segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O paraguaio "As Herdeiras" chega ao Cinema Vitória


Chiquita (Margarita Irun) e Chela (Ana Brun): relacionamento em perigo


O último filme paraguaio, que lembro de ter assistido num cinema sergipano, foi "7 Caixas" (7 Cajas) de Juan Carlos Maneglia e Tana Schémbori, produção de 2012, lançado no circuito brasileiro dois anos depois. A sessão fez parte do Cine Cult que, infelizmente, foi sepultado pelo Cinemark Aracaju, após a morte de Roberto Nunes, idealizador do projeto cinefílico.

Agora, quatro anos depois da estreia do maior sucesso de bilheteria da história do Paraguai, eis que chega ao Cinema Vitória, a co-produção Brasil/Paraguai, "As Herdeiras" (2018) de Marcelo Martinessi que saiu do último Festival de Berlim com três prêmios- Urso de  Prata de Melhor Atriz, Urso de Prata Alfred Bauer Para Primeiro Filme Que Abre Novas Perspectivas e Prêmio FIPRESCI- e do 46o Festival de Gramado com seis Kikitos.

Um feito para Martinessi, que estreia em longa-metragem com esse filme (representante do Paraguai na briga por uma vaga no Oscar 2019 de Filme Estrangeiro), como também para Ana Brun, que nunca havia atuado antes de assumir o papel de Chela, uma sexagenária que está passando por sérias dificuldades financeiras ao lado da companheira Chiquita (Margarita Irun). Morando ainda na casa em que nasceu e herdou dos pais, Chela resiste em acreditar na crise que se abateu sobre sua vida: não só a financeira, mas também a afetiva.

Enquanto Chiquita está ao seu lado, tentando juntar uma quantia razoável, através da venda da mobília, das obras de arte e da prataria da esposa, para se safar da acusação de sonegação fiscal, Chela parece mergulhar num estado depressivo e não esboça, a princípio, nenhum sinal de reação. Somente quando se vê sozinha com a empregada Pati (Nilda Gonzalez), ela deixa a atitude passiva no seu ateliê de pintura e vai à luta.

Como motorista particular de algumas amigas que se reúnem, eventualmente, para jogar cartas, Chela vai criando "um caixa" para dar conta das despesas domésticas, ao mesmo tempo que conhece Angy (Ana Ivanova),  jovem que lhe desperta um interesse especial. Lentamente, Chela vai acordando para a vida e percebe que apesar da idade, de ter deixado nas mãos de Chiquita, por muito tempo, o poder de guiar sua vida, ela ainda tem disposição para recomeçar e dar a volta por cima.

Não é à toa que "As Herdeiras" fez sucesso por onde passou. O roteiro enxuto e ousado- colocar no centro da trama personagens femininas, sexagenárias e lésbicas é raro na cinematografia latina- aliado à direção precocemente madura de Martinessi e aos desempenhos das atrizes principais e coadjuvantes constroem uma obra sólida, concisa e econômica nas palavras, que aposta mais no gestual e nos olhares das atrizes.

Apesar da inexperiência na atuação, Ana Brun parece bem a vontade no papel principal, compondo uma Chela humana, cheia de contradições e falível. Quando está em cena, sua presença é magnética. A complexidade de sua personagem faz jus à Angy e Chiquita criadas por Ivanova e Irun, respectivamente. Cada uma, a seu modo, flerta com o público, guiadas pela câmera de Martinessi, auxiliado pelo diretor de fotografia, Luis Armando Arteaga, que não hesita em desnudar, aos poucos, a real faceta desse ambiente doméstico e das relações interpessoais que aí se estabelecem.

Se num primeiro momento, temos dificuldades em entender a dinâmica da casa de Chela e Chiquita,  por conta do uso de planos fechados, da iluminação rarefeita e da câmera à espreita por trás das portas  entreabertas, posteriormente, esse ambiente vai tomando uma outra configuração, sendo mais iluminado e menos camuflado. Chela também muda sua postura em relação à vida. Se antes passava a impressão de uma mulher recatada, discreta, gradativamente, deixa a vaidade aflorar junto com o desejo sexual.

