sábado, 27 de fevereiro de 2010

As preciosidades de uma tal de Claireece



Tudo que li antes sobre o filme "Preciosa" é pouco frente às imagens que o diretor Lee Daniels nos oferece. Aliás, diria que não conferi nenhuma crítica que chegasse perto da violência sofrida pela adolescente Claireece "Preciosa" Jones (Gabourey Sidibe), uma  negra analfabeta, portadora de obesidade mórbida, grávida de seu segundo filho (ambos frutos de violência sexual paterna) e que não tem um minuto de paz em casa, por conta de uma mãe (Mo'Nique) que precisaria nascer de novo, para que o instinto maternal lhe fosse apresentado.

Aliás, como dizia o falecido Eric Rohmer "o cinema não é feito para 'pensar', nem para 'dizer' e sim, para 'mostrar'". Se por um lado Daniels parece concordar com a afirmação de Rohmer, decodificando  com domínio preciso os sentimentos das pessoas envolvidas na trama (entre as quais a raiva, a compaixão, a esperança, o desejo, o apego, o desapego, o amor, a irracionalidade)  com belas e feias imagens...Também contraria o mestre francês, fazendo com que saiamos da sala de cinema desnorteados mentalmente, com tantos questionamentos e discussões levantadas pela película.

O cenário de tanta desgraça (e até os 120 minutos finais, ainda há de acontecer mais) é o  mundialmente conhecido Harlem, bairro nova-iorquino de efervecência cultural. É lá, no final dos anos 80, num apartamento claustrofóbico, que Preciosa sobrevive com a mãe às custas de uma pensão e de um auxílio-desemprego. Escurraçada na escola - por conta de sua aparência e de sua limitação intelectual- e violentada no ambiente onde vive - verbalmente, fisicamente e sexualmente- a adolescente se utiliza de sua fértil imaginação para "fugir", nem que seja por breves segundos, da realidade.

Nos seus devaneios, ela tem um namorado bonito, é uma atriz famosa e vive num mundo glamouroso, mas como o que é bom dura pouco, a aspereza da realidade é sentida novamente  na pele a cada despertar dos sonhos. Sua vida, porém, começa a tomar um rumo diferente, quando muda de escola (por conta de sua segunda gravidez) e é encaminhada para uma escola alternativa.

Graças à determinação da professora primária Blue Rain (Paula Patton), Preciosa começa a ler e escrever e, aos poucos, se libertar do mundo cruel da sua morada. Sentindo-se ameaçada por conta do progresso da filha e prestes a perder os benefícios concedidos pela assistência social, a mãe da garota,  tomada pela coléra, parte para o último 'round' com Preciosa, recém-chegada da maternidade e com o filho no colo, numa das cenas mais impactantes de violência dos últimos tempos no cinema (Mo'Nique se consagra como uma execlente atriz, favoritíssima à estatueta dourada desse ano).

Após a briga, Preciosa vaga pelas ruas do bairro, num dia gélido, até procurar abrigo na escola onde estuda. Acolhida, incialmente pela professora Blue Rain e sua namorada, a adolescente posteriormente vai para um abrigo para sem-tetos. Tudo parecia bem, até a visita de sua mãe com uma notícia reveladora nada agradável.

Mas quando o público pensa que Preciosa vai esmorecer (ainda que, inicialmente, ela fique bastante deprimida com a revelação), Daniels dá um looping no roteiro, adaptado do livro "Push" de Sapphire (Ramona Lofton). Como diz o ditado "a esperança é a última que morre", mas nesse caso, ela é sinônimo de vida e até uma certa longevidade.

Nota: O filme recebeu seis indicações (Filme, Direção, Atriz, Atriz Coadjuvante, Roteiro Adaptado e Edição)

Texto: Suyene Correia

Legenda da Foto 1: Mo'Nique faz o papel da mãe de Preciosa e dificilmente não levará o Oscar para casa numa atuação inesquecível 

5 comentários:

AD disse...

Gostei da sua análise do filme, vou ver amanhã.

Fátima Lima disse...

Realmente "Preciosa" é um "susto na existência" do ponto de vista da his(es)tória que se conta (roteiro). Do ponto de vista da interpretação a atriz Mo´Nique ( mãe de Preciosa) é um show de interpretação. Se a academia for lúcida ( coisa que nem sempre acontece) ela não perderá o prêmio de melhor atriz coadjuvante. No entanto, refletindo sobre o pensamento de Rohmer, discordo que o cinema seja feito apenas para mostrar. Não há produção de imagem sem produção de sentido e produzir sentido é por si só pensar e colocar o pensamento em ação. Isso daria um excelente debate. Outro fato é que do ponto de vista social, antropológico, histórico e psicológico não existe instinto materno, a maternidade é uma construção onde infelizmente na his(es)tória de Preciosa foi "construída" com tanta crueldade. Parabéns pelo texto instigante. Texto instigante, vontade de postar também instigante.

Bangalô Cult disse...

Daí, porque ela precisaria nascer de novo, para que "essa construção" da maternidade pudesse (quem sabe) acontecer.

claudia disse...

Antes de assisti o filme, eu li alguns comentários, inclusive o seu, na minha opinião em poucas palavras sua analise foi muito fiel ao que acontece no filme.

Bangalô Cult disse...

Valeu, Claudia!!!
Também ja´conferi "Nine" e "Simplesmente Complicado".
Preferi o de Meryl Streep ao de Daniel Day-Lewis.
Talvez entre "Educação" em breve por aqui.
Bjs