quarta-feira, 24 de outubro de 2012

"Sequestro", "Pântanos", "Renoir" : boas surpresas na 36a Mostra


Somente ontem, no 4º  dia da Mostra, foi que saí satisfeita após as sessões. Foram quatro filmes (três estrangeiros e um brasileiro- da lista que tenho que cumprir) que oscilaram entre o conceito de  bom (“Prá Lá do Mundo” de Roberto Studart) e excelente (“Além das Montanhas” de Cristian Mungiu).

Quando a gente escolhe um filme para assistir, em meio a uma lista tão diversa e extensa, dá-se um verdadeiro tiro no escuro. O alvo (a satisfação) pode ser muito difícil de alcançar na maioria das vezes, mesmo que você some as variáveis: prêmios em festivais + apreciação da crítica + boca a boca do público.  O mais prazeroso, no entanto, é quando você não leva nada disso em conta, deixa-se influenciar pelas sinopses e percebe que acertou “na loteria”.

Aconteceu isso com três filmes que vi até o momento: o dinamarquês “Sequestro” de Tobias Lindholm , o canadense “Pântanos” de Guy  Édoin e o francês “Renoir” de Gilles Bourdos. O primeiro  conferi  na tarde de segunda-feira e faz parte do grupo de filmes que compete na categoria de Novos Diretores.

É o segundo filme de Tobias, que já tem no currículo, a co-autoria dos roteiros de “Submarino” e “A Caça” ambos do badalado Thomas Vinterberg. O que mais me impressionou   no filme desse dinamarquês, formado há cinco anos na Escola Nacional de Cinema de seu país, foi como ele controla o nível de tensão ao longo da projeção.

Mais da metade dos 110 minutos de rolo, passa-se no cargueiro MV Rozen, que foi tomado por piratas africanos no Oceano Índico. As figuras centrais nesse ambiente serão o cozinheiro Mikkel e o “intermediador” Omar, enquanto que em terra firme, acompanhamos a atuação do engenheiro naval Jan, um dos chefes da empresa proprietária do cargueiro sequestrado e que terá a incumbência de  negociar com os bandidos.

Tobias trabalha de tal maneira o conflito psicológico entre as partes envolvidas, que vemo-nos muitas vezes, no lugar de Jan ou de Mikkel, em estado de impotência.  Mas ao contrário do que poderia acontecer, se a produção  fosse norte-americana ou brasileira,  aqui não há lugar para pirotecnia e exploração barata dos sentimentos de ódio , culpa e desespero dos personagens.  Filmaço a ser descoberto.

Já “Pântanos”, coloquei-o na lista de ontem, por dois motivos: o fato de ser canadense (filmografia pouco difundida por aqui) e pela história. Incluído na Mostra Perspectiva Internacional, o primeiro longa-metragem de Guy Édoin, sustenta-se pela constante eminência de tragédia que paira no ar.
Um casal e seu filho adolescente tocam uma fazenda de gado leiteiro no interior do Canadá. A seca promete castigar a região nos próximos meses e o patriarca não sabe como lidar com o problema, já que está endividado e pode perder a propriedade, caso não encontre logo uma nova fonte de água para abastecer o local.

O filho Simon, por vezes, fica alheio a essa problemática, assim como os pais focados no trabalho,  são displicentes com a educação e o amadurecimento do garoto. Nutrindo um forte sentimento pela mãe e uma atração por rapazes, ele será o personagem desencadeador do ponto de viragem da trama. E quando pensamos que não haverá mais solução para os crescentes problemas que surgem na vida  dos fazendeiros, eis que Édoin nos surpreende com um desfecho  arrasador.

“Renoir” foi o quarto e último filme de ontem (pela manhã, participei da cabine de “Além das Montanhas”, que pretendo comentar em outra postagem e ainda vi, à tarde, “Prá Lá do Mundo”). Por incrível que pareça, não estava cansada quando comecei a vê-lo, por volta das 22h.  E se nunca fui muito fã do trabalho do pintor Auguste Renoir, a partir de agora, verei suas obras com outro olhar.

O filme se passa no ano de 1915, quando Renoir já padecia de uma artrose feroz e não apresentava mais a acuidade visual precisa para pintar. No entanto, apesar das adversidades, ele continuava produzindo, inspirado pela exuberante luz da Côte d’ Azur e pelas suas jovens modelos, sendo sempre amparado por um time de “fiéis escudeiras”.

A última modelo do pintor, Andrée (que se tornaria depois, esposa de seu filho Jean Renoir e atriz de cinema) é um dos principais personagens da trama. A jovem  despertará a paixão em Jean , quando ele retorna ferido  da guerra; no pai, Auguste, por conta de sua beleza e sensualidade (como modelo e mulher) e no irmão mais novo, Claude, que desprezado pelo pai e órfão de mãe, projeta na figura de Andrée, uma possível fonte de afeto.

A partir dessas relações, Bourdos vai pincelando a tela de projeção, ora com tintas mais fortes, ora com cores mais suaves. Amparado por bons atores ,  uma  soberba direção de fotografia assinada por Mark Ping Bing Lee  e a sempre competente trilha composta  por Alexandre Desplat, “Renoir” é  uma daquelas obras para ver e rever, mesmo que o espectador  não seja apreciador da obra do pintor.
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