SEGUNDO DIA


Matt Dillon de volta à telona vivendo Jack, um serial killer

O dia foi agitado. Cinco filmes, sendo o primeiro deles, o mais novo trabalho de Lars Von Trier. O que dizer de "A Casa Que Jack Construiu?" Provavelmente, o filme em que o diretor dinamarquês destila o seu cinismo de forma mais contundente, chegando a criticar a inoperância do Estado e a conivência da sociedade, a partir do modus operandi do engenheiro e serial killer, Jack, interpretado pelo inexpressivo Matt Dillon (com a mesma cara talhada de "Drugstore Cowboy" (1989), só que mais enrugada).

Durante 12 anos, Jack matou algumas dezenas de pessoas, sem deixar vestígio algum. Enquanto ele conta suas peripécias sanguinárias para o misterioso Virgílio (Bruno Ganz), vamos nos familiarizando com suas obsessões, pulsões, habilidades e fraquezas. Em cada um dos cinco capítulos (nomeados de "incidentes") em que a história é dividida, vemos Jack abordar suas vítimas de forma cada vez mais ousada, testando os limites de sua sorte, na intenção de não ser descoberto pelas autoridades policiais. 

Enquanto vai descrevendo suas perversões, Jack não deixa de delinear sua personalidade macabra (revelando experiências vividas na infância) e seu gosto pela arte (discute com Virgílio sobre arquitetura, pintura e música como poucos). Querendo ser um virtuose na "arte de matar", Jack vai aprimorando sua técnica. Seus requintes de crueldade vão se intensificando, mas em compensação, sua mente, cada vez mais doentia, deixa brechas para a atuação da polícia e uma possível captura.

Nesse ponto, a trama já adentrou no epílogo e saberemos qual o destino do labirinto escuro que Jack e Virgílio estão percorrendo. A partir daqui, Lars Von Trier patina em terreno escorregadio, equilibrando-se, vez por outra (a exemplo de quando mostra a criação dos mitos pela sociedade) e caindo de queixo no chão (quando faz autorreferência). 

Esperava filme mais indigesto (baseando-se na repercussão que o filme teve em Cannes), mas Von Trier opta em criar situações de carnificina tão patéticas, que não consegui levá-lo a sério. A exceção fica por conta do terceiro Incidente. Destoa do resto do filme, aproximando-se da realidade, mas sendo, desnecessariamente, apelativa. Von Trier só consegue nos impactar usando golpe baixo. Uma pena!!

Ainda que em "A Casa Que Jack Construiu" Lars Von Trier esteja longe de sua genialidade dos tempos de "Ondas do Destino", "Dançando no Escuro" e "O Anti-Cristo", se você tiver um tempo na agenda, não deixe de conferi-lo. Ele será exibido em cinco ocasiões diferentes até o encerramento do evento.

Sobre os outros quatro títulos conferidos ao longo do dia- "Querido Ex", A Balsa", "O Alfabeto Greenway" e "A Guerra de Anna", tecerei comentários (por enquanto) sobre o segundo. Surpreendi-me com o documentário e primeiro longa , "A Balsa", do diretor sueco Marcus Lindeen. Não conhecia o experimento feito pelo antropólogo mexicano Santiago Genovés, que após passar pelo trauma de um sequestro num avião, em 1972, decide executar um experimento, num grupo de 10 pessoas (cinco homens e cinco mulheres) para testar a partir de situações de stress, questões como violência, sexo e comportamento em grupo.

Para isso, Santiago mandou construir uma balsa, sem motor e com dimensões suficientes para abrigar 11 passageiros ( ele, incluso), a fim de realizar uma viagem de três meses, saindo do Porto de Las Palmas (Espanha) até o México. Colocou um anúncio no jornal e selecionou os voluntários, que incluía um fotógrafo japonês (Elsuki Yamaki), uma capitã sueca (Maria Bjornstan), uma médica israelense (Edna Jonas), um padre angolano (Bernardo Bongo), um antropólogo uruguaio (José María Pérez), entre outros. 

