terça-feira, 5 de março de 2013

30 Anos de "Sargento Getúlio" (o filme)

Orlando Vieira em cena de "Sargento Getúlio"

Corria o ano de 1983, quando um filme rodado em Sergipe, começou a deixar sua marca na cinematografia brasileira, com prêmios no Festival de Gramado e em outros cantos do mundo (Locarno e Havana ). Trata-se de “Sargento Getúlio” dirigido por Hermano Penna, cuja adaptação do livro homônimo de João Ubaldo Ribeiro, foi realizada pelo próprio escritor, juntamente, com Penna e Flávio Porto.

Protagonizado por Lima Duarte (Getúlio) e contando com um casting sergipano- Orlando Vieira, Amaral Cavalcante, Antônio Leite, entre outros- o filme foi rodado em 1977, no interior do Estado, mas só sentiria o contato com a tela do cinema, seis anos depois, período em que foi ampliado de 16 mm para o formato de 35 mm.

Passadas três décadas de seu lançamento, “Sargento Getúlio” será exibido em Canindé do São Francisco, nesta sexta-feira, às 19h, na Praça Ananias Fernandes, como uma forma de homenagear os participantes dessa empreitada. A iniciativa partiu do Grupo Raízes do Nordeste, de Poço Redondo, que junto com a prefeitura municipal de Canindé, uniu forças para realizar a projeção do filme e um debate com o diretor Hermano Penna e os atores Orlando Vieira (que interpretou o personagem Amaro), Antônio Leite e Amaral Cavalcante.

“Essa carinhosa manifestação aos 30 anos do ‘Sargento Getúlio’ teve origem na iniciativa do grupo Raízes do Nordeste, grupo de ação cultural de Poço Redondo, liderado por Val Santos, cantora e guerreira da cultura regional do sertão São Franciscano de Sergipe. E é Poço Redondo que numa atitude única e exemplar no Brasil, homenageia o cinema brasileiro tornando o ‘Sargento Getúlio’, Patrimônio Cultural da cidade. Fato que deve ser divulgado em prosa e verso para todo país. O filme tem uma relação tão profunda com Sergipe que é natural que todos se sintam patronos dessas homenagens. No caso de Canindé, a cidade é citada nominalmente numa das primeiras falas de Lima Duarte, logo no início do filme. Justificativa maior não há para a exibição acontecer nessa cidade”, explica o diretor.

Ambientado nos anos de 1940, o filme conta a história de Getúlio (Lima Duarte), um rude sargento que tem a missão de levar um prisioneiro, inimigo político de seu chefe, de Paulo Afonso (BA) a Aracaju (SE). No meio do caminho, em virtude de uma mudança no panorama político, o sargento recebe a ordem para soltar o prisioneiro, mas devido a seu temperamento avesso às mudanças, ele decide terminar a missão que lhe foi confiada, mesmo que tenha de matar para completá-la.

Durante um certo tempo, Getúlio consegue resistir ao enfrentamento das forças federais, por conta da ajuda do fiel escudeiro Amaro (Orlando Vieira). Porém, acaba sendo abatido no terceiro combate com elas.
Não deve ter sido fácil para Hermano Penna adaptar os longos monólogos do Sargento no livro para as telas, ainda que tenha contado com o auxílio de João Ubaldo para essa “cinematização”. Quando questionado se o filme, ainda hoje é reconhecido como um dos melhores da safra brasileira e de suas constantes comparações com a obra original, o diretor é categórico.

“Melhor do que o livro não é. ‘Sargento Getúlio’ é um dos cinco melhores livros da literatura de língua portuguesa, no dizer do ‘cometa’ Glauber Rocha. Mas se tenho algum orgulho é saber do apreço e carinho que João Ubaldo tem pelo filme, como demonstrou numa mesa redonda da Balada Literária realizada em São Paulo, em novembro passado. Acrescento que muitas outras homenagens estão sendo programadas para esse ano em todo país, inclusive, com a publicação de um livro contando a saga do filme”.

É uma pena, no entanto, que até hoje, o filme não tenha sido lançado em DVD (apenas foi digitalizado pela Programadora Brasil, projeto da Secretaria do Audiovisual para levar clássicos e cults nacionais em DVD apenas a universidades e centros culturais). Segundo Penna, há intenção de lançar “Sargento Getúlio” neste formato, mas para isso, a cópia precisa ser restaurada. “Estamos lutando para realizar essa operação, esse é o único entrave. E porque não, o Governo de Sergipe tomar essa iniciativa? Não custa muito. Seria uma forma de se associar à vontade do povo sergipano que se expressa com tanto carinho e apreço ao filme através dessas exibições”.

Com uma forte ligação com o sertão sergipano, tendo filmado nos anos de 1970, além de “Sargento Getúlio”, “Mulher no Cangaço”, o cineasta cearense voltou a Sergipe, há um ano e meio para realizar “Aos Ventos Que Virão” protagonizado por Rui Ricardo Dias ( de “Lula, o Filho do Brasil”), Luís Miranda e Emanuelle Araújo.

Com locações em Canindé e Poço Redondo e um orçamento em torno de R$ 2,4 milhões, o longa-metragem narra a trajetória de Zé Olímpio (Rui Ricardo), que após uma experiência como cangaceiro troca sua terra natal por uma vida nova em São Paulo, na construção civil. Ao voltar para sua região de origem, a fim de reconstruir o que lá deixou, ele entra na carreira política e vislumbra toda a fragilidade de caráter em torno das disputas pelo poder.

“O filme está totalmente finalizado e esperando ‘os bons ventos’ de uma boa distribuição. Nessa minha visita a Sergipe, pretendo discutir com o Governo do Estado, Secretaria de Cultura  e outros patrocinadores como o BANESE,  uma exibição do filme em Aracaju. Espero fazer isso ainda no primeiro semestre desse ano”, conta o diretor.

Quem sabe não vem por aí, um filme tão promissor quanto “Sargento Getúlio” ? É esperar para comprovar.
Postar um comentário