Martinessi, praticamente, exclui os personagens masculinos da história e dá voz às mulheres invisibilizadas pela sociedade tradicionalista e patriarcal. Com acuidade invejável, o diretor envereda por  um tema delicado, fazendo com que o público reflita sobre a amizade, o amor e o desejo. Um filme obrigatório!!



sábado, 10 de novembro de 2018

"Chacrinha: o Velho Guerreiro" chega aos Cinemas Brasileiros


Chacrinha (Nercessian) entre as chacretes no seu programa televisivo


Uma figura como Chacrinha, deveria despertar o interesse não só do público  jovem- para conhecer quem foi esse fenômeno midiático da história do Rádio e da TV brasileira- como também da galera de mais de 40 anos, que se divertia muito com o  apresentador escrachado -ainda que muitas de suas brincadeiras, sejam consideradas politicamente incorretas. Mas o filme que teve estreia, na última quinta-feira, em circuito nacional, aqui em Aracaju, parece ainda não ter encontrado seu público. Na sessão de ontem, à tarde, no Cinemark Riomar, apenas eu e mais três pagantes na plateia.

Na tela, Eduardo Sterblitch e Stepan Nercessian vivem o personagem título com naturalidade (diferentes épocas) em "Chacrinha: o Velho Guerreiro" que ora diverte, emociona e faz com que viajemos no tempo através dos sucessos da época, interpretados por artistas como Criolo, Laila Garin (Clara Nunes) e Luan Santana. Muito bem dirigido por Andrucha Waddington, o longa-metragem conta com um elenco de coadjuvantes à altura dos atores principais, destacando-se Carla Ribas (Florinda), Rodrigo Pandolfo (Jorge), Pablo Sanábio (Nanato/Leleco), Gustavo Machado (Oswaldo) e Thelmo Fernandes (Boni).

O longa foca na carreira de José Abelardo Barbosa de Medeiros, pernambucano, que chega ao Rio de Janeiro sem um tortão no bolso (após uma tentativa fracassada de baterista no conjunto de um navio) e decide ficar, apostando apenas no talento  como comunicador, para encontrar "seu lugar ao sol". De garoto propaganda de uma loja de tecido, torna-se radialista e chega até a TV, onde não tarda a fazer um sucesso estrondoso. Algumas histórias de bastidores são abordadas no filme, revelando um homem, por vezes, amargurado por conta das relações familiares; irascível, quando o assunto era sua autonomia no trabalho, tendo embates com Boni da Globo, mas também afetuoso com as mulheres e com fama de mulherengo.

Ainda que não aprofunde em alguns aspectos pessoais, o roteiro de Cláudio Paiva traça um panorama abrangente e interessante da carreira artística do "Velho Guerreiro", mostrando seus altos e baixos e o poder de reação frente às tragédias familiares. A direção de arte assinada por Rafael Targat, a fotografia de Fernando Young e o figurino a cargo de Marcelo Pies são um show à parte.

Para quem ainda não foi assistir ao principal lançamento nacional da semana, fica a dica. Mas corra, pois como é filme brasileiro, pode ser que seja tarde demais, quando você resolver conferi-lo no cinema.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Roteiro desgastado pela "Ferrugem"


Ferrugem_foto de Rosano Mauro Jr._http://bangalocult.blogspot.com
Cena de "Ferrugem" de Aly Muritiba (Foto/divulgação: Rosano Mauro Jr.)

Nos últimos tempos, em alguns festivais nacionais e internacionais, quando se premia uma obra audiovisual, a temática parece funcionar como fator preponderante nas escolhas de determinados júris. Não importa os furos de roteiro, eventuais interpretações claudicantes ou até mesmo a falta de habilidade do diretor para resolver questões primárias. Muitas vezes, vale mais a boa intenção do realizador do que propriamente a eficiência com que ele trabalha com assuntos pertinentes à contemporaneidade.