Nem tudo saiu como Santiago planejou. Ele ficou doente durante a viagem e o resultado do experimento contrariou suas expectativas. Para transformar essa história em produto audiovisual, o diretor sueco Lindeen valeu-se do diário de Santiago Genovés transformado no livro "Acali", além do amplo registro imagético, produzido pelo fotógrafo japonês, como base para a narrativa. Aliado a isso, reuniu sete dos 11 sobreviventes, numa réplica da balsa construída em estúdio e os entrevistou.

Recentemente, o documentário brasileiro "Torre das Donzelas" de Susanna Lira reconstruiu em estúdio, parte do interior da prisão, em que militantes políticas foram encarceradas, durante a Ditadura Militar brasileira. A experiência trouxe à tona, lembranças adormecidas. Efeito similar aconteceu com os passageiros de "A Balsa".  O interessante é que, tanto em um filme, quanto no outro, apesar da disparidade existente entre os motivos que levaram esses personagens ao confinamento, o resultado foi similar: solidariedade, harmonia, paz.

"A Balsa" ainda será exibido mais três veze (hoje, dia 22 e dia 27/10), dentro da programação da 42a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.


Crédito da Foto: Christian Geisnaes

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

42a Mostra Internacional de Cinema de SP- PRIMEIRO DIA

Rachel Weisz e Olivia Colman se destacam em "A Favorita"

"Rir ou Morrer": destaque do cinema finlandês


No primeiro dia de maratona de filmes na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, assisti a quatro produções: "A Favorita" do grego Yorgos Lanthimos, "A Imagem Que Você Perdeu" do irlandês Donal Foreman, "Sofia" da marroquina Meryem Benm Barek e "Rir ou Morrer" do finlandês Heikki Kujanpää. Saldo mediano, tendo em vista que o primeiro e o último filmes foram bons, enquanto o segundo e o terceiro, medianos. 

O drama épico, com pitadas de humor, "A Favorita" talvez seja o filme de Lanthimos mais acessível, aquele com um tratamento mais tradicional na feitura da trama. Ambientado na Inglaterra do início do século XVIII, a produção explora a tão comum disputa de poder entre os nobres de uma realeza e o envolvimento entre a Rainha Anne (Olivia Colman), sua amante Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) e  a serviçal e ex-lady Abigail Marsham (Emma Stone).

O roteiro assinado por Deborah Davis e Tony McNamara, no entanto, usa a política como pano de fundo, concentrando-se nas relações interpessoais, sobretudo, entre as personagens femininas (a trinca de atrizes receberá um prêmio especial no Gotham Awards, dia 26 de novembro), onde Sarah e Abigail disputam a preferência de Anne- uma mulher doente e inapta para comandar um reino- na esperança de ascenderem politicamente ou socialmente.

Ainda que o elenco conte com coadjuvantes competentes como Nicholas Hoult (Robert Harley) e Mark Gattis (John Churchill), quem brilha mesmo são Emma Stone (mostrando maturidade a cada novo papel), Rachel Weisz (que dispensa elogios) e Olivia Colman (que demonstra aqui, o que podemos esperar de sua performance como a Rainha Elizabeth II, na terceira temporada de "The Crown").

Há de se destacar  a direção de arte caprichosa de Fiona Crombie e a direção de fotografia de Robbie Ryan. Este último, explora bem a luz natural tanto nos espaços ao ar livre, como nos cômodos do palácio (a locação utilizada foi a Hatfield House, em Hertforshire, na Inglaterra), não se descuidando de compor belos contrastes entre luz e sombra, nas cenas noturnas. Talvez, o senão do trabalho de Ryan, tenha sido o uso quase que contínuo de lentes grande-angulares (distorcendo os ambientes, principalmente, nas laterais da tela) e o excesso de planos  em contra-plongée. 

De qualquer modo, "A Favorita", é um filme correto no conteúdo, exuberante na forma e que já nasce com grandes chances de  arrebatar estatuetas douradas na festa de entrega do Oscar 2019. É aguardar para ver!!

