sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira Explora a Natureza Humana

Nossa!!!! Não é fácil assistir a esse filme de Fernando Meirelles e sair do cinema sem estar com cabeça envolta em um turbilhão de pensamentos. Aqui, não interessa se é cego, se enxerga, se é negro, branco, de classe social mais alta ou da periferia. O que interessa é perceber o quanto nós, somos vulneráveis a situações limites: fome, limitação, privação sexual, etc.
Mas isso, muitos outros filmes já mostraram. O que teria esse de diferente ?
Antes de mais nada, é bom avisar aos internautas que eu não li o livro de José Saramago, do qual o filme se baseia. Fui com uma expectativa de ver um produto bom, acima da média, pelo que li na mídia nacional. Confesso que esperava mais, um resultado mais arrebatador, porém a direção de Meirelles é segura e cada vez mais distante da maioria dos diretores brasileiros.
Pontos Altos do filme: Fotografia única de César Charlone; música marcante de Marco Antônio Guimarães e Uakti; interpretação na medida de Julianne Moore e muito boa de Alice Braga, direção de Meirelles.
Pontos Baixos: talvez o fato de algumas cenas lembrarem o caos instalado em filmes como "Extermínio" (bom comparativo), "Fim dos Tempos" e "A Volta dos Mortos Vivos" (comparação duvidosa).
Um colega meu que estava ao meu lado, na sessão das 16h20 ( a primeira do dia foi suspensa, porque o filme chegou com atraso), disse que o livro é ligeiramente melhor, mais completo.
Para mim, que não li ainda, não ficou esse gostinho de quero mais. Ainda que na maioria das vezes em que se adapta um livro para as telas, os comentários negativos beirem esse ponto.
Depois de um mês de espera, é melhor vocês correrem para conferir esse filme inusitado, pois se ele depender do público para dobrar mais uma semana (na minha sessão tinha uma média de 20 pessoas), essa será a única.

Suyene Correia

4 comentários:

ranniery disse...

Olá, moça!
Sai do cinema com a sensação que Hollywood e Saramago não combinam!
Gostei mais da técnica que dos atores.
Mas é um bom filme, bem acima da média. Pena que Meirelles alivou muito!

Thiago Ranniery (sobrinho de Ana Márcia e amigo de Carlos Augusto)

Robson disse...

Suyene, aqui quem fala, digo escreve, é o colega que estava ao seu lado na exibição do CEGUEIRA. Concordo com você com relação aos pontos fortes e fracos do filme. Naquele dia, eu te disse ainda não saber o que pensar criticamente sobre o trabalho do Meirelles. É verdade que sai emocionado do cinema (não sei se deu para perceber meu estado meio atordoado...). Mas a emoção era mais fruto das recordações do livro, que o filme suscitou em mim, do que pelo filme em si.

CEGUEIRA, como era de se esperar, não nos proporciona a mesma profundidade e as mesmas nuances no tratamento do tema (qual seja: a necessidade de enxergarmos a degradante situação à qual chegamos, mediante a falta de solidariedade e a abundância de ganância da espécie) que o livro do Saramago apresenta. Mas o tom que o diretor, o roteirista e o elenco imprimiram ao longa é o mesmo que o Nobel de literatura coloca em seus escritos. CEGUEIRA, assim como o livro que lhe deu origem, é seco sem perder a ternura.

Penso que, a exemplo do que já tinha acontecido em O JARDINEIRO FIEL, algumas situações que mereciam mais tempo na tela foram tão rapidamente mostradas que perderam um bocado da dramaticidade que deveriam ter. Cito quais são elas: a cena em que a mulher do médico o encontra fazendo sexo com a moça dos óculos escuros, a cena do cachorro das lágrimas e a seqüência da Igreja. Passagens tão caras a quem leu o livro. Ficaram faltando ainda (pelo menos para quem leu a versão literária, e aí já entraríamos no mérito do que seria ou não uma livre adaptação cinematográfica...) o encontro com a vizinha da moça dos óculos escuros e o escritor.