No quarto dia de programação do 8o Festival Sergipe de Audiovisual (SERCINE), pude comprovar que "Ferrugem" de Aly Muritiba, vencedor nas categorias de Melhor Filme e Melhor Roteiro no 46o Festival de Gramado, parece ter sido beneficiado por essa "nova onda", onde o apuro da linguagem cinematográfica, da escolha estética fica em segundo plano, enquanto o que vale mesmo é a relevância do tema social.

Assim como no recente "Luna" de Cris Azzi (exibido, por enquanto, no circuito de festivais), "Ferrugem" toca no tema do bullying contra garotas que tiveram vídeos eróticos disseminados por colegas via internet, levando-as a atos desesperadores. A semelhança, no entanto, para por aí. Enquanto "Luna" prima pela encenação, apoiada por uma direção segura, ótimas interpretações, roteiro bem urdido, acurada fotografia e cuidadosa direção de arte (saiu sem prêmios no Fest Brasília), "Ferrugem" apresenta "furos" no roteiro, comprometendo a verossimilhança da história; seus personagens carecem de empatia, fruto de uma certa apatia interpretativa dos atores principais e há um descuido na construção de determinadas cenas (quanto à escolha de planos, uso de clichês).

Aly Muritiba divide seu filme em duas partes, onde a primeira é dedicada ao drama de Tati e a segunda foca a reação de Renet à impulsividade da garota. Tati (Tiffany Dopke) não desgruda de seu celular. Visitando um aquário juntamente com colegas de turma e o professor de Biologia, ela se encanta com a diversidade da fauna subaquática, registrando tudo em seu smartphone. O único que a faz perder o foco no habitat  marinho artificial é o colega Renet (Giovanni de Lorenzi). Há um clima de paquera entre eles e não tarda, a oportunidade de um beijo, num  passeio noturno.

O clima romântico só será quebrado com a perda do celular de Tati, que recruta os colegas a procurarem o aparelho móvel, como se fosse uma joia rara. Ninguém teve a brilhante ideia de ligar para o número da garota, a fim de que ele tocasse ou vibrasse ao primeiro toque, de modo que o descuido de Tati levará a consequências inimagináveis. Um vídeo íntimo em que está com o ex-namorado cai na rede e Tati vira alvo de bullying. 

No "olho do furacão", a adolescente não consegue encontrar um culpado, perde, gradativamente, o apoio das amigas mais próximas e seus pais estão na iminência de descobrirem a verdade. Não tarda para o desespero bater à sua porta. A partir de então, a história mudará de rumo, permitindo ao espectador acompanhar o tímido e inconsequente Renet refletindo sobre a imprevisibilidade e crueldade humana, ao mesmo tempo que tenta lidar com questões familiares, envolvendo sua relação com os pais (Enrique Díaz e Clarissa Kiste).

"Ferrugem" peca pelo excesso, com detalhes que deveriam estar ocultos, mas terminam enaltecendo as falhas do roteiro (prefiro não citar e deixar que o internauta descubra por si só). Há um desequilíbrio também na atuação dos adultos - Enrique Díaz e Clarissa Kiste estão na medida- enquanto que Dopke e Lorenzi se esforçam em dar conta da complexidade dos personagens sem, no entanto, alcançarem um resultado convincente. Quanto à maneira da câmera se portar, parece que os planos foram escolhidos ao acaso, sem um rigor na composição do quadro, que poderia auxiliar muito no resultado dramatúrgico.