Já "Rir ou Morrer" de Heikki Kujanpää é uma comédia dramática, baseada em fatos reais, onde num campo de detenção em uma ilha finlandesa, por volta de 1918, após a Guerra Civil naquele país, um grupo de atores, acusados de serem "rebeldes vermelhos", aguardam a hora da execução. Juntam-se a eles, Parikka (Martti Suosalo), conhecido como o ator mais engraçado do país, cujo humor aborrece o sisudo comandante do campo, Hjalmar Kalm (Jani Volanen). Na hora da execução, Toivo Parikka faz gracinhas para os soldados, antes desses receberem a ordem final do jovem Nyborg (Paavo Kinnunen).

Diante da hesitação de seu subalterno, Kalm decide lançar um desafio para Parikka: se o ator e seus companheiros montarem uma peça divertida para seus convidados alemães, eles não serão executados. A partir daí, acompanharemos o processo de ensaios da trupe, tendo como aliada a esposa de Kalm, Helen (Leena Pöysti), que vai se afeiçoando por Parikka. Mas nem tudo são flores nessa caminhada.

É interessante como o humor e o drama são dosados na medida certa, ao longo da narrativa, sem deixar pistas de como será o desfecho. Ainda que algumas interpretações beirem o caricato, no geral, o elenco está afiado e Leena Pöysti se destaca, compondo uma Helen altiva e generosa, ainda que em meio à rigidez militar que domina o ambiente em que convive.

Um título para se colocar na lista dos recomendados da 42a Mostra, sobretudo por conta dos tempos atuais, onde as pessoas esquecem do sentido da palavra solidariedade e da importância da arte como ferramenta de transformação do ser humano.

Quanto aos outros dois filmes, de diretores estreantes, confesso que não fui com muita expectativa para ver  "A Imagem Que Você Perdeu" de Donal Foreman. Irlandês, de 33 anos, Foreman começou a realizar filmes caseiros com 11 anos de idade e contabiliza dois longas e cerca de 50 curtas no currículo. Filho do documentarista e escritor norte-americano Arthur MacCaig- que cobriu uma boa parte dos conflitos entre as duas Irlandas-, ele resolve realizar um documentário mosaico, mesclando imagens de três décadas (anos de 1970, 1980 e 1990), onde sua história de vida, tumultuada pela ausência da figura paterna na infância, se confunde com as transformações políticas e sociais sofridas pelo próprio país natal. Apesar de curta duração (73 minutos), por vezes, o filme torna-se modorrento, devido à narrativa em off e a montagem pouco eficaz.

Quanto ao filme "Sofia", criei uma certa expectativa, por conta do prêmio de Melhor Roteiro na seção "Un Certain Regard" em Cannes. Estreia da diretora marroquina Meryem Benm Barek, o filme aborda o tema da criminalização do sexo extraconjugal, no seu país. A personagem título, vivida por Maha Alemi, está prestes a dar à luz, mas seus país não têm ideia dessa realidade.

Quem a ajuda é sua prima médica Lena (Sarah Perles), conseguindo com que ela receba atendimento médico num hospital, por pelo menos, 24 horas. Antes que as autoridades cheguem, exigindo os documentos do genitor, as duas têm que fugir, indo atrás de Omar (Hamza Khafif), suposto pai da criança.

A partir daí, começarão as tentativas de arranjo da situação, para que o casal não seja preso. Basta que Omar aceite casar-se com Sofia, mas a questão não é tão simples, assim. Com algum as reviravoltas, a narrativa vai desvelando a verdadeira personalidade de Sofia: nem pura, nem profana. O problema, talvez, seja a incapacidade de Maha Alemi de alcançar a densidade que a personagem principal exige.

Apesar de protagonista, sua personagem perde terreno para os conflitos estabelecidos entre Lena e sua mãe, Leila (Lubna Azabal). Outro problema, talvez tenha sido a escolha da diretora em expor os problemas sociais que atingem, principalmente, as mulheres no Marrocos, sem esmiuçar a engrenagem que alimenta esse sistema opressor. A experiência de assisti-lo, terminou sendo frustrante.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Filmes Imperdíveis e Seus Diretores Maravilhosos (ou não!?)

