quinta-feira, 18 de junho de 2009

Quando ele descobriu que não mais era...

Galhardo acordou com um gosto meio azedo na boca, mas não sabia exatamente o porquê. Tentou lembrar o que havia comido na noite anterior, em vão. Como tinha tomado algumas doses de Dry Martini, achou que o teor alcoólico não tinha lhe caído bem. Porém, ele era acostumado a beber muito mais do que as sete doses e nada sentir.
Alguns minutos depois de ter tomado seu banho matinal, foi até a cozinha preparou um café com leite (bem mais leite que café) e ligou a TV antes de ir trabalhar. Foi aí, que um turbilhão de lembranças tomou conta de sua mente laboriosa. No telejornal matutino, repetia-se a mesma notícia que tinha saído em destaque, ontem à noite, no horário nobre: "STF decide que diploma de jornalista não é obrigatório".
Galhardo havia ficado tão transtornado com a decisão dos SUPREMOS ministros, que decidiu 'encher' a cara, moderadamente, para esquecer daquela realidade infeliz. Ele tinha se formado em Comunicação Social- Habilitação em Jornalismo há 10 anos e agora, estava prestes a ser promovido a editor do Caderno Cultural. Sua promoção, no entanto, talvez não viesse mais.
Não sabia qual seria seu futuro naquela profissão já pouco valorizada com o diploma de nível superior e, agora, completamente desqualificada por oito ministros que entre outras coisas, compararam o ato de informar adequadamente à população, ao de cozer e coser.
Mas ele não sabia cozinhar e nem costurar. Seu faro para encontrar ' um furo jornalístico ' é do que ele mais se orgulhava. O feeling natural ajudava muito nesse aspecto, contudo foi na universidade que ele aprendeu as regras corretas de como construir um texto jornalístico de forma clara, direta e ética. As fontes que conseguia no dia-a-dia, ninguém mais tinha naquela cidade de quase 600 mil habitantes.
Era um cara reconhecido no meio artístico e também pelos colegas de outros diários concorrentes. Apesar dessa decisão, no entanto, não deixaria de ser a pessoa que sempre foi: prestativa, empenhada, orgulhosa da profissão que abraçou sem medo de ser feliz.
Ficou pensando até se ia trabalhar naquela manhã ou ficaria inerte em casa. Decidiu erguer a cabeça e seguir em direção à empresa que trabalhava há sete anos e esperar pelo pior.
Talvez não ser mais promovido. Na pior das hipóteses, ter seu salário diminuído ou até mesmo ser demitido e substituído por algum semi-analfabeto puxa-saco do patrão.
Como morava há 1 km da redação, fazia o trajeto sempre a pé, observando o movimento do centro urbano e colhendo por osmose estimulos visuais e sonoros que poderiam ser mais tarde traduzidos em palavras, no papel jornal.
Faltando duas quadras para chegar ao seu destino- esse que na maioria das vezes, a gente não escolhe- Galhardo foi abordado por uma jovem que segurava uma prancheta e empunhava uma caneta. Ela estava fazendo uma daquelas pesquisas de opinião e ele decidiu contribuir com parcos 15 minutos.
Quando chegou porém na questão: qual nível escolar que possui? Galhardo chegou à conclusão de que apesar de ter passado quatro anos numa Universidade Federal e ter investido numa Pós-Graduação Particular na sua área de atuação, ele possuía uma profissão de fato, mas não de direito.
Ele estava paralisado diante da moça, olhando o questionário e sem saber o que responder. Descobriu que o que vivera nos últimos 10 anos era uma farsa. Ou pelo menos, era o que pensava ser os SUPREMOS ministros. Descobriu que não mais era...
Texto: Suyene Correia
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