terça-feira, 17 de setembro de 2013

Uma "Pelada" de Clichês

Compareci, ontem, à abertura do Curta-SE 13, exclusivamente para conferir o filme "A Pelada", propagado aos "quatro ventos" como a primeira produção franco-belga-sergipana da história. Tirando o fato de que era uma comédia, que tinha a questão do sexo como premissa e contava com atores locais no casting, eu não sabia de praticamente nada sobre esse primeiro longa-metragem de Damien Chemin (belga que mora há cinco anos em Aracaju).

Foi bom chegar ao Teatro Tobias Barreto sem expectativa alguma. Ainda assim, acreditava que veria um produto audiovisual bem resolvido, narrativamente; com personagens bem delineados e um roteiro sem brechas, além do elenco sergipano (finalmente) sobressaindo-se com papéis menos secundários e pontas. 

Mas, infelizmente, o jogo dos sexos disputado na telona, foi uma "bola fora" em muitos sentidos, com personagens estereotipados, uma profusão de clichês mal reproduzida das recentes comédias nacionais com a marca Globo Filmes e o elenco local, para variar, sendo colocado de escanteio (como acreditar que Lindolfo Amaral, entra mudo e sai calado de cena, por duas vezes; Orlando Vieira é fotografado enviesado já no finalzinho da exibição e Walmir Sandes só aparece para entregar um presente numa festa e desaparece como "penetra" ?).

Porém, não posso negar que a dupla Caio (Bruno Pêgo) e Sandra ( Kika Farias) está em boa sintonia, vivendo um casal em crise. Ele, funcionário de uma empresa que comercializa e faz manutenção de piscinas, aproveita as horas livres para se divertir com os colegas de trabalho (entre eles, o impagável ator baiano Pisit Mota), seja batendo uma bola num campo de várzea ou entornando algumas cervejas numa mesa de bar. Durante esses encontros, a conversa gira em torno das conquistas amorosas (e fantasiosas) de Caio com gêmeas tesudas e garotas de programa ardentes que caem na sua "rede" com uma facilidade impressionante.

Por outro lado, Sandra, a esposa de Caio e entregadora de panfletos nos semáforos das principais vias  de Aracaju, prepara-se para comemorar os três anos de casório em grande estilo, mas tem seus planos frustrados, após uma ressaca amnésica do marido, que esqueceu da data importante.

Sandra quer apimentar seus raros momentos de intimidade com Caio, mas ele parece avesso às investidas da mulher. Enquanto ela adquire um consolo em um  sex shop e sugere um ménage à trois, na tentativa de sair do "feijão com arroz"cotidiano, ele prefere relatar suas fantasias a experimentá-las de fato.

Caem de pára-quedas na trama uma prostituta (a surpreendente Ananda Barreto), uma agente de viagem e uma garçonete lésbica (Karen Junqueira) que ensaiam a possibilidade de se tornarem amantes de Luana. Nesse ínterim, Caio interpreta mal algumas situações e se vê envolvido em brigas que o deixam em maus lençóis.

Contrariando os conselhos do amigo Gilvan (Tuca Andrada), ele decide entrar no jogo da esposa e cede ao desejo dela de participar de um ménage. Mas ao invés de três são quatro (ele, Sandra, a agente de viagem e a garçonete) que vão parar no motel. Lá, o casal descobre que não precisa de estranhos para turbinar a transa e, assim como num conto de fadas, tudo acaba bem.

Um dos maiores problemas de "A Pelada" é o roteiro, que não deixa de cair em armadilhas, facilmente encontradas no campo do humor. Mesmo com boas atuações de Bruno, Kika, Karen e Pisit, a narrativa é frágil, não se sustenta durante os quase 90 minutos de projeção,  contendo algumas situações inverossímeis, difíceis de engolir (de uma hora para a outra Sandra desenvolve um desejo atroz de transar com mulher), além de uma enxurrada de clichês típico do gênero, já fartamente explorados pelas comédias nacionais de grande orçamento.

Mas não é só isso. De uma forma geral, a escolha estética do diretor também deixa a desejar. Claro que houve cenas, interessantemente, bem fotografadas (cito a dos pescadores no barco; as de Caio conversando com o Gilvan, confortavelmente instalados nos sofás à beira da avenida; as cenas aquáticas), contudo de uma forma geral, a câmera de Damien pouco ou quase nada ousa cinematograficamente. Talvez funcione melhor numa telinha que numa telona.

Também me incomodou o merchandising escancarado a cada 15 minutos de projeção. Que se por um lado, deve ter feito os patrocinadores e apoiadores rirem à toa, por outro, demonstra a falta de sutileza dos produtores em conduzirem a questão.  Outro problema bem perceptível é a mixagem de som. Mesmo tendo sido realizada na Bélgica, não foi capaz de resolver algumas falhas de inteligibilidade das falas de atores, principalmente, as que reuniam os amigos de Caio.

"Gol de placa" para a trilha sonora de Dudu Prudente e para a direção de arte de Everlane Moraes, que a cada trabalho, vêm amadurecendo nas suas respectivas áreas. Talvez se o filme tivesse um formato mais compacto (curta), alcançasse um resultado melhor. Como longa, prefiro pensar que ele é um ensaio do que ainda estar por vir ( de melhor) por aí.

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