Jacob Cedergren é o protagonista de "Culpa" de Gustav Möller


"3 Dias em Quiberon": embate entre Romy Schneider e a Mídia 


"Ága": tradição e resistência no gelo

"A Árvore dos Frutos Selvagens" novo filme de Nuri Bilge Ceylan 



Durante 10 dias, pretendo assistir a 40 filmes dentro da 42a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Pelo menos, foi o que programei para minha lista de "desejos", ainda que intercorrências possam acontecer, e um ou outro filme tenha sua exibição retirada do evento.

Dentre os títulos, acredito que alguns sejam bastante procurados pelos cinéfilos como "A Favorita" do grego Yorgos Lanthimos, filme vencedor do Grande Prêmio do Júri e da Colpa Volpi de Melhor Atriz para Olivia Colman, no último Festival de Veneza. O filme épico, cuja história se passa na Inglaterra,  no início do século XVIII, conta com um elenco feminino estelar, incluindo além de Colman (ela será a nova Rainha Elizabeth II na nova temporada da série "The Crown"), Emma Stone e Rachel Weisz.

Não menos requisitados serão os ingressos para as cinco sessões do novo filme de Lars Von Trier, "A Casa que Jack Construiu". Quem já viu o filme, de 155 minutos de duração, com Matt Dillon e Bruno Ganz, diz que o diretor dinamarquês não economizou nas cenas violentas. Para os fãs de Lars Von Trier, essa edição da Mostra ainda contará com exibições de três de seus antigos filmes, em cópias restauradas: "Elemento de Um Crime" (1984), "Europa" (1991) e "Ondas do Destino" (1996). 
Para quem nunca os assistiu na telona, é uma ótima oportunidade!!

Outro filme que merece ser conferido é "Em Chamas" do sul-coreano Lee Chang-Dong.  Baseado no conto "Queimar Celeiros" do escritor japonês Haruki Murakami, o longa foi laureado com o Prêmio da Crítica no Festival de Cannes. No centro da narrativa, três personagens: Haemi, Ben e Jongsu, que num dado momento, terão suas vidas severamente modificadas. Este filme é super aguardado, porque é o primeiro do diretor- um hiato de oito anos-, depois do sucesso internacional do tocante "Poesia" (2010).

Praticamente, nos últimos cinco anos de Mostra, teve novo filme do cineasta Hirokazu Koreeda (excepcionalmente, no ano passado, foi cancelada a exibição de "O Terceiro Assassinato"). Este ano, o vencedor da Palma de Ouro em Cannes, "Assunto de Família" poderá ser conferido em quatro ocasiões distintas. O diretor japonês aposta novamente numa história familiar, tendo personagens infantis como molas propulsoras, onde questões de ética e moral são colocadas em xeque. 

Igualmente, imperdível, é a nova produção do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan, "A Árvore dos Frutos Selvagens". Mesmo com três horas de duração, o filme deverá atrair a atenção dos amantes do cinema "classudo" de Ceylan, que não se descuida da escrita do roteiro e da escolha dos atores para viverem os personagens complexos de suas tramas., além de ter uma habilidade ímpar na direção. 

A cineasta Emily Atef fez bonito na sua estreia em longas-metragens, com o drama "O Estranho em Mim" (2008), que passou há exatos 10 anos, na 32a edição da Mostra. Este filme, inclusive, foi escolhido pelo Júri Oficial, como o melhor da Mostra de 2008. Quatro anos depois, foi exibido "Kill Me" (2011), um thriller de arrepiar, mostrando que Atef também levava jeito na direção de suspense. Este ano, ela marca presença na 42a  Mostra com "3 Dias de Quiberon", ficção que reconstitui os preparativos para a última entrevista concedida pela atriz Romy Schneider.

Há dois anos, vi um dos melhore filmes da 40a edição da Mostra, "A Rede", do sul-coreano Kim Ki-Duk. Agora, o diretor polêmico chega com nova película "Humano, Espaço, Tempo, Humano", de tom fabular, onde passageiros de diversos perfis -idosos, prostitutas, criminosos- navegam num barco sobre as nuvens. Idolatrado por uns, rechaçado por outros (devido às acusações de assédio) Ki-Duk possui uma filmografia instigante com títulos como "Primavera, Verão, Outono, Inverno e...Primavera" (2003), "Casa Vazia" (2004), "Fôlego" (2007), "Pietá" (2012), entre outros.

