segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Trinca de Ases



Poderia falar de cada um separadamente, mas decidi colocar numa só postagem minhas impressões sobre os três filmes que assisti no último fim de semana. "É Proibido Fumar",  segundo filme da diretora Anna Muylaert,  está sendo exibido no Cine Cult, diariamente, às 14h, no Cinemark Jardins e é um achado.

Premiadíssimo no 42o festival de Brasília (ganhou 9 Candangos), o filme traz nos papéis principais Paulo Miklos (Max) e Glória Pires (Baby) como dois vizinhos que, no decorrer da trama, tornam-se namorados. Unidos pela música e pelo desejo de encontrar a sua cara metade, eles só têm que driblar o "inimigo" cigarro, do qual Max tem aversão, mas Baby parece ter dificuldades em largar.
Aliás, como coadjuvante, o tabaco tem importância fundamental na reviravolta da trama, transformando a história inicialmente cômica, num misto de drama e humor negro. No entanto, com maestria, a roteirista e diretora Muylaert  dosa bem esses elementos, alcançando um resultado final que passa longe do clichê.

Destaques para a trilha sonora assinada por Márcio Nigro, para a montagem que ficou a cargo de Paulo Sacramento e a Direção de Arte assinada por Mara Abreu. Além disso, a câmera de Anna Muylaert se esgueira por locais inusitados, imprimindo a sensação de voyer no espectador, como há muito não era alcançada por um filme nacional.  Sem dúvida, uma película para ser conferida.

Assim como vale a pena ser visto o filme "A Teta Assustada" de Claudia Llosa que foi exibido na Sessão Notívagos, sábado, à noite, e em breve deverá entrar em cartaz no Cine Cult. Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2009 e concorrente ao Oscar de Filme Estrangeiro desse ano, o filme é cheio de simbolismos.

O título em questão faz uma alusão a uma suposta doença transmitida pelo leite materno, que afeta filhas de mulheres que foram violentadas, no Peru, entre as décadas de 1980 e 2000, quando o terrorismo tomou conta do país. No caso, Fausta (Magaly Solier), uma índia quíchua, acredita ser vítima dessa doença do "medo", e por isso, chega ao extremo de se resguardar de um possível estupro, colocando uma batata no canal vaginal.

Como se não bastasse viver com esse drama, ela, que mora na periferia de Lima,  precisa arranjar dinheiro para enterrar a mãe no seu povoado de origem. É a partir do momento que Fausta vai trabalhar numa mansão de uma pianista de renome- Aída (Susi Sánchez)- que os contrastes sociais  e culturais serão explorados pela cineasta. 

Um dos pontos altos dessa exposição é a cena das cerimônias de casamento  kistch realizadas pela tia de Fausta na zona pobre da cidade. Momento raro de humor, neste filme melancólico, delicado e de uma subjetividade ímpar.

Finalizando a "trinca de ases", o novo filme de Peter Jackson, "Um Olhar do Paraíso", que para muitos críticos é exageradamente ficcional. Concordo que Jackson usou e abusou dos efeitos especiais para compor o universo etéreo em que Susie Salmon (Saoirse Ranon) encontra-se após sua morte. Mas como não fazê-lo ? Pois não daria certo falar de morte na adolescência com um tom soturno e Jackson e sua empresa Weta Digital capricharam na paleta de cores. 

Muito além do visual, "Um Olhar do Paraíso" se sustenta pelas interpretações de Ranon (essa menina ainda vai longe...) e Stanley Tucci, que interpreta o assassino George Harvey, papel  que lhe valeu uma indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante desse ano.

É Susie, que já morta, nos conta a sua história de adolescente feliz, que prestes a viver a primeira paixão, tem sua vida abreviada pelo vizinho serial killer. Através de sua narrativa, ela divide suas angústias com  o público, sendo a principal delas, o desejo que seu algoz seja desmascarado. Enquanto isso não ocorrer, ela não poderá experimentar plenamente o universo que parece ser o "paraíso" em questão.
Essa inquietude que permeia a trama, de uma certa forma, é o equilíbrio encontrado por Jackson, para que nós não esqueçamos de fato que ocorreu um assassinato. Por mais que nos deslumbremos com o mundo  surreal em que Susie está aprisionada, o real é o que mais importa. É no âmbito do terreno, que iremos acompanhar o esfacelamento da família da garota concomitante à luta do pai e da irmã para chegar ao culpado.
Pode não ser "Um Senhor dos Anéis", mas "Um Olhar do Paraíso" está longe de decepcionar os fãs do diretor neozelandês.

Texto: Suyene Correia

Legenda da Foto 1: Baby (Pires) não imagina o quanto será difícil largar o cigarro

Legenda da Foto 2: A personagem Fausta tem que driblar seus medos, caso contrário não terá chances de sobreviver à contemporaneidade
Legenda da Foto 3: Saoirse Ranon  revela-se uma atriz de primeira grandeza em "Um Olhar do Paraíso"


2 comentários:

Fátima Lima disse...

Concordo em gênero, grau, mas não em número (risos...) Faltei " Um olhar do Paraíso " para completar minha trinca... Mas fui de dupla nesse final de semana e valeu a pena...Excelentes apreciações e dicas...

claudia disse...

Dos três eu assisti apenas "Um Olhar do Paraíso", como fã de Peter Jackson realmente não fiquei decepcionada..., mas acho que ele exagerou nos efeitos...rsrsrsrs... Falando de outro comentário seu...tem toda razão sobre a estalactite "assassina" ... realmente supera o beijo "redentor"...abraços