terça-feira, 21 de julho de 2015

Coletivo de Teatro Alfenim encena "Memórias de um Cão" em Aracaju


"Memória de um Cão" baseia-se em "Quincas Borba" 

O Coletivo de Teatro Alfenim aporta em Aracaju, amanhã, para uma série de apresentações do espetáculo inédito "Memórias de um Cão", na sede do  Imbuaça. A breve temporada (de 22 a 26/07 e de 29/07 a 02/08) dessa peça, que parte do estudo da obra "Quincas Borba" de Machado de Assis, faz parte do  Projeto de Manutenção Figurações Brasileiras, patrocinado pela Petrobras. As apresentações de quarta a sábado, acontecem às 19h30 e, no domingo, às 17h. A entrada é gratuita, sujeita à lotação da sala.

"Memórias de um Cão" propõe uma abordagem crítica das estratégias de dissimulação, engodo e auto-engano que marcam no campo subjetivo e político as relações sociais do Brasil. Narra a trajetória de ascensão e queda de Rubião, um mestre-escola interiorano que, às vésperas da abolição da escravatura, se muda para a Corte, após receber uma herança de seu benfeitor, Quincas Borba, um típico escravocrata, autodenominado filósofo, que ocupa seus dias ociosos de proprietário e rentista com especulações amalucadas sobre a “natureza humana”. 

Como condição para usufruir a herança, o recém endinheirado deve cuidar do cão Quincas Borba, que tem o mesmo nome de seu benfeitor. Essa exigência testamentária, uma variante do pacto fáustico, traduz na prática as determinações do “Humanitismo”, espécie de doutrina heterodoxa criada por Quincas Borba, cujo princípio pode ser sintetizado na máxima “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”. 

Tornado capitalista da noite para o dia, Rubião irá flanar pelas ruas elegantes de um Rio de Janeiro em processo vertiginoso de modernização, buscando inserir-se num círculo de relações de favor, marcadas pelo preconceito de classe e pela futilidade de um mundo apartado do trabalho. Enquanto torra o dinheiro da herança, o mestre-escola experimenta uma vida de luxos e compensações imaginárias a tal ponto irreais, que pensa ser o próprio Imperador francês Napoleão III, numa clara alusão às pretensões da elite brasileira de tornar o Brasil uma nação do primeiro mundo, com a importação de um liberalismo fora do lugar e vistas grossas ao tráfico de escravos. 

A partir da leitura do romance "Quincas Borba", o Coletivo Alfenim propõe uma alegoria tragicômica da desfaçatez com que a elite econômica e cultural brasileira tenta isentar-se de sua responsabilidade histórica pela barbárie que marca o processo de modernização do país. Pautando-se pela ironia contida nessa espécie de anti-romance modelar, o espetáculo procura expor as contradições de uma sociedade em formação que almeja reconhecer-se no espelho da modernidade, sem abrir mão de prerrogativas de classe como a exploração da mão de obra escrava, a espoliação do incipiente trabalho livre e a apropriação da riqueza nacional por parte de sua elite econômica, a partir da instrumentalização das instâncias do poder público, numa nação recém saída da condição de colônia portuguesa. 

Com dramaturgia e direção de Márcio Marciano e contando com os atores Adriano Cabral, Lara Torrezan, Paula Coelho, Ricardo Canella, Verônica Sousa,Vítor Blam e Zezita Matos (Atriz dos longas-metragens "A História da Eternidade, "Mãe e Filha"), "Memórias de um Cão" estreou em maio na sede do Coletivo Alfenim, em João Pessoa e, agora, circula por algumas capitais do Nordeste.

Nos dias 27 e 28 de julho, acontecerá uma oficina das 14 às 18h, ministrada por integrantes do Coletivo. Os interessados deverão se informar sobre as inscrições através dos telefones (79) 3215-3064 ou 9956-7274.

A sede do Imbuaça localiza-se à rua Muribeca, 4 - Bairro Santo Antônio (no início da ladeira).

3 comentários:

Patricia Dantas Romero disse...

Em Aracaju, vez por outra, ocorrem intervenções culturais de qualidade. É uma pena que sejam pouco divulgadas ou restritas a um público específico, geralmente a própria classe artística ou imprensa. Quem não é das áreas mencionadas e não gosta de Pablo se f...Por isso gosto tanto do seu blog e do Progcult, agulhas no palheiro.

patricia romero disse...

Em Aracaju, vez por outra, ocorrem intervenções culturais de qualidade. É uma pena que sejam pouco divulgadas ou restritas a um público específico, geralmente a própria classe artística ou imprensa. Quem não é das áreas mencionadas e não gosta de Pablo se f...Por isso gosto tanto do seu blog e do Progcult, agulhas no palheiro.

Bangalô Cult disse...

Patrícia, infelizmente, por conta do Mestrado, estou escrevendo com menos frequência no Bangalô. Mas na medida, do possível, vou divulgando o que posso e acho que vale a pena conferir, mesmo que o tempo chuvoso, insista prá gente ficar em casa.
Estou preparando agora, uma matéria com Zezita Matos e divulgarei, até amanhã, o lançamento do segundo disco do café Pequeno. Fique ligada!!