Também, não há como ficar indiferente aos novos trabalhos do chinês Jia Zhangke- "Amor Até as Cinzas"-onde ele aposta no tema da máfia, com disputa entre gangues rivais; e do francês Jean-Luc Godard- "Imagem e Palavra"-que desistiu da aposentadoria, prometida há quatro anos, por ocasião do lançamento de "Adeus à Linguagem" (2014).

No que diz respeito aos filmes indicados pelos seus respectivos países, para concorrer a uma vaga na categoria Filme Estrangeiro no Oscar 2019, destaco "Guerra Fria" (Polônia), "Uma Mulher em Guerra" (Islândia), "O Intérprete" (Eslovênia), "A Valsa de Waldheim" (Áustria), "Culpa" (Dinamarca), "Eu Não Me Importo se Entrarmos Para a História Como Bárbaros" (Romênia), "Túmulos Sem Nome" (Camboja), "Roma" (México) e "O Anjo" (Argentina).

Por mais que eu indique títulos de cineastas consagrados, é importante chamar a atenção para os trabalhos de Novos Diretores, que nessa edição, contabilizam 104 filmes e concorrem ao Troféu Bandeira Paulista. Estou apostando em "A Balsa" de Marcus Lindeen, "A História da Pedra" de Starr Wu, "Ága" de Milko Lazarov, "Carmen e Lola" de Arantxa Echevarría, "Querido Ex" de Mag Hsu e Chih-Yen Hsu e "Sofia" de Meryem Benm' Barek.

Tenho pouco mais de uma semana para descobrir se minhas escolhas foram acertadas ou não. Se o títulos que escolhi são, realmente, imperdíveis, independente de serem dirigidos por diretores tarimbados ou iniciantes. A sorte está lançada!!

domingo, 14 de outubro de 2018

Dicas para não perder o Melhor da 42a Mostra Internacional de Cinema de SP

Atenção! Se você, cinéfilo, está indo pela primeira vez à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é melhor ficar atento às dicas do Bangalô Cult, sobre como aproveitar ao máximo essa maratona cinematográfica anual, cuja 42a edição começa quinta-feira, dia 18, e prossegue até o dia 31 de outubro.

Filmes

A primeira dica diz respeito à programação (disponível aqui ). Ao todo serão exibidos 336 títulos, dos mais variados países, distribuídos em 22 salas (na capital e interior). É óbvio que não haverá tempo hábil para assistir a tudo em 15 dias, mas você pode compor seu rol de 40 a 50 títulos, com produções premiadas em festivais internacionais e badaladas pela crítica. A chance de se frustrar diminui, consideravelmente, seguindo esses critérios:

-Mire nos premiados (não só na categoria filme, mas ator, atriz, roteiro) do Festival de Berlim, Cannes, Veneza, Locarno, Toronto e Sundance. 

-Ainda sobre os filmes, leia as sinopses, assista aos trailers e pesquisar um pouco sobre os diretores. Muitas vezes, a produção é oriunda de países com pouca tradição audiovisual, mas trazem temáticas interessantes e propostas estéticas inovadoras. Com relação ao cineasta, se a princípio você não lembra do seu nome, a partir de uma checagem de sua filmografia, pode ser que ele já tenha lhe presenteado com obras marcantes. Vale a pena, então, encaixar seu filme na preciosa lista.

-Alguns dos diretores, que não abro mão de conferir os lançamentos de seus filmes, são: Hirokazu Koreeda, Nuri Bilge Ceylan, Jia Zhangke, Lars Von Trier, Jafar Panahi, Emily Atef, Yorgos Lathimos, Mia Hansen-Love, Margarethe Von Trotta, Kim Ki-Duk e Pablo Trapero. Fiquem de olho, suas novas produções constam na programação da 42a Mostra.

