domingo, 18 de novembro de 2012

"Era uma Vez Eu, Hermila"

Uma Vez Eu, Verônica_cena do filme_http://bangalocult.blogspot.com
Verônica e Gustavo tentando se acertar em pleno carnaval

Foi no ano de 2006, por ocasião do lançamento do filme "O Céu de Suely" de Karim Aïnouz, em Aracaju, que entrevistei a pernambucana Hermila Guedes. O bate papo ocorreu no hotel, pouco antes dela embarcar para Recife. Ali, eu já profetizara que o Brasil  iria ouvir muito falar de Hermila, por conta de seu talento na arte de interpretar. Parece que eu tinha razão.

Tendo feito uma participação em "Cinema, Aspirinas e Urubus" de Marcelo Gomes e ganho vários prêmios protagonizado Suely, no filme do Karim, foi na televisão que a jovem atriz, acostumada com os palcos pernambucanos, ganhou visibilidade, ao viver Elis Regina no especial "Por Toda a Minha Vida" da Rede Globo. Depois disso, marcou presença nas novelas "Ciranda de Pedra", "Amor Eterno Amor" e na minissérie "Força Tarefa".

No entanto, é na telona, que Hermila parece encontrar o tom certo, quando bem dirigida (esqueça aquele "papelão" que arranjaram prá ela em "Assalto ao Banco Central"). Se não vejamos, "Era uma Vez Eu, Verônica" em que novamente é dirigida por Marcelo Gomes e contracena com João Miguel.

O filme, que entrou em cartaz em algumas capitais do país, na última sexta-feira, foi um dos brasileiros que conferi na 36a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Não sou muito atraída pelos títulos nacionais, em eventos dessa magnitude. Priorizo os estrangeiros, sobretudo as produções de países como Canadá, Dinamarca, Austrália, Argentina, Alemanha, entre outros.

Duas coisas porém, atraíram-me àquela sessão verpertina, no Espaço Itaú Frei Caneca, do dia 25 de outubro:  o fato da produção ter ganho alguns Candangos no 45o  Festival de Brasília (incluindo Melhor Filme e Roteiro) e da atriz voltar a interpretar um personagem tão complexo. Minha aposta foi certeira.

Ainda que o filme tenha algumas questões que me incomodam, como a insistente voz "interior" da protagonista, em off, que teima em pontuar a narrativa e um João Miguel completamente apático como Gustavo (namorado de Verônica), "Era uma Vez..." é  obrigatório para o público mais exigente, quando o assunto é cinema nacional.

Verônica é uma médica psiquiatra, recém-formada, que vive uma crise existencial, onde questões profissionais e afetivas têm lhe afligido muito. Ao mesmo tempo que ela quer ser livre, sente necessidade de namorar sério; a Medicina ensinada nos bancos da Universidade não é a mesma que ela põe em prática diariamente no hospital público em que trabalha, havendo divergências com o diretor da unidade, em relação à conduta nos tratamentos dos pacientes. Como se não bastasse, ela  só tem o pai idoso (o excelente W. J. Solha) como companhia diária. Mas devido a uma doença fatal que se manifestou, inesperadamente, Verônica terá que lidar com a ideia da perda iminente e com a sensação de "vazio". 

Um dos grandes méritos do filme é a entrega de Hermila ao personagem. Quem já não passou por situações semelhantes ao da protagonista e viveu seus anseios, dúvidas e angústia? Está tudo lá, na telona, captado com  delicadeza pelo olhar de Gomes, amparado pela bela fotografia de Mauro Pinheiro Jr. (o mar de Boa Viagem nunca se mostrou tão belo...).

Outro ponto positivo do roteiro é mergulhar no universo da classe média urbana nordestina. Nove em cada 10 fillmes rodados nesta região, ainda privilegiam o interior, com seus personagens caricatos, de sotaques carregados e tramas ensopadas de desgraças. O próprio Marcelo Gomes, em "Cinema, Aspirinas e Urubus", explorou alguns desses elementos. Agora, mostra versatilidade como roteirista e diretor, nesse longa-metragem que não passou despercebido no Festival de Cinema do Amazonas (Melhor Filme e Melhor Atriz), encerrado há uma semana.


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