quarta-feira, 11 de julho de 2018

Nocaute Seco

Hannah_filme_Andrea Pallaoro_http://bangalocult.blogspot.com
 Charlotte Rampling imprime um tour de force em "Hannah"

Amanhã, entra em cartaz no Cinema Vitória (Rua do Turista- Centro de Aracaju), "Hannah", o segundo longa-metragem do diretor italiano Andrea Pallaoro. O filme, que participou da competitiva da 74a edição do Festival de Veneza, saiu do evento com o prêmio de Melhor Atriz, concedido a Charlotte Rampling, numa performance irretocável. 

A atriz inglesa já nos tinha presenteado com duas interpretações memoráveis neste século: como Marie Drillon em "Sob a Areia" (2000) de François Ozon e como Kate Mercer em "45 Anos" de Andrew Haigh (por essa atuação, Rampling recebeu o Urso de Prata de Melhor Atriz e foi indicada ao Oscar). Coincidentemente, duas personagens que saem de sua zona de conforto, quando têm que lidar com situações adversas em torno do casamento, aparentemente estável. 

Em "Hannah", não será muito diferente, porém mais angustiante. Durante 95 minutos, acompanhamos o cotidiano da personagem homônima, numa rotina preenchida pelo trabalho como empregada doméstica, as aulas de teatro e a natação num clube. Aos poucos, tomamos ciência de que o marido (André Wilms) cometeu um crime e foi condenado à prisão, ao mesmo tempo que esse ocorrido afastou Hannah  do seu único filho e do neto. Ainda que ela tente uma reaproximação, o filho (Simon Bisschop) a despreza. Mas Pallaoro, que assina o roteiro juntamente com Orlando Tirado, não revela tudo à plateia. Pelo menos, de forma taxativa. 

Em parte, ele confia a Charlotte Rampling, através de sua interpretação minimalista- com expressões e reações contidas-, a função de ativar nossa percepção para o que, de fato, orbita na vida da personagem, esvaziada de relações interpessoais, mas repleta de emoções represadas. Hannah vive na esperança de que algo lhe alente. Os momentos de ensaio para apresentação de uma peça ou mesmo a tentativa de relaxamento na piscina são tentativas de minimizar suas angústias alimentadas pelo medo da solidão e do desamparo. Mas o dia-a-dia lhe corrói a alma, pesa em seus ombros. O cachorro não quer comer, sentindo falta do dono; o filho não atende aos seus telefonemas; a certeza de que o marido é inocente, transforma-se em dúvida. 

Mas também, é pela maneira como constrói a mise-en-scène, com rigor, sem "gorduras", que o cineasta convida o público a espreitar a intimidade da protagonista, envolta em camadas. Se para o mundo, Hannah parece passar despercebida- ironicamente, o personagem que mais interage com ela, é o filho cego da patroa - é porque Pallaoro reforça essa sensação, na escolha dos enquadramentos; opta por uma paleta de cor insípida (contando com o auxílio luxuoso do diretor de fotografia Chayse Irvin) e se apropria dos ambientes em que a protagonista circula de uma maneira peculiar (mérito também da diretora de arte Marianna Sciveres).

"Hannah" é uma experiência voyerística angustiante, dolorosa, mas recompensadora (ainda que algumas perguntas não sejam respondidas). Graças a uma Charlotte Rampling iluminada, nesse combate entre realidade e negação, a luta é vencida por nocaute. No entanto, não é Hannah quem cai, ela que nos derruba...

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