-Para finalizar esse tópico, lembrem-se dos filmes que foram escolhidos pelos seus respectivos países, para garantir uma vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, no Oscar 2019. Dos 19 títulos que serão exibidos nessa edição da Mostra, destaco o indicado da Dinamarca, "Culpa", o japonês "Um Assunto de Família" de Hirokazu Koreeda; o turco "A Árvore dos Frutos Selvagens" de Nuri Bilge Ceylan; o romeno "Eu Não Me Importo Se Entrarmos Para a História como Bárbaros" de Radu Jude; o mexicano "Roma" de Alfonso Cuarón e o islandês "Uma Mulher em Guerra" de Benedikt Erlingsson.

O ideal é montar uma planilha com datas, locais, títulos dos filmes e horários, para facilitar a compra de ingressos ou credencial e circulação pelas salas, bem como evitar o choque de horário das sessões.

Compra de Ingressos

Se você for comprar uma credencial (que dá direito a um número ilimitado ou limitado de ingressos), ao invés de ingressos avulsos, calcule o número de filmes que você assistirá, num determinado período de tempo e escolha um pacote de 20 filmes (R$ 220) ou 40 filmes (R$ 374). Há também a Permanente Integral (R$ 500), que dá direito a quantos filmes você conseguir assistir. Para mim, assistir a quatro filmes por dia é o ideal, ainda que eu veja cinco títulos de vez em quando. Mas cada pessoa tem que ver o seu limite (para que o cérebro não se desintegre rapidamente) e, a partir desse cálculo, escolher um ou outro pacote.

A vantagem dos pacotes é que você pode trocar os tickets pelos ingressos dos filmes escolhidos, até três dias de antecedência. Essa operação é feita na Central da Mostra localizada no Conjunto Nacional (Av. Paulista) ou no quiosque da Mostra localizado no Shopping Frei Caneca (próximo à bilheteria do cinema). Caso opte pelo ingresso avulso, o trabalho é maior. Você pode comprar, antecipadamente, pela internet (mas há um número limitado de ingressos vendidos na web e acréscimo de taxas) ou diretamente na bilheteria do cinema (tem que chegar pelo menos uma hora antes da bilheteria abrir, para não pegar filas gigantes e garantir os filmes daquele dia, naquela sala).

Escolha das Salas

Evite circular por cinemas diferentes num mesmo dia. Isso faz com que você se canse, andando quilômetros até alcançar o seu destino e corra o risco de chegar em cima da hora (pegando um péssimo lugar na plateia) ou atrasado (perdendo o início da projeção). A lógica seria assistir aos filmes de um mesmo dia, num único local. Por exemplo, na quinta, assistirei aos filmes no CineSesc, na sexta,  no Itaú da Augusta, no sábado, no Itaú Frei Caneca e, assim, por diante.

Priorize espaços como Itaú Frei Caneca (cinco salas disponíveis para a Mostra), Itaú Augusta (sala 1 e anexo 4) ou Cinearte Petrobras (sala 1 e 2), pois você terá uma maior opção de títulos num mesmo endereço. Haverá ocasiões em que o deslocamento de um cinema para outro será inevitável, no entanto, o segredo é escolher endereços próximos e deixar um intervalo de tempo razoável entre as sessões (mínimo de uma hora).

Os cinemas que se situam no quadrilátero Av. Paulista (Cinearte Petrobrás, Instituto Moreira Salles e Reserva Cultural), Rua Augusta (CineSesc, Itaú Augusta), Av. Consolação (Caixa Belas Artes) e Rua Frei Caneca (Itaú Frei Caneca), por conta da relativa proximidade entre eles, são os mais procurados pelos cinéfilos da Mostra. Geralmente, também exibem os melhores títulos da programação.

Alimentação

Qualquer maratona exige um bom preparo físico, boa alimentação e horas de descanso. Por isso, depois do quinto dia de Mostra, com uma média de quatro filmes diários, o corpo tende a esmorecer, caso você esteja forçando demais seu organismo. Não raro, na última sessão do dia, iniciada às 21h30 ou 22h, você pode dar um cochilo providencial para recompor as energias e perder o melhor da película.

O segredo é dormir, pelo menos, oito horas ininterruptas. Tome um café leve e deixe para se alimentar melhor no almoço. A maioria das primeiras sessões diárias começa às 13h30, logo, o almoço terá que ser adiantado para meio-dia e meia ou às 13h, caso a sessão se inicie às 14h. Opte por duas sessões seguidas no início da tarde e deixe um intervalo para a janta entre 17h30 e 19h. Depois das sessões noturnas, que geralmente acabam por volta das 23h ou 23h30, faça um lanche leve e durma pelo menos, uma hora depois.

