quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Margueritte Durrel estreia no Bangalocult

A partir de hoje, o Bangalocult, contará com a colaboração preciosa de uma leitora frenética, Marguerrite Durrel. Nascida no Brasil, na década de 1960, com pouco mais de três anos  foi morar em Paris, sortuda que é, terra de seus ídolos, como Flaubert, Simone de Beauvoir, Montaigne, entre outros. Ainda adolescente, começou a frequentar a Shakespeare and Company, fundada por Sylvia Beach e aprendeu a apreciar também, a literatura de língua inglesa tão bem representada por figuras como James Joyce, F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway.

Atualmente, a poliglota aposentada, divide o tempo em viagens pelo mundo e garimpando novos escritores (por novos entenda-se, aqueles que ainda não tem um título no seu acervo de quase cinco mil livros de vários idiomas). Da terra natal, que visita a cada dois anos, aprecia mais a riqueza literária (Drummond, Lispector, Lygia Fagundes Telles, Graciliano Ramos e Machado de Assis) do que propriamente o clima tropical (só visita as bandas de cá, durante o inverno). Também, na sua discoteca imensurável, é possível encontrar desde trilhas sonoras e música erudita, a muito jazz, música francesa e MPB (ama a Bossa Nova).

Foi a partir de minha viagem a Paris, em outubro, que ficamos amigas. E depois de muito insistir, ela aceitou o desafio de escrever (quando puder) sobre suas leituras, que cada vez mais privilegiam histórias tupiniquins.


PROCURA-SE JOÃO GILBERTO DESESPERADAMENTE

Por Margueritte Durrel

Amantes das letras e da boa música, e, principalmente, fãs ardorosos de João Gilberto, terão sorte se algum amigo secreto presenteá-lo nesse Natal com o livro do escritor e jornalista alemão Marc Fischer, “Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto”, publicado recentemente pela Companhia das Letras.

Marc Fischer apaixonou-se por João Gilberto e pela bossa nova logo após ser apresentado ao disco “Ho-ba-la-lá”, de 1959, por um amigo japonês. A paixão foi tanta, que o levou ao Rio de Janeiro à procura do artista. Queria ouvi-lo cantar “Ho-ba-la-lá”.

Mas quem conhece João Gilberto sabe da dificuldade da empreitada.  Sua fama de irascível, misantropo e de não comparecer aos shows é tão grande quanto a idolatria dos admiradores. Conseguirá o autor encontrá-lo?

Para contar sua estória, o jornalista cria um clima de suspense e, juntamente com o seu Watson – na verdade, sua amiga Rachel – sai em busca dos amigos e companheiros de bossa nova do supostamente inalcançável artista. 

As conversas descontraídas com João Donato,  Marcos Valle, Miúcha, Roberto Menescal, bem como a jornalista Claudia Faissol, com quem João Gilberto tem uma filha, entre outros, faz emergir um perfil complexo. Em alguns momentos surge um João Gilberto enigmático, profundamente sensível e espiritualizado; em outros vê-se a face do artista atormentado, até mesmo egocêntrico e  vampiresco.

Em sua busca, o escritor não mede esforços, viaja a Diamantina para conhecer a casa onde o artista morou com a irmã na década de 1950. Tranca-se no  banheiro cuja  acústica era capaz de produzir o som “perfeito” e conhece personagens pitorescos que até hoje se recordam do tão ilustre morador.

Não conto mais, para não estragar o prazer da leitura. Porém, não posso encerrar sem dizer que o livro, além de ser um tributo a João Gilberto é um belo exemplo de Jornalismo Literário. A narrativa remete ao texto “Frank Sinatra está resfriado”, perfil realizado pelo escritor e jornalista Gay Talese, do cantor Frank Sinatra, após inúmeras tentativas frustradas de fazer uma entrevista com o mesmo.

Um dado inusitado, é que o autor morreu dias antes de ser lançado, em alemão, "Ho-ba-la-lá- À procura de João Gilberto".
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