segunda-feira, 12 de abril de 2010

Na Chuva, na Rua e... sem a Casinha de Sapê

D. Maria não tinha mais forças para se desesperar. Fatigada depois de quase dois dias sem dormir- tendo que realizar uma operação emergencial de salvamento das roupas, da cama, dos filhos e dela mesma- desabou embaixo de uma marquise, porque casa, não tinha mais.

Aliás, a última casa da D. Maria, que conseguiu ficar de pé por exatos oito meses, era se sapê, mal ajambrada, mas era o seu teto. Porque melhor um teto daqueles, do que uma marquise hoje e um relento amanhã. Mas desde que saiu do interior com os quatro filhos e veio para capital morar na periferia, não sabia o que era sossego. 

A rotina de mudanças se devia por conta das "forças da natureza". Quando não era o vento, era um "combo" de ventania, aguaceiro e delizamento. Dessa vez, estava no nível do mar e não se sobressaltou como da penúltima vez, em que num misto de pesadelo e realidade, quando acordou, já estava com a perna prá fora da janela, suspensa num desfiladeiro.

Ainda que em "terra firme", D. Maria não teve suas orações atendidas e "porque Deus quis assim", ela agora estava espremida debaixo daquela marquise, junto com outros vizinhos, que apesar da vontade, não tinham como ser solidários. Os filhos, todos agachados em torno dos poucos objetos que foram salvos, para sua sorte não eram pequenos demais. Sabiam se virar sozinhos e ao contrário do que acontecera no passado, Maria agora não perdia tanta coisa. 

Perdia um microsystem, mas salvava o liquidificador. Um colchão ou outro boiando pela casa e a manta sendo escorada na cabeça para não encharcar. A trouxa de roupa, ela fazia com agilidade porque trabalhava no ramo. Uma vez  pronta, colocava na cabeça da mais nova, que só tinha 12 anos, como única tarefa (e preciosa) para ela realizar.   

Os outros filhos que eram maiores,  aproveitavam para enrijecer a musculatura, erguendo cadeiras, estrados de cama e até fogão. Na verdade, ela observava meio torporosa, tudo aquilo avariado ao seu redor e não sabia ao certo se fazia sentido andar com aquela tralha toda, sejá lá para onde fosse.

Foi nessa hora, quando estava com o cérebro encharcado de incertezas, que ouviu um rapaz do seu lado dizer, que a prefeitura da cidade estava providenciando alojamento em hotéis para famílias que moravam em 
um condomínio da zona sul. O homem disse que tinha sido a justiça que havia determinado isso e que as famílias "ilhadas" do condomínio teriam escolha em morar um tempo, até de aluguel.

O problema é que D. Maria morava na zona oeste da cidade da "qualidade de vida", não sabia nem onde ficava essa tal "zona de expansão" que seria beneficiada. Trabalhava em casa mesmo, como lavadeira e não entendia como a matéria prima para o seu sustento, também servia, quando em profusão, para a suas constantes derrocadas. 

Agora, o que ela não entendia mesmo, era porque quando essa tragédia toda acontecia com ela e tantas pessoas que conhecia, os "doutores" demoravam a acudir (ou simplesmente não o faziam). Mas não carecia de ficar pensando nisso não, que a dor de cabeça já estava se instalando na massa branco-acinzentada.

Era esperar a chuva amainar, para carregar o fardo de novo nas costas e quem sabe recomeçar. Talvez andasse um pouco mais dessa vez, para encontrar um canto que lhe trouxesse uma segurança maior no futuro. Ficou pensando, ali encolhidinha, qual o caminho seguir para "expandir" seus horizontes...

Texto: Suyene Correia

3 comentários:

florestavera disse...

Amiga, a sua sensibilidade é comovente. Você escreveu o que eu gostaria de escrever. A sua dor é a minha. O que fazer com tantas Marias? Tenho vergonha por ter tanto e não ser suficientemente grata a Deus. Neste momento estou muito bem alimentada, num teto seguro, com cama quentinha. Meu Deus, não mereço tanto!
Deixa-me sentir um pouco da dor das Marias e dos Josés também. Tem tanta coisa que não entendo. Que Deus proteja as Marias e os Josés, e esqueça um pouco dos "manés". Namastê

Henrique disse...

Mandou bem, Suyene!! Quem tem coragem de molhar a bainha da calça torna mais fácil a missão de fazer juízo e decidir sobre a vida das pessoas.
Bora sair dos gabinetes, moçada, vocês são de outra geração, e podem mudar a história - se quiserem.ti

Marcos Vinicius Gomes disse...

Olá,
você é corajosa em ser auto-crítica de sua própria cidade...
Estive aí em Janeiro último e o que me incomodou um pouco na cidade foi o pouco senso crítico de alguns habitantes aracajuanos. Existe uma coisa meio paranóica com este estigma de 'qualidade de vida' (real, mas a vida não é apenas qualidade), da cidade sem favelas (ou seriam ocupações?). Reconhecer os defeitos é o melhor antídoto para a busca de soluções. Aracaju é ótima, o povo idem e merece melhores administradores que vejam a cidade como um todo e não sejam divulgadores de slogans inverídicos