Não esqueça de se hidratar bem. Sempre leve na mochila uma garrafa de água ou squeeze cheio, cujo conteúdo deve ser reposto ao longo do dia. Compre frutas como tangerina, banana, uva, ameixa e leve como opção de lanche durante as sessões. Evite alimentos que produzam barulho (qualquer coisa crocante) ao mastigar. O público é bem exigente (certíssimo!!) com relação ao silêncio durante a sessão.

Repescagem

Após o encerramento da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo acontece a tradicional repescagem, onde são escolhidos alguns títulos para serem exibidos novamente, em sessões únicas, (geralmente, no CineSesc), durante cinco dias. É a última chance de conferir títulos bem ranqueados pelo público, na votação dos melhores da Mostra ou aqueles que tiveram poucas sessões ao longo da programação. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Cinema Vitória recebe mais uma Sessão Vitrine Petrobras

Miguel "Tibars" vai à procura de suas origens em "Djon África"

A partir de hoje, entra em circuito nacional, dentro da Sessão Vitrine Petrobras, o filme "Djon África" da dupla de diretores Filipa Reis e João Miller Guerra. O filme, que aporta no Cinema Vitória com a chancela do Prêmio FIPRESCI do 36o Festival Cinematográfico Internacional del Uruguay, trata de questões imigratórias e identitárias, tendo como personagem principal, Miguel "Tibars" ou Djon África (Miguel Moreira). 

O rapaz de vinte e poucos anos, órfão de mãe, foi criado pela avó em Portugal, sem conhecer seu genitor. Desempregado e sem perspectivas de trabalho no continente, Miguel decide iniciar uma jornada a Cabo Verde, com o intuito de encontrar o pai e se aproximar de suas raízes. A viagem de contornos cômicos é marcada por situações corriqueiras a turistas debutantes em um determinado "sítio".

Miguel tenta  a todo custo se passar por um cabo-verdiano nato, mas o sotaque carregado, seu desconhecimento em relação a alguns costumes locais e à realidade familiar, colocam-no num lugar de estrangeiro. Ainda assim, Miguel deseja conhecer o pai, com o qual se parece fisicamente e na maneira de agir, segundo sua avó. Vai até Tarrafal- localidade da Ilha de Santiago, no arquipélago de Cabo Verde-, onde o seu genitor foi visto pela última vez.

Se não consegue ter informações mais concretas do paradeiro do pai, aproveita para conhecer simpáticos nativos que o incentivam a ficar na ilha. É o caso de uma senhora solitária, que conhece numa balsa, e o convida a ajudá-la nos afazeres rurais, dando em troca moradia e alimentação. Miguel, a princípio, não tem nada a perder e aceita a proposta. No entanto, recebe um telefonema da namorada, residente em Portugal, que o faz tomar uma decisão importante.

O tema da imigração já foi explorado por Filipa Reis e João Miller Guerra no documentário "Li ké Terra" (2010). Nesse filme, eles acompanharam um pouco da vida dos jovens  Miguel Moreira e Ruben Furtado, dois descendentes de imigrantes cabo-verdianos, que residem ilegalmente em Portugal. Em "Djon África", Miguel volta ao centro do conflito, mas agora, a arte parece imitar a vida, com sua história pessoal confundindo-se com a do seu personagem ficcional.

Se no início, a narrativa de "Djon África" flui, naturalmente, muito por conta de Miguel, figura carismática que de pronto faz com que o espectador embarque junto em sua jornada, na última terça parte do filme, o fio condutor parece se perder, com os diretores mais preocupados em explorar visualmente a topografia da região, do que se aprofundar nos dramas internos do personagem. Ainda que a resolução careça de um lampejo criativo, "Djon África" merece ser conferido, sobretudo pela força do cinema português na contemporaneidade.

O filme terá sessão no Cinema Vitória (Rua do Turista) hoje, às 17h20; sábado, às 14h e segunda-feira, às 15h30.