Infelizmente, é um filme cheio de boas intenções, cujo resultado deixa muito a desejar. Uma pena!

sábado, 3 de novembro de 2018

"Bixa Travesty" abre a 8a edição do SERCINE


A cerimônia de abertura da 8a edição do Festival Sergipe de Audiovisual (SERCINE) acontece, logo mais, às 19h, no Centro Cultural de Aracaju, localizado à Praça General Valadão, na capital sergipana. Além da exibição do documentário "Bixa Travesty" de Kiko Goifman e Claudia Priscilla, haverá um debate após o filme com Linda Brasil (ativista feminista, LGBT e transfeminista) e Maluh Andrade (secretária geral do AmoSerTrans). Para esquentar o público que comparecer à abertura haverá discotecagem do DJ JO-EL, do DJ ANTI e mapping Camila Pedroza.

O festival que prossegue até o dia 10 de novembro, com atividades gratuitas, no Centro Cultural de Aracaju e Museu da Gente Sergipana, conta ainda com mostras informativas e competitivas de curtas-metragens, além de exibição de filmes de longa-metragem convidados ("Parquelândia" de Cecília da Fonte- 05/11; "Tito e os Pássaros" de Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar e André Catoto- 06/11; "Ferrugem" de Aly Muritiba- 07/11; "Rei"- 08/11 de Nilles Atallah; "Híbridos: os Espíritos do Brasil" de Vincent Moon e Priscilla Telmon; "Torre das Donzelas" de Susanna Lira) e o seminário "Mulheres no Cinema Brasileiro: que História é Essa ?" com Kátia Holanda no dia 05, às 14h30.

Quanto a "Bixa Travesty", o filme foi vencedor do Teddy Award na categoria documentário, no Festival de Berlim 2018 e contemplado com três prêmios no último Festival de Brasília (Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Trilha Sonora), o Prêmio Saruê pela performance de Linn da Quebrada e Jup do Bairro, além da Menção Honrosa concedida pelo Júri Oficial. A força do documentário está na sua personagem principal: a multiartista Linn da Quebrada.

O documentário, cujo roteiro é assinado pela própria Linn e os diretores, intercala cenas da vida pessoal e da trajetória artística da funkeira e ativista trans, oriunda da periferia paulista, focando sua relação com a mãe, os amigos, a música e, principalmente, com o seu corpo. Linn da Quebrada é um ser em transformação, fluido (vide as ricas imagens de arquivo inseridas no filme) e seu corpo, um ato político. Juntamente com a amiga e também performer Jup do Bairro, ela testa os limites do corpo, na tentativa de alcançar o prazer, sem paranoias ou cobranças. 

Extremamente articulada e mordaz, Linn participa de um programa de rádio fictício (em breve, deverá virar série) construindo um discurso sólido, baseado em teorias queers e em sua própria vivência. Essas esquetes são um dos pontos altos do filme, assim como as cenas de Linn se recuperando de um problema de saúde e alguns momentos de suas apresentações musicais.

"Bixa Travesty" já se coloca como um dos melhores documentários brasileiros do ano, não só pela abordagem temática, mas como a discussão de gênero e identidade é conduzida pela protagonista ao longo dos seus 75 minutos. Imperdível!!

Programação Completa:

03 de novembro
Centro Cultural de Aracaju

ABERTURA
Cerimonia de abertura - 19h00

Longa Convidado – 14 anos
Bixa Travesty – Dir. Kiko Goifman e Claudia Priscilla
DOC. – 75min. – 2018 


05 de novembro
Centro Cultural de Aracaju

Seminário Conversas com o Cinema – 14h30 - LIVRE

Palestra
“Mulheres no cinema brasileiro: que história é essa?”
Karla Holanda

Mostra de Longas – 10 anos
Centro Cultural de Aracaju – 19h

Longa Convidado
Parquelândia – Dir. Cecilia da Fonte
DOC. – 73min. – 2018 


06 de novembro

Mostra infantil - LIVRE
Museu da Gente Sergipana -  9h

Mostras Competitivas
Centro Cultural de Aracaju – 14h30

Competitiva Universitária – 14 anos
Mercadoria – Dir. Carla Villa-Lobos – UFRJ – 15’ – 2017
Braços Vazios – Dir. Daiana Rocha – UFES – 16’ – 2017
Vidas Cinzas – Dir. Leonardo Martinelli – UNESA – 15’ – 2017
Um Lugar ao sul – Dir. Gianluca Cozza – UFPel – 11’ – 2018 