Houve (para não dizer que não falei em flores) cenas que me encantaram imensamente ao passo que me deixaram igualmente perturbado: a cena da música de piano na rua, a hora em que o primeiro cego encontra sua mulher no campo de concentração e o momento em que ele volta a ver, o banho das mulheres na chuva e a derradeira cena. Fez também um efeito bacana a narração em off do homem da venda preta.

Admirável o uso de lentes, espelhos e luzes e posicionamentos de câmera. Já não digo o mesmo da direção de arte: se houve acerto na recriação do infernal campo de concentração, o caótico cenário da cidade suja parecia um tanto quanto “desorganizadamente organizado”.

O elenco está na medida certa. Começando por Juliane Moore. E a medida dela não é pequena. Contudo os intérpretes que mais me emocionaram foram os asiáticos. Talvez, de todos os atores, aquele que não conseguiu encontrar o caminho mais adequado para sua atuação tenha sido o Gael Garcia Bernal.

Faço aqui loas à direção do Fernando Meirelles. Com CEGUEIRA ele atinge um grau de sobriedade particular na carreira. Tomara que continue assim e que vá melhorando para melhor...

Num balanço geral: CEGUEIRA é um filme honestamente razoável. Poderia ser melhor se maiores não fossem suas pretensões. Afinal, devemos julgar as obras de arte na medida daquilo que elas tentaram ser. Assistir ao seu lado o melhorou. Espero poder nos encontrarmos mais vezes por essas sessões da vida.

Para terminar uma provocação: o que você quer dizer quando escreve que cada vez mais o Meirelles “dirige como um cineasta não brasileiro”? Existe, em sua opinião, um modelo internacional que nossos diretores não seguem? Este modelo é melhor? Nossos cineastas têm um modelo de direção pior do que o praticado lá fora? Ainda faz sentido, numa época onde a globalização atinge até mesmo o fazer artístico, falar em modelo americano, francês, italiano, espanhol, chinês ou belga de dirigir? Espero resposta. Abraço.

Robson disse...

Este comentário nada tem a ver com o CEGUEIRA. Acontece que eu lembrei do seguinte: no dia em que assistimos ao filme do Meirelles você me perguntou quando eu iria assistir OS DESAFINADOS, do Walter Lima Jr. Pois bem: domingo, nada para fazer, vontade como sempre de pegar um cineminha ou ao menos um dvd interessante (e olhe que eu estou aqui em casa com 5 bastante interessantes: O RAIO VERDE, de Eric Rohmer (filme este que mora no meu coração), A NOITE DE SÃO LOURENÇO (intensamente poético), de Paolo e Vittorio Taviani. MÔNICA E O DESEJO de Bergman e A CONVERSAÇÃO, do Coppola (quando ele ainda era um cineasta irrepreensível). Optei pelo cinema e fui em busca de OS DESAFINADOS.

Olha, numa boa, adoro Bossa Nova. É um ritmo indispensável para o entendimento daquilo que entendemos por música brasileira. Emociono-me escutando Tom, Vinicius e tantos outros mais ou menos célebres que fizeram a história do ritmo. Mas tudo em demasia faz mal. Graças ao bom Deus um ano só tem 12 meses e não 24 ou 36 ou 48. Não agüento mais essa overdose de Bossa. OS DESAFINADOS veio para fazer parte do coro que canta o hino do elogio a esse estilo tão carioca, tão verde e amarelo, tão praia e violão e barquinho e moça passando e o entardecer que é tão bonito...

Não cheguei a desgostar do filme. Gostei com reservas. Para um trabalho que se chama OS DESAFINADOS, parece que o Walter Lima Jr. optou por desafinar ele próprio e seu elenco. Aguardei tanto por eles e no fim... Veja só.

Contudo, faz parte da vida ter desses revezes, já diria o compositor. E eu seria um desumano se não levasse em conta que no peito dos desafinados também bate um coração. Se não me apaixonei incondicionalmente pelo filme, ao menos me quedei por uns bons minutos na cadeira do Cinemark. Prender-me na cadeira é um dos indícios de que o filme está, na medida do possível, prendendo minha atenção.

