terça-feira, 12 de maio de 2015

Humor Agridoce é a Tônica do Novo Livro de A. C. Viana


Jeito de Matar Lagartas_capa_http://bangalocult.blogspot.com



"Jeito de Matar Lagartas" chegou sem muito alarde, às prateleiras das livrarias brasileiras, em janeiro deste ano. O lançamento oficial, com sessão de autógrafos, do mais novo livro de Antonio Carlos Viana, deverá acontecer somente em agosto. Nem por isso, a coletânea de 27 contos, tem deixado de fazer bonito no ranking de vendas de livros do autor sergipano, pela Companhia das Letras. 

Segundo Viana, apesar do pouco tempo de vendagem, "Jeito de Matar Lagartas" já teve melhor desempenho que os anteriores "O Meio do Mundo e Outros Contos" (1999), "Aberto está o Inferno" (2004) e "Cine Privê", este último, vencedor do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) 2009.

Confesso que até o terceiro conto, justamente o que dá nome ao livro, ainda não tinha mergulhado de cabeça nessa nova publicação. Mas aí, veio 'Amarelo Klimt', com aquela dubiedade toda e uma pitada de perversão. Fisgou-me. Lembrei das historinhas macabras de Otto Lara Resende em "Boca do Inferno".

Seguiram-se 'Dona Katucha' e 'Cara de Boneca'- o preferido do autor- e, não tive como frear a leitura. Sete contos adiante e deparo-me com 'Madame Viola faz Escova Progressiva", onde a personagem principal anseia pela morte do marido, para que ela possa, finalmente, viver e 'Um Traidor', em que Dona Maria Reina, uma sessentona solitária, usa da imaginação e da vista para o mar, para se distrair.

Creio que nessas duas histórias, em que Viana explora com maestria as angústias e frustrações das personagens na maturidade, ele demonstra perfeito conhecimento da alma feminina. Tanto assim, que uma experiência de contação dessas e outras histórias de "Cine Privê", feita pela sua editora, com presidiárias, revelou isso.

"Segundo a minha editora, Vanessa Ferrari, depois de ler alguns contos para as detentas, uma delas disse que era melhor parar, porque as histórias estavam lhe deprimindo e angustiando outras colegas. Engraçado isso, a ficção ser mais forte que a realidade. Mas confesso que vou apertando o torniquete, até o leitor perder o fôlego", diz Viana.

Ainda que nos conduza à asfixia, por vezes, o processo da leitura dá-se de forma prazerosa, já que seus "causos" são temperados por um humor agridoce e um erotismo equilibrado, independente da temática. São recorrentes em suas publicações a abordagem das descobertas da infância e da adolescência, a solidão, a morte e o desejo, mas é incrível como cada conto tem sua especificidade e imprevisibilidade.

"Penso que um conto que deixa entrever, lá pelo meio, o que acontecerá no final, é 'fósforo riscado'. Então, eu deixo, às vezes, até a última frase, para revelar o que o leitor ainda não sabe". Mas antes de colocar o ponto final em cada história, Antonio Carlos Viana lê, relê e refaz frases ou substitui palavras, incansavelmente. Conto pronto, agora é hora de passar pelo crivo dos amigos Paulo Henriques Britto, Anna Maria Vasconcelos de Paula, Maruze Reis e do filho, André Viana.

Só a partir daí, ele faz a seleção do que entra na coletânea e envia para a editora. Seu mais recente livro foi gestado  em Curitiba e finalizado às pressas, num período de 15 dias, em meio a um turbilhão de emoções e incertezas: ele receberia a notícia inicial de uma recidiva de câncer na próstata, para meses depois, descartar a primeira suspeita e confirmar  o diagnóstico de mieloma múltiplo (um tipo de câncer que afeta a medula óssea).

Em processo de tratamento quimioterápico, Viana pretende após o lançamento de "Jeito de Matar Lagartas", no dia 8 de agosto, na Livraria Escariz, também promover uma sessão de autógrafos em São Paulo. "É incrível como tenho um público cativo na capital paulista, de modo que um lançamento por lá, faz-se necessário", conta.

Com  um romance engatilhado e vários contos na gaveta, prontos para serem organizados, Viana  diz que em breve, mais um dos seus contos será adaptado para o audiovisual, por um cineasta pernambucano.  O cineasta paraibano Marcus Vilar já transportou para a telona, 'O Meio do Mundo'  e  'O Terceiro Velho da Noite'. Seria por conta do regionalismo marcante, em seus livros, o interesse desses profissionais pela adaptação cinematográfica ?

Talvez, sim. Porém, creio que o principal atrativo para os cineastas, seja o fato do escritor sergipano criar tramas visualmente ricas. Se conseguirem alcançar o contista, na sua delicadeza e complexidade, o público cinéfilo sairá lucrando e Viana, de quebra, ganhará novos leitores.

P.S. A bela foto de capa é de autoria de André Viana que registrou a antiga morada do pai, situada na Jabotiana

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