Competitiva Nordeste – 12 anos
Avalanche – Dir. Leandro Alves – AL – 21’ – 2017 
Vento Menino – Dir. Edemar Miqueta – MA – 25’ – 2017
Caleidoscópio – Dir. Natal Portela – CE – 18’ – 2017

Competitiva Brasil – 12 anos
Namoro à Distância – Dir. Carolina Markowicz – SP – 5’ – 2017
O Órfão – Dir. Carolina Markowicz – SP – 15’ - 2018
Lençol de Inverno – Dir. Bruno Rubim – MG – 24’ - 2017
Transvivo – Dir. Tati Franklin – ES – 20’ – 2017 


Mostra de Longas - LIVRE
Centro Cultural de Aracaju – 19h30

Curta Convidado
O Caçador de Árvores Gigantes – Dir. Anttonio Pereira – RS – 2016

Longa Convidado
Tito e os Pássaros – Dir. Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar e André Catoto
ANIMAÇÃO – 73min. – 2018 


07 de novembro

Mostra infantil - LIVRE
Museu da Gente Sergipana -  9h

Mostras Competitivas
Centro Cultural de Aracaju – 14h30

Competitiva Universitária – 14 anos
Cravo, Lírio e Rosa – Dir. Maju de Paiva – UFF – 20’ – 2018
Ontem eu tive que morrer – Dir. Dominique Mangueira – UFS – 17’ – 2018
Sam – Dir. Miguel Moura e Julia Souza – SENAI CETIQT – 8’ – 2017 
Reexistir – Dir. Gabriela Lima – FAAP – 15’ – 2017 

Competitiva Nordeste – 12 anos
Boca de Loba – Dir. Bárbara Cabeça – CE – 19’ – 2018 
Grito! Parte I: Mini Manifesto Feminista Interseccional em Imagens - Dir. Dandara de Morais – PE – 23’ – 2018
Entre Pernas – Dir. Ayla de Oliveira – PE – 20’ – 2018

Competitiva Brasil – 12 anos
Carroça 21 – Dir. Gustavo Pera – SP – 12’ – 2018 
Carne – Dir. Mariana Jaspe – RJ – 11’ – 2017
Estado Itinerante – Dir. Ana Carolina Soares – MG – 25’ – 2016 
Fè Mye Talè – Dir. Henrique Lahude – RS – 16’ – 2018

Mostra de Longas – 14 anos
Centro Cultural de Aracaju – 19h30

Longa Convidado
Ferrugem – Dir. Aly Muritiba
FICÇÃO – 105min. – 2018


08 de novembro

Mostra infantil - LIVRE
Museu da Gente Sergipana -  9h

Mostras Competitivas
Centro Cultural de Aracaju – 14h30

Competitiva Universitária – 16 anos
Inconfissões – Dir. Ana Galizia – UFF – 21’ – 2017
Impermeável Pavio Curto – Dir. Higor Gomes – UNA – 20’ – 2018
Super Estrela Patreada – Dir. Leonardo Branco – UNA – 28’ - 2018

Competitiva Nordeste – 18 anos
MINOTAURO - viagem ao labirinto do corpo – Dir. Leonardo França – BA – 22’ - 2016
Imaginários Urbanos – Dir. Glauber Xavier – AL – 24’ – 2017
Aos meus pés – Dir. Felipe Saraiva – CE – 14’ – 2018
Não tema – Dir. Odécio Antonio – PB – 11 - 2018

Competitiva Brasil – 14 anos
Rio das Lágrimas Secas – Dir. Saskia Sá – ES – 25’ – 2018
Metempsicose – Dir. Italo Rocha e Marcelo Zuza – AC – 2’ – 2017 
Boi – Dir. Lucas Bettim e Renan Carvalho – SP – 13’ – 2018 
Sweet Heart – Dir. Amina Jorge – SP – 21’ – 2018

