domingo, 24 de janeiro de 2010

Nem Que o Mundo Fique de Cabeça Para Baixo...

...dá para "engolir" o filme "Do Começo ao Fim" de Aluizio Abranches. O filme que trata do amor incondicional  entre dois irmãos, não choca em si pela questão incestuosa e homossexual. Pior, decepciona pela falta de maturidade em Abranches ao abordar o tema.

O diretor, que também assina o roteiro, perdeu a oportunidade de realizar um dos filmes brasileiros mais instigantes da contemporaneidade, tendo em vista o foco no tabu que permeia a relação de incesto entre dois meio-irmãos. Ao abster-se de explorar qualquer tipo de conflito por conta da situação, ele gera um filme utópico, asséptico e vazio.

Utópico, porque em pleno Rio Janeiro, numa família de clase média alta, a atração entre dois jovens irmãos - Francisco e Thomás- causaria um desconforto não só entre os pais (como chega a acontecer, de relance, quando eles ainda eram crianças), mas também no convívio social de ambos. Mas isso não é cogitado em momento algum.

Asséptico, porque a estética de comercial "Delícia Cremosa" está presente no filme, com a utilização de cenas em câmera lenta auxiliadas pela trilha sonora, e também a limpeza e organização excessiva da residência da família  faz pensar que o pessoal ali, não habita o lugar.

E por fim, vazio, oco, porque a história é cheia de falhas, perguntas sem respostas, ausência de conflito,  diálogos medíocres. Todo drama que se preze, tem um conflito, imagine essa história então, que perpassa pelo campo da polêmica. O que vemos é uma preocupação em enaltecer a relação amorosa/româtica, em detrimento dos possíveis questionamentos, discussões em torno do que é o amor entre dois homens e, ainda por cima, ligados por laços fraternais.

É por essas e outras questões (erros de continuidade, interpretações medíocres de bons atores, roteiro fraco) que "Do Começo ao Fim" foi para mim, uma grande frustração. O público que  lotou a sala 7 do Cinemark Jardins, ontem à noite, na Sessão Notívagos para assisti-lo, em sua maioria, também não aprovou.

A noitada valeu mesmo pela boa performance de Diane Veloso (melhor como atriz que cantora), à frente da Banda dos Corações Partidos, com seus arranjos bem elaborados e musicalidade envolvente.

Ficha Técnica

Do Começo Ao Fim (BRA- 2009)
Direção e Roteiro: Aluizio Abranches
Elenco: Julia Lemmertz, Fábio Assumpção, Gabriel Kaufman, Lucas Cotrim, João Gabriel Vasconcellos e Rafael Cardoso, Jean Pierre-Noher, Louise Cardoso

Texto: Suyene Correia

4 comentários:

um ser anônimo de outro estranho disse...

de cara parabenizo ao roberto pela iniciativa sim de trazer este filme,como também dos demais anunciados ontem antes do show,mas também já ditos pela suyene em seu blog. quanto ao filme de fato não é lá todas essas coisas mesmo!falemos primeiro do filme quanto à sua produção.ele tem muitos erros de continuidade e inclusive um erro terrível também junto a um de continuação,que foi de maquiagem na personagem do fábio assunção.sem esquecer também do problema do áudio que ao contrário que muitos pensavam não é culpa totalmente do cinemark.claro que as caixas estourando é um problema à parte da sede aracajuana,mas os demais é sim do filme,pois a primeira vez que o vi estava em ssa e presenciei as mesmas coisas.há também tendências à propaganda de margarina nas sequências de cenas,que pelo que ouvi eu não fui o único a percebê-las,ao menos isso não me dá o posto de "ser do contra".já com a trilha,creio que poderiam explorar outras músicas ou até mesmos modificar o arranjo da que serve como tema do filme. as vezes releituras são bem interessantes ao invés de repetir bastante como também prolongar o tempo de duração durante as sequencias.a coisa que salvou o filme foi apenas a fotografia,que foi bem construída e escolhida.
partindo agora para à "problemática" discutida no filme,queiram me desculpar as pessoas que acharam lindo o embelezamento do filme a partir do romantismo sobre a situação e em um âmbito micro,que de certa forma para mim isso é bacana sim.mas generalizar de forma meio que indireta que perante à situação, é algo tratado de forma normal e levada "numa boa"?me perdoe,mas é um exagero de abranches.Até mesmo a desconfiança, quanto aos meninos, das personagens Julieta e Alexandre chegou a um ponto de ser bem esteriotipada no sentido caricatural quanto a expressão dos sentimentos.A discussão sobre 'ciúme' também foi bem amadora,artisticamente falando.o momento hétero venhamos e convenhamos foi bem tosco.pois se alguém se mostra resolvido sexualmente não vai tentar buscar em outro sexo o que gosta mesmo...

um ser anônimo de outro estranho disse...

...já que até onde entendi não houve espaço para o que se é normal ver na adolescência,onde geralmente ocorre crises de identidade,que até onde sei meio que normal a maioria das pessoas passarem por ela já que a homossexualidade não é tratada, socialmente falando certo, como algo normal.embora ao meu ver para mim "ou você abre a cabeça,ou morre" e portanto o assunto deve ser levado sim ao natural e até mesmo já seria natural. E como esse assunto foi tratado de maneira tão auto-resolvido,não tem explicação alguma para uma pessoa que se diz resolvida quanto à sua sexualidade e se deita com alguém do sexo oposto,hein!Sobre o arrependimento pela traição,há de se convir também que de acordo com a sequencia de caricaturas para representação de sentimentos,pecou-se um pouco novamente nessa cena.No entanto sei muito bem,que de certa forma as coisas acontecem sim daquela maneira,não foi à toa que mencionei apenas um pequeno exagero quanto a isso.E por fim,no final, que muitos disseram não entender e mesmo também acharem "um final oco", vazio, vejo que quando vc ama alguém e se vê separada dela morando em cidades diferentes e que ainda por cima são separadas por um vasto oceano, a reação, ou melhor a falta de reação é algo normal.Já que nesse caso o estado de choque demora alguns segundos para passar.Creio que isso foi mostrado sim, no entanto em um filme que não havia mais nada para se expor,mesmo porque não foi exposto nada sobre o assunto, que não esqueçamos além da homossexualidade tratou-se também do incesto que não é nem um pouco mesmo encaradi naturalmente independente do sexo relacionado a ele,então só cabia terminá-lo com esse "vazio" todo de algo que nem foi preenchido.
Enfim, creio que foi um tiro no escuro em que não acertou o alvo totalmente. Talvez se tivessem 'ascendido a luz' o "alvo" seria atingido.
De qualquer forma mais uma vez parabenizo a Roberto pela iniciativa.Nós que gostamos de filmes, com certeza ficamos gratos pela oportunidade de vê-lo e discutí-lo!

ps: fica aqui meu elogio aos meninos da banda dos corações partidos com seus arranjos musicais belíssimas e bem envolventes. parabéns meninos!

Marcinha disse...

O fato é que, num filme com uma temática gigante e polêmica - uma relação incestuosa entre irmãos do mesmo sexo - perdeu-se todo o tempo trabalhando apenas a saudade de duas pessoas que se amam e vivem em cidades diferentes. Isso sem contar tantos outros erros evidentes demais. Um universo de discussões que estavam ali para ser explorado simplesmente não apareceu. Ninguém questiona - nem o casal, nem os que vivem ao redor. É estranho. Mas valeu pela noite e pelos debates gerados!

deFormance disse...

Sim... corpos globais, sonhos sem aprofundamento em cor.

Enfim, um tema forte num Éden burguês sem dor.

Abraços (Adoro seu Blog)