E você? Assistiu OS DESAFINADOS? Até mais!

PS: Este é o segundo comentário que escrevo para você hoje. Depois de descobrir teu Blog não vou mais parar de te enjoar! Rsrsrsrs.

Robson disse...

ANTE DE MAIS NADA: No comentário anterior, quando disse ser alívio um ano ter apenas 12 e não 24 ou 36 ou 48 meses, me referia a este ano, cinqüentenário da Bossa Nova.

E ENTÃO... Estava aqui de bobeira, dando uma olhada em alguns blogs de uns caras que admiro pela maneira sincera e sem julgamentos sumários com que analisam os filmes que assistem. Acho isso de vital importância. O gosto é algo extremamente relativo (e o que não é nesta vida?). O que é bom para mim, pode não ser bom para você. O que é bom para mim hoje, amanhã poderá não ser. E o que hoje para mim é ruim, amanhã poderá ser nada mais nada menos do que o “supra-sumo do trash Cult” (Tarantino, Cronemberg e meu guru transcendental Lynch, bem sabem do que estou falando; reciclando lixo cultural eles nos legaram filmes geniais). Tudo é uma questão de perspectiva própria ou alheia. É permitido descer a lenha, mas devagar para não doer, rsrsrsrs. Aí, onde eu estava mesmo?..., rsrsrsrs, ah sim! De bobeira, lendo alguns blogs, encontrei este texto do Inácio Araujo sobre o LINHA DE PASSE, que você tanto admirou (espero que ainda não tenha lido o que vem a seguir, gosto de soar inédito, rsrsrs):

“O filme do Walter Salles é dos melhores dele em vários aspectos, por exemplo a condução dos atores.
Mas a respeito dele foi a Márcia Pastore, minha amiga escultora, quem disse o que de mais certo escutei. Ela preferia que o filme focalizasse uma família de motoboys, ou de crentes, ou de futebolistas.
Como ficou – e ainda com a mãe faxineira -, ficou um mostruário da S. Paulo periférica, uma espécie de amostra grátis da variedade do brasileiro pobre e honrado, desses que nunca chegarão a “pessoa humana”, segundo especificações do STF, o que na real significa: pode baixar o pau e botar algemas que a Justiça aí vai se fazer de morta.
Sim, também pensei que seria muito mais interessante três ou quatro irmãos crentes. É bem mais fascinante, pois há diferenças entre eles, tensões, etc. E ajudaria a compreender a penetração muito grande dessas seitas e seu papel junto aos pobres.
O André Singer, que é sociólogo, escreve um estranho artigo, na Folha, dizendo que a função central do filme é informar ao topo da pirâmide como vive a base. É isso mesmo que o cinema se transformou: uma arte de elite. Para ela compreender como vive sua faxineira, vai ao cinema. Por quê? Não tem capacidade de conversar com ela, de olhar para as pessoas à volta? É quase certo, e é de assustar.
Do ponto de vista do cinema, porém, isso é muito limitativo. Primeiro, reentroniza a suposição de identidade entre realidade e representação. Isso remete nossos filmes à idade média, quase. Mas é o que lhes sobra como “função social”. Esse é um impasse terrível.
Dito isso, o filme tem uma leveza e um lirismo, uma sincera admiração por essas pessoas que sobrevivem a tantos infortúnios, que acaba arrastando a nossa simpatia. A minha, pelo menos.
Agora, entre um Walter e outro vai uma distância. O Lima só faz direito cinema. Quando o filme entra em política, mesmo que marginalmente, se ferra. O Salles, ao contrário, tem um discurso sociológico ali na ponta da língua. Por isso eu prefiro o filme americano dele, me parece o melhor, é o único que não tem teoria, por isso talvez ele se deixou levar pelas coisas e não pelas idéias.”

Gostaria de comentar? Espero não estar sendo chato à beça, rsrsrs.