Mostra de Longas – 12 anos
Centro Cultural de Aracaju – 19h30

Longa Convidado
Rei – Dir. Niles Atallah
FICÇÃO – 91min. – 2017 - CHILE


09 de novembro

Mostra infantil - LIVRE
Museu da Gente Sergipana -  9h

Mostras Competitivas
Centro Cultural de Aracaju – 14h30

Competitiva Universitária – 12 anos
Tiba Uema – Dir. Maria Vitoria Uema – UFS – 5’ - 2018
Amor de Orí – Dir. Bruna Barros – UNB – 7’ – 2017   
Sessão Especial – Dir. Gabriela Queiroz – UFC – 20’ – 2017 
Modernidade Liquida (Videoclipe) – Dir. Andrey Costa e Luiz Michael – UFS – 5’ – 2018
Brasil 1984 – Dir. Filipe Cruz – UFS – 1’ – 2018

Competitiva Nordeste – LIVRE
Entre marés – Dir. Ayla de Oliveira – PE – 20’ – 2018 
Fantasia de Índio – Dir. Manuela Andrade – PE – 18’ – 2017 
Juninas – Dir. Thaís Ramos – SE – 19’ – 2018 
No signal – Dir. Jonta Oliveira – SE – 2’ – 2018 
[IN]SUSTENTÁVEL – Dir. Julio Castro e Seo Cruz – RN – 12’ – 2018  

Competitiva Brasil – 12 anos
Arara: Um Filme Sobre um Filme Sobrevivente – Dir. Lipe Canêdo – MG – 13’ – 2017
Retratos sobre o Não Ver – Dir. Erik Gasparetto – PR – 19’ – 2018 
Logo Após – Dir. Ana Carolina Soares – MG – 29’ – 2018 
Intervenção – Dir. Isaac Brum Souza – GO – 18’ – 2017

Mostra de Longas – 12 anos
Centro Cultural de Aracaju – 19h30

Longa Convidado
Híbridos: Os Espíritos do Brasil – Dir. Vincent Moon e Priscilla Telmon
DOC. – 88min. – 2017


10 de novembro
Centro Cultural de Aracaju

ENCERRAMENTO 
Cerimonia de Encerramento - 19h30

Longa Convidado – 14 anos
Torre das Donzelas – Dir. Susanna Lira
DOC.  – 92min. – 2018

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

"Las Sandinistas!" sai duplamente premiado na 42a Mostra Internacional de Cinema de SP

Ontem, no Auditório do Ibirapuera, aconteceu o encerramento da 42a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Serginho Groisman e a diretora da Mostra Renata de Almeida foram os mestres de cerimônia e apresentaram os filmes vencedores. 

O documentário "Las Sandinistas!" de Jenny Murray saiu do evento duplamente premiado. Recebeu o Troféu Bandeira Paulista 2018, concedido pelo Júri Internacional- formado pela atriz Astrid Adverbe, o produtor Edgar Tenembaum, o diretor Ferzan Özpetek, o diretor Sérgio Machado e a diretora Teresa Villaverde. O Júri Oficial ainda concedeu uma Menção Honrosa para o brasileiro "Sócrates" de Alex Moratto. Já o Prêmio do Público, na categoria melhor ficção internacional, ficou com "Cafarnaum" de Nadine Labaki, enquanto na categoria melhor documentário venceu "Las Sandinistas!".

Pela segunda vez, a Mostra internacional de Cinema de SP concede o Prêmio Petrobras de Cinema a dois filmes brasileiros. Dessa vez, ambos foram escolhidos pelo público, sendo o melhor longa de ficção (prêmio de R$ 200 mil reais) "Meio Irmão" de Eliane Coster e o melhor documentário (prêmio de R$ 100 mil reais)  "Torre das Donzelas" de Susanna Lira.

O Prêmio ABRACCINE concedido por um júri formado por membros da Associação Brasileira de Críticos de Cinema foi para "Meio Irmão" de Eliane Coster. Já a imprensa especializada que cobre o evento e tradicionalmente confere o Prêmio da Crítica escolheu "Todas as Canções de Amor" de Joana Mariani e o mexicano "Nuestro Tiempo" de Carlos Reygadas, respectivamente, como o melhor filme brasileiro e o melhor estrangeiro dessa edição.


quarta-feira, 31 de outubro de 2018

"Las Sandinistas!" e "Uma Mulher em Guerra": Mulheres Militantes e Revolucionárias

Las Sandinistas!_http://bangalocult.blogspot.com
"Las Sandinistas!" aborda a ação das guerrilheiras nicaraguenses


Uma Mulher em Guerra_http://bangalocult.blogspot.com
Halla (Sigurdarson) é maestrina, ambientalista e mãe em "Uma Mulher Em Guerra"


Dos 40 filmes vistos, nessa 42ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, dois estrangeiros representam bem a força da militância feminina: o documentário norte-americano “Las Sandinistas!” dirigido por Jenny Murray e a ficção islandesa “Uma Mulher em Guerra” de Benedikt Erlingsson.

O documentário parte de imagens de arquivos e entrevistas atuais para traçar o perfil de algumas mulheres guerrilheiras e revolucionárias da Nicarágua, que faziam parte da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), durante a década de 1970, tendo como destaque, Dora Maria Téllez, Mônica Baltodano, Gioconda Belli, entre outras. 

A FSLN foi um partido político socialista, criado no início da década de 1960, em oposição ao governo ditatorial de Anastásio Somoza Debayle, sendo que, em 1979, um grupo de 25 guerrilheiros (dentre as líderes estava Dora Maria), invade o Palácio do Governo e estabelece o fim do poder da família Somoza, iniciado em 1936, pelo patriarca Anastásio Somoza García.

Os Sandinistas ficaram no poder até 1990, sendo a Nicarágua governada por uma Junta Provisória de 1980 a 1984 e de 1985 a 1990, o sandinista Daniel Ortega tornou-se presidente eleito do país da América Central. Durante o período da Junta Provisória, uma série de ações socialistas aconteceu no país, com o intuito de combater o atraso econômico. Muitas dessas guerrilheiras contribuíram com essas ações, ocupando cargos políticos.

O filme mostra a força da mulher nicaraguense, independente de classe social, raça e nível intelectual, todas lutando por um ideal: o de ver o seu país livre da ditadura e com políticas sociais visando a redistribuição de renda, promoção da saúde e da educação. Se no início, as mulheres pegaram em armas, depois utilizaram os livros, a oratória para combater o autoritarismo que vigora até hoje, com o regime de Daniel Ortega (ex-líder revolucionário, cuja forma de governo passa ao largo das ideias sandinistas originais). 

Feministas na sua essência, algumas dessas mulheres moram no exterior, mas não esquecem do país natal e lutam para que grupos vulneráveis nicaraguenses tenham seus direitos preservados. Ainda que siga um formato tradicional de documentário- baseado em entrevistas e imagens de arquivo- “Las Sandinistas!” é um filme fundamental, na medida em que contribui para que parte da história da Nicarágua não seja esquecida, apagada. 

Coincidentemente, a história escrita pelas mulheres combativas que a sociedade baseada no patriarcado, faz questão de ignorar.

Já a ficção islandesa "Uma Mulher Em Guerra" destaca-se pela força da personagem e pela  narrativa ágil e inteligente. Essa  produção confirma a boa safra de filmes recentes do país nórdico insular europeu, a exemplo de “Desajustados” de Dagur Kári, “Ovelha Negra” de Grímur Hákonarson e “Pardais” de Rúnar Rúnarsson (todos esses títulos foram exibidos na 39ª Mostra de Cinema de São Paulo).

No filme de Erlingsson, indicado pela Islândia a concorrer a uma vaga no Oscar 2019, na categoria Filme Estrangeiro, Halla (Jalldóra Geirharosdottir) é uma mulher na casa dos 50 anos, solteira, professora de canto e ambientalista. Contrária ao funcionamento de uma usina de alumínio no seu país, Halla age como um lobo solitário, usando métodos de sabotagem, no intuito de barrar o funcionamento da usina, uma parceria entre o governo chinês e de seu país.

Contando com alguns aliados para fugir da polícia, a exemplo de um ministro do governo, um “provável” primo distante (Jóhann Sigurdarson) e a irmã gêmea, Ása,  a ativista ambiental depara-se com uma questão bem peculiar: depois de quatro anos na fila para adotar uma criança estrangeira, eis que surge a oportunidade de tornar-se mãe de uma órfã bielorrussa. Halla estaria preparada para assumir o papel de mãe na atual conjuntura?

Com humor sutil de cunho crítico social -vide as aparições do turista e ciclista hispânico-, “Uma Mulher em Guerra” é uma grata surpresa, onde o realismo funde-se com o surrealismo, na medida certa- as aparições do trio musical e do coral russo, construindo a trilha musical, diegeticamente, são a melhor prova disso. Também tem como trunfo, a ótima atriz Jalldóra Geirharosdottir que interpreta de forma competente as irmãs gêmeas e as cenas de ação que são bem dirigidas e convencem pela verossimilhança. 

Um ótimo exemplar de filme de militância e feminismo sem ser pedante e apelativo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

"Selvagem": sexo, drogas e amor


Félix Maritaud vive um garoto de programa em "Selvagem" 


"Selvagem" foi o único filme francês que assisti nessa 42a edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O longa chamou-me a atenção por duas razões: tem como personagem principal, um garoto de programa que foge dos padrões habituais e por ter como protagonista, o ótimo ator Félix Maritaud, que marcou presença no premiado "120 Batimentos Por Minuto" de Robin Campillo.

Há quem tenha saído no meio da sessão de "Selvagem", talvez, incomodado com a crueza que a vida de Léo é representada, mas confesso que não foi a degradação do personagem que me incomodou, senão sua ingenuidade. Léo é um jovem de 22 anos que ganha a vida de prostituindo. Apesar de bonito, seu aspecto sujo e mal cuidado denota a vida miserável que leva, regada a drogas, alimentação  precária e privação de sono. 

Diferentemente dos michês que dividem a zona com ele, que geralmente exploram os clientes, Léo, carente na sua essência, doa-se completamente aos homens com quem transa. Amor mesmo, ele nutre pelo amigo e também michê, Ahd (Eric Bernard), mas este deseja um futuro sólido, uma vida bem estabelecida. Quando Ahd  reata o relacionamento com um homem bem mais velho e despreza o amigo, Léo entra em parafuso e toma decisões contraditórias.

Ao mesmo tempo que tenta deixar as drogas, procurando atendimento especializado, num nítido aflorar do instinto de sobrevivência (Eros), Léo entrega-se a clientes sádicos, que debilitam-lhe o corpo e, porque não dizer, a alma também (Tânatos). A vida dá-lhe uma chance rara de mudança, mas a essência do rapaz parece mirar na corda bamba da vida "selvagem" e libertária.

Em "Selvagem", o diretor Camille Vidal-Naquet traça  um retrato interessante do mundo do bas-fond, tendo como foco, a trajetória desse protagonista pouco provável na vida real (mas não impossível). Félix Maritaud está à vontade no papel e as cenas de sexo (ainda que contidas, para o universo em que estão inseridas) passam veracidade. Essas são filmadas mais de perto, com intensidade, assim como as duas sequências de dança, enquanto os planos mais abertos, voyeurísticos são explorados quando Léo está à caça de clientes.

É um filme que, a princípio, pode atrair apenas o público masculino e gay, mas vale a pena se despir de preconceitos e dar uma chance a esse longa de estreia de Camille Vidal-Naquet